A Voz do Meu Coração / Grace of My Heart


Nota: ★★★½

Anotação em 1998, com complemento em 2008: Este é um excelente filme. Não tem qualquer truque ou brilho especial de narrativa; ao contrário, a narrativa é convencional, quase acadêmica. Todos os atores estão ótimos, os personagens são claros, nítidos, bem desenhados. É profundamente anti-racista e anti-sexista, embora os temas racismo e sexismo sejam secundários.

Mary achou o filme na 2001 pelos atores e pelo fato de que Martin Scorsese é o produtor executivo. Eu nunca tinha ouvido falar nem da diretora Allison Anders nem dessa atriz Illeana Douglas. (Depois disso, veria vários filmes com ela. É uma boa atriz.) 

É a história de uma compositora e cantora pop, uma singer-songwriter que mistura elementos de Carole King e de Joni Mittchell; os personagens são fictícios, mas todas as situações são familiares para quem acompanha alguma coisa da música pop americana entre 1957 e 1970. E o filme cita pessoas e grupos reais, como os Beatles, Byrds, Phil Spector, etc. A trilha, excepcional, mistura canções que fizeram sucesso com outras compostas especialmente para o filme. Ou seja: é uma ficção toda apoiada em fatos históricos.

O personagem de Illeana Douglas chama-se Edna Buxton. A ação começa em 1957, quando ela, ao final do colégio, na Pensilvânia, participa de um concurso de novos talentos, contra a vontade da mãe, uma milionária – a família é dona de uma empresa siderúrgica. Embora uma negra de voz maravilhosa participe do concurso (e as duas trocam de vestidos, Edna entregando para a concorrente o vestido branco caríssimo que a mãe dominadora havia comprado para ela), Edna sai vencedora, cantando uma canção de sua própria autoria. Ganha um contrato com uma pequena gravadora.

Há um corte, e estamos em Nova York 18 meses mais tarde. Ela percorre diversas gravadoras, para ouvir sempre que cada uma já tem a sua cantora à la Peggy Lee, e na verdade estão todas querendo se livrar das Peggy Lees, pois acabou a época das cantoras de voz doce e o tempo é de conjuntos vocais.

Eventualmente, o demo que ela grava com sua primeira composição chega às mãos de um empresário judeu (bem interpretado por John Turturro, com uma barbicha ridícula e um sotaque que me pareceu perfeito). O empresário saca que ela é uma compositora de grande potencial para fazer hits atrás de hits; ela quer gravar ela própria suas músicas, mas ele insiste em que ela deve apenas compor. Ele também inventa para ela uma nova persona: Edna passa a se chamar Denise Waverly, filha de operários da Pensilvânia. Ela de fato compõe diversos hits, alguns deles para a negra de bela voz do início do filme, que forma um trio vocal bem típico daquele final dos anos 50.

Também eventualmente, ela vai conhecer um outro compositor (Eric Stoltz), um personagem interessante, comunista ferrenho, que se propõe a formar uma dupla com ela; vivem juntos, até ela engravidar e eles se casarem; sabemos todos, espectadores e personagens, que ela tem mais talento do que ele.

Eles trabalham no Brill Building, o prédio da Tin Pal Alley, o lugar onde, no final dos anos 50 e começo dos anos 60, diversos empresários alugavam salas onde compositores se dedicavam a criar sucessos. Era a usina de sucessos das pop songs da época. Há uma tomada da fachada do prédio, no número 1650 da Broadway.

Também eventualmente, ela o descobrirá na cama com outra mulher, e eles se separarão.

O filme vai mostrando toda a trajetória do personagem. Passam por todas as loucuras dos anos 60; ela se casa de novo, com o líder de conjunto de música de surfe da Califórnia (bem Beach Boys, em alguns pontos), interpretado por Matt Dillon. Ele tenta produzir um disco dela, chega a fazer um compacto, mas é um fracasso; acabará se matando. A narrativa vai até 1970, quando finalmente ela consegue gravar o seu primeiro LP, produzido pelo seu primeiro empresário; na cena final, a mãe dela – de quem não se voltou a falar ao longo do filme inteiro – recebe o disco, e chora.

Para mim, desde o início pareceu uma trajetória muito semelhante à de Carole King; como essa Denise Waverly, Carole King trabalhou no Brill Building, casou-se com o parceiro Gerry Goffin; escreveu muitos sucessos para conjuntos vocais com nomes parecidos com The Sheirelles; e exatamente em 1970 conseguiu gravar seu primeiro LP como autora (Writer; Tapestry veio um ano depois, e é um dos álbuns mais vendidos da história).

O filme é fascinante nessa coisa de criar personagem fictício a partir de dados da realidade da música pop. As composições feitas para o filme são boas, são exatamente como eram as músicas pop da Tin Pal Alley, gostosinhas mas sem profundidade, sem revelar a verdade de quem compunha – realidade que só seria mudada a partir de Dylan, dos Beatles e dos singer-songwriters como Joni Mitchell e James Taylor. Fiquei profundamente impressionado com isso: foram compostas, para o filme, pelo menos 12 canções, que seguramente teriam sido sucesso se tivessem sido lançadas naquela época. O autor de várias delas assina a trilha sonora – Larry Klein. (Coincidência, ou não, Carole King nasceu Carole Klein.) Veja só quem assina pelo menos duas outras: George Goffrey. Ele mesmo, ex-Mr. Carole King. Outra é uma parceria estranha de Burt Bacharach e Elvis Costello; a versão tocada no final é cantada por Costello.

Mas é também, mesmo para quem, ao contrário de mim, não tem tanta ligação com a música pop, um belo filme sobre a trajetória sofrida de uma mulher determinada, que enfrenta diversas barras pesadas até finalmente conseguir realizar o que pretendia. Tem também aquela densidade de filme que passa em revista décadas na vida de uma pessoa, e pode ao final fazer um balanço da trajetória do personagem; a coleção de fotos dos vários momentos da vida da personagem que vai sendo apresentada na seqüência final é absolutamente emocionante.

Ah, sim. Para registrar o que acabo de aprender no Cinemania. Allison Anders, nascida em 1955 no interiorzão bravo, acho que Kentucky, teve uma vida de cão; foi estuprada aos 12 anos, abusada sexualmente na adolescência por um padrasto, teve colapso nervoso aos 17 e pouco depois tinha o primeiro filho. Fez cinema na UCLA e começou a trabalhar, de tanta insistência, como assistente de alguma coisa em Paris, Texas (fã do Wenders, escreveu dezenas de cartas pra ele pedindo um emprego). Não conheço nenhum de seus filmes anteriores.

Illeana Douglas (nada a ver com Kirk e Michael), essa moça talentosa, de beleza estranha e olhos gigantescos, nasceu em 1964; é de alguma forma apadrinhada pelo Scorsese, produtor executivo deste filme; fez ponta em Última Tentação de Cristo, tem uma pequena parte em Cabo do Medo (é a funcionária que é seduzida, violentada e morta  pelo personagem de Robert De Niro). Fez ponta também no filme com De Niro sobre a lista negra, Culpado por Suspeita/Guilty by Suspicion, de Irwin Winkler.

A participação especial, não creditada na apresentação, de Bridget Fonda é fantástica.(Nem Mary nem eu percebemos que era ela; só no final, na apresentação da lista do elenco, foi que vimos.) Prova, mais uma vez, que essa moça tem tantas caras quantas ela quiser. Ela faz a cantorazinha ingênua, um tipo assim que faz lembrar Sandra Dee ou Debbie Reynolds, que surpreende a personagem central por ser gay quase abertamente assumida.

E o pai de Bridget, Peter, participa dando a voz ao guru a quem Denise procura quando perde o marido.

Ileanna Douglas, como disse lá em cima, eu veria depois deste filme em diversos outros; a diretora Allison Anders aparentemente não teve uma carreira à altura do talento que demonstrava aqui; ficou mais voltada para a TV; dirigiu, por exemplo, entre 1999 e 2000, quatro episódios da série Sex and the City.

A Voz do Meu Coração/Grace of My Heart

De Allison Anders, EUA, 1996.

Com Illeana Douglas, John Turturro, Matt Dillon, Eric Stoltz e, em participação especial só creditada no final, Bridget Fonda

Argumento e roteiro Allison Anders

Música Larry Klein

Produção Universal

Cor, 116 min

***1/2

3 Comentários

  1. Magali Almeida
    Postado em 7 março 2011 às 12:59 am | Permalink

    Assisti uma vez o maravilhoso Grace of My Heart em vhs alugado da 2001, existe em dvd e como encontrar ? estou procurando faz tempo.

  2. deise
    Postado em 17 maio 2011 às 12:25 am | Permalink

    aonde posso encontrar para comprar esse filme?

  3. Ivone Louvain
    Postado em 28 agosto 2011 às 10:30 am | Permalink

    Filme fantástico! Grande divisor de águas na história da música e no Universo Feminino! Amei!

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