Suspeita / Suspicion

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Nota: ★★☆☆

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Este é o filme da famosérrima cena em que Cary Grant sobe as escadas quase circulares de uma grande casa, ao som suave de uma valsa, carregando o copo de leite que todos os espectadores acreditam ter veneno para matar a mulher, interpretada por Joan Fontaine.

É uma das cenas mais famosas da história do cinema, e é belíssima, de fato, com uma iluminação expressionista na esplêndida fotografia em preto-e-branco. Mas Suspeita, embora tenha tido indicação para o Oscar de melhor filme, é um dos mais fracos de todos os da fase americana do mestre Hitchcock – e envolve uma grande polêmica.

Joan Fontaine (que havia trabalhado um ano antes, em 1940, com Hitchcock em Rebecca, a Mulher Inesquecível, e ganhou o Oscar neste filme aqui) faz a mulher muito rica que se apaixona por um sujeito charmoso mas obviamente mau caráter e irresponsável (o papel de Cary Grant). Casam-se; ele vai dando todas as demonstrações possíveis de que não presta, mas ela demora demais para perceber o óbvio. Finalmente cai a ficha, quando o maior amigo (Nigel Bruce, em estupenda atuação) do marido aparece morto em circunstâncias misteriosas, e ela passa a temer pela própria vida.

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 Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

 Há uma grande controvérsia sobre o final do filme. No livro que deu origem a ele, o marido é mesmo um assassino. No filme, o personagem de Cary Grant vira, no último momento, um sujeito inocente como um anjo. Hitchcock passou o resto da vida dizendo que fez isso por ordem dos produtores, que teriam vetado a idéia de um Cary Grant, um dos maiores galãs do cinema, no papel de um assassino.

Os extras do DVD chegam a mostrar como teria sido o final certo, imaginado pelo diretor. Leonard Maltin também crava que o final foi imposto pelo Código de Produção adotado pelos grandes estúdios. Mas o livro The RKO Story garante que o roteiro original – feito, entre outros, por Alma Reville, a mulher do diretor – foi o que de fato foi filmado. “O roteiro mudou o final da novela, transformando o marido em vilão apenas na imaginação da mulher. Isso foi feito por insistência do diretor, embora depois ele tenha diversas vezes protestado que os chefões da RKO o forçaram a empregar esse final inconvincente.”

Esta é a versão do livro The Films of Alfred Hitchcock, de Robert A. Harris e Michael S. Lasky:

“A história de Alfred Hitchcock em Hollywood é uma história de estúdio atrapalhando o que poderia ser um produto ainda melhor. No caso de Suspicion, um executivo da RKO, que pensava ser errado sequer sugerir que Cary Grant fosse um assassino, mexeu na montagem final de Hitchcock removendo todas as indicações de que Grant era o bandido. Isso deixou a versão do estúdio com menos de uma hora de duração. A chefia do estúdio percebeu o ridículo da situação e permitiu que um desapontado Hitchcock reinserisse a maior parte do que havia sido extirpado da versão original. Mesmo assim, Hollywood exigia finais felizes nos anos 40, e o final do filme não é fiel ao da novela original.”

O filme tem o valor histórico de carregar essa polêmica ao longo das décadas – além de mestre do suspense, o velhinho gorducho era também um mestre do marketing pessoal, e eu não duvidaria nada se tudo isso, toda a polêmica, não fosse uma maquinação bolada por ele por puro marketing, naqueles seus primeiros anos no cinema americano.

Tem também o outro valor histórico de ter sido a primeira colaboração Hitchcock-Cary Grant. Depois eles fariam juntos maravilhas – Interlúdio/Notorious, de 1946, Ladrão de Casaca/To Catch a Thief, de 1955, e Intriga Internacional/North by Northwest, de 1959.

OK. Tem a cena da escada, brilhante, bela fotografia, bela música de Franz Waxman e boas interpretações de Joan Fontaine e Nigel Bruce. Mas o fato é que esse final – que de fato não convence ninguém – destrói o filme. A história toda vira uma imensa bobagem.

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Suspeita/Suspicion

De Alfred Hitchcock, EUA, 1941.

