O Clube do Imperador / The Emperor’s Club


Nota: ★★★½

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Um filme sobre um professor exemplar e seus alunos. Mais um filme hollywoodiano sobre um bom professor e sua influência libertária sobre o comportamento dos alunos de uma escola para filhos de ricos, como Sociedade dos Poetas Mortos ou O Sorriso de Mona Lisa? Aí é que está: não é nada disso.

Eis aí uma obra rara, raríssima: ela discute moral, valores morais, num mundo que está perdendo avassaladoramente as noções sobre moral. É um filme sobre adolescentes, mas não é um filme adolescente. É um filme adulto, maduro, que parte de uma perspectiva adulta, madura.

O que está em questão aqui – ao contrário dos filmes citados acima – não é propriamente um comportamento mais libertário, menos preconceituoso, menos careta. O que se discute aqui é mérito pessoal, esforço, estudo, empenho em adquirir conhecimento. Aprender, aprendizado, aprendizagem – a razão de ser da escola. E, como pano de fundo, a moral, o respeito aos valores morais básicos, decência, honestidade, honra.

William Hundert, o personagem de Kevin Kline, é um professor de História Antiga – e um professor à moda antiga -, num colégio para filhos de ricos. A escola tem uma tradição de fazer um concurso entre os alunos, com perguntas basicamente sobre o Império Romano, feitas por esse professor.

Num determinado ano da década de 60, a classe de Hundert está indo bem, até a chegada de Sedgