Cinturão Vermelho / Redbelt


Nota: ★★★½

Anotação em 2008: Este filme é fascinante por vários motivos. É dirigido e escrito por David Mamet, o que já é garantia de bons serviços prestados. Consegue ser um filme sobre artes marciais e ao mesmo tempo absolutamente cerebral, inteligente – o que é a união de duas coisas que jamais a gente poderia imaginar ver juntas. E, além disso, é cheio de brasileiros e referências ao Brasil.

Como é comum nas histórias de Mamet, a trama tem mais curvas do que a estrada de Santos e mais surpresas que o futebol. Nas primeiras seqüências, ele espalha diversos personagens.

O filme abre em uma academia de luta, com um homem  ensinando jiu-jitsu como se estivesse dando uma aula de filosofia zen. Uma mulher passa por eles rumo aos fundos da academia. Dois homens estão lutando, seguindo as instruções do treinador. A seqüência é longa.

Corta, e temos um carro sob chuva forte; dentro dele, uma jovem fala ao telefone. Está agitada, nervosa; procura uma determinada farmácia, precisa de um remédio que só encontraria ali, mas sabe que o lugar fecha às 8 da noite, são 8 da noite. Ela vê um homem saindo em seu carro que estava estacionado diante da farmácia; perdeu a hora, não encontrará o remédio. Ela se distrai, bate o carro num outro que está parado junto à calçada.

Corta. A mulher que entrou na academia está diante do computador, ao telefone; está cuidando das contas a pagar.

Corta. O homem que estava lutando pega uma arma, coloca no coldre – vemos que ele é um policial. Está se preparando para sair da academia. O treinador vem conversar com ele, mostra um golpe. O policial tira o revólver e o deixa numa mureta.

Neste momento, entra na academia a mulher nervosa que estava lá fora na chuva. Explica, sem ser ouvida direito, que bateu o carro, está disposta a pagar pelo estrago. O treinador pede que ela se acalme, que tire o casaco encharcado, pede ao policial que tire o casaco dela. O policial se aproxima para ajudá-la a tirar o casaco, ela reage bruscamente, quase histericamente, pede que o outro se afaste e não encoste nela, vai andando para trás, encosta no revólver deixado na amurada, a arma dispara, quebra o vidro frontal da academia.

É muita informação para apenas cinco, oito minutos de filme. É de tirar o fôlego. 

Veremos que a cidade é Los Angeles. O treinador é Mike Terry (Chiwetel Ejiofor), o dono da academia. O policial que aprende jiu-jitsu com ele chama-se Joe (Max Martini). A moça que cuida das contas é a mulher brasileira de Mike, Sondra (Alice Braga). A jovem nervosa é Laura (Emily Mortimer) – bem mais tarde veremos que ela é advogada, e ficaremos sabendo o motivo de seu pânico, suas reações quase histéricas.

Em seguida, surgirão diversos outros personagens – um famoso ator de cinema, Chet (Tim Allen); seu empresário, Jerry (Joe Mantegna); sua mulher, Zena (Rebecca Pidgeon). E várias outras pessoas envolvidas com jiu-jitsu, inclusive diversos brasileiros, com artes marciais e com luta-livre, uma grande paixão americana. 

Todas essas pessoas vão se envolver numa trama cheia de ambição, cobiça e, sobretudo, corrupção, muita corrupção. A teia de corrupção tentará envolver Mike Terry – um homem de princípios absolutamente rígidos, moral firme, que ensina a seus alunos que o esporte deve ser usado para o autoconhecimento e para a autodefesa em momento de necessidade, e nunca como forma de competição. Um herói de retidão de caráter cercado de lei de Gérson, cobiça e lama por todos os lados.

O elenco está todo excelente. Não é surpresa, em se tratando de Mamet, um experiente diretor de atores no teatro e no cinema. Esse rapaz Chiwetel Ejiofor é ótimo. A inglesa Emily Mortimer, como a jovem advogada, dá um show. É uma maravilhosa atriz, que já havia me impressionado no belo e triste Querido Frankie/Dear Frankie; trabalhou com Woody Allen em Match Point, é uma artista a ser observada e seguida. Rodrigo Santoro se sai bem.

E Alice Braga está muito, mas muito bem – e seu papel é importante, decisivo na trama. Ela é bonita, é gostosa, o inglês dela é ótimo, tem talento e tem sorte. A carreira internacional dela promete. Na verdade, não é que prometa – já cumpriu. Essa moça já chegou longe, para a tão pouca idade que tem (é de 1983). O que vier daqui pra frente, e que venha muito, é lucro.

Sou muito ignorante. Não tinha a menor idéia de que o jiu-jitsu brasileiro tivesse tamanho reconhecimento nos Estados Unidos. O Brasil é citado diversas vezes; São Paulo é tida como uma cidade importante no panorama do jiu-jitsu mundial. Numa seqüência ainda do início do filme, logo após aquelas que tentei descrever acima, Terry irá a um bar de brasileiros, chamado São Paulo, onde uma cantora de voz macia, suave, se apresenta – é Luciana de Souza, a brasileira radicada nos Estados Unidos que tem sido muito elogiada e respeitada lá, tem belos discos feitos lá cantando em inglês e em português.

Quem aparece muito pouco no filme é outra cantora e compositora nas horas vagas, a bela atriz Rebecca Pidgeon, mulher de Mamet na vida real. Quase não a reconheci – e sou fã dela, como atriz e como cantora.

Em um dos vários especiais do DVD do filme, David Mamet conta que fez luta livre no ginásio, praticou boxe e um pouco de kung fu. Cinco anos antes de fazer este filme, começou a praticar o que ele chama de “Brazilian jiu-jitsu”, com um professor brasileiro, Renato Magno. “Conheci todos os caras ao lado de quem ele cresceu em São Paulo”, diz o diretor, “e acabou que eles eram a família Gracie e os Machado, que revolucionaram o jiu-jitsu e inventaram o fenômeno das artes marciais misturadas”.

Quantos brasileiros sabem disso, dessa importância do Brasil e de brasileiros nas artes marciais? Ou será que a ignorância é só minha?

Bem, os outros, não sei, mas que é ignorância minha, lá isso é mesmo. Algumas semanas depois que vi o filme (e vi em 2008, o mesmo ano da estréia nos cinemas brasileiros), morreu, no dia 29 de janeiro de 2009, aos 95 anos de idade, Hélio Gracie, e vejo nos jornais que ele foi o fundador do que é chamado de Gracie Jiu-Jitsu, “um estilo totalmente seu de lutar e de ensinar a milhares de alunos e discípulos da milenar arte japonesa”. O Gracie Jiu-Jitsu é o que David Mamet chama de Brazilian jiu-jitsu. Mamet sabe tudo sobre os Gracie – eu é que não sabia nada. Santa inguinoransa.

Cinturão Vermelho/Redbelt

De David Mamet, EUA, 2008

Com Chiwetel Ejiofor, Emily Mortimer, Alice Braga, Ricky Jay, Tim Allen, Randy Couture, Joe Mantegna, David Paymer, Rodrigo Santoro, Rebecca Pidgeon

Argumento e roteiro David Mamet

Produção Sony Pictures Classics. Estreou em São Paulo 20/6/2008

Cor, 99 min

***1/2

Título em Portugal: Redbelt – Código de Honra

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