Com Cary Grant, Joan Fontaine, Nigel Bruce, Cedric Hardwicke, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Leo G. Carroll

Roteiro Samson Raphaelson, Joan Harrison e Alma Reville

Basedo na novela Before the Fact, de Frances Iles

Fotografia Harry Stradling

Música Franz Waxman

Produção RKO

P&B, 99 min

2 Comentários

  1. Miguel
    Postado em 24 novembro 2014 às 11:44 am | Permalink

    Quando vi este filme pela primeira vez, não me convenceu. Para um filme de Hitchcock, não achei nada de especial embora a ideia base seja mt apelativa. No entanto, à medida que revi o filme passei a gostar mais. Neste momento, devo dizer que é um filme que gosto. Cary Grant está estupendo pois consegue criar uma grande ambiguidade em torno da sua personagem. A Joan Fontaine está igualmente magnifica: a sua doce fragilidade tornam-na a mulher insegura perfeita. Apesar de tudo, ela brilha mt mais em Rebecca, com a sua beleza e, mais uma vez, a insegurança que lhe é tão característica, pelo menos enquanto atriz. Como o Sérgio disse, o final “estraga” o filme: eu preferia que ele fosse o assassino, mas não é só por não ser que, para mim, o final é bobo. Não gosto do final pq ele próprio não é muito claro. A verdade é que o espectador nunca fica com a certeza se ele, de facto, não a quer matar. Pode tê-la salvado de cair da falésia mas mesmo assim o final é ambíguo (pelo menos eu achei). A montagem da cena final tb é confusa e mm na versaõ em que ele a mata, a montagem está uma trapalhada. Sinceramente, o final do filme estava condenado a ser mau e isso estraga um pouco o resot do filme que se vê bastante bem. A música é bonita e eu nem gosto mt de Waxman. É um ponto que ganha em relação a rebeca, que tem o mesmo compositor

  2. Claudio
    Postado em 22 março 2016 às 8:05 am | Permalink

    Cuidado pode ter SPOILERS:
    Gosto desse filme, concordo que é um Hitchcock menor e que o final alternativo seria melhor, gostaria principalmente que o final fosse um imaginado por Hitch onde a mulher apaixonada pelo marido se deixava se matar estrangulada num colar de diamantes. Gosto de finais dramáticos. E Cary Grant é um dos atores mais injustiçados do cinema, ele está fantástico aqui, e merecia uma indicação ao Oscar, mais do que a Joan Fontaine, de quem nunca gostei, exceto em Rebecca; sempre preferi a irmã dela Olivia De Havilland, que alíás acho que faria melhor uns três papeis da irmã: este aqui em Suspeita, Jane Eyre e o já citado Rebecca, aliás, Olivia era a escolha de Hitchcock para Rebecca, mas por causa de E o Vento Levou… ela não pode fazer.

7 Trackbacks

  1. […] se chama Lisa Berndle (o papel de Joan Fontaine), e era uma adolescente quando Stefan Brand, então um jovem e aclamadíssimo pianista, se mudou […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Tarde Demais / The Heiress em 12 maio 2011 às 7:13 pm

    […] mau caráter e irresponsável, o papel de Cary Grant. O nome do filme de Alfred Hitchcock – Suspeita/Suspicion – indicava o óbvio: a mulher, assim como o espectador, suspeitará que o marido tenha se casado […]

  3. […] Grant em Suspeita /Suspicion, […]

  4. […] aquela senhorinha inglesa idosa, simpática, afetuosa, total gracinha, Miss Froy (Dame May Whitty), que conta ter vivido naquele país (cujo nome jamais é dito) durante seis anos, como preceptora […]

  5. […] Apesar dessa falta de apreço à verdade dos fatos, às histórias reais vividas por Sherlock Holmes, no entanto, essa série de 14 filmes tem importância inegável. Para várias gerações, o rosto de Sherlock Holmes é o rosto narigudo de Basil Rathbone, e a figura de John Watson é a silhueta rotunda de Nigel Bruce. […]

  6. […] Wyler, Relíquia Macabra/The Maltese Falcon, de John Huston, Sargento York, de Howard Hawks e Suspeita/Suspiction, de Alfred […]

  7. Por 50 Anos de Filmes » O Delator / The Informer em 24 maio 2016 às 3:00 am

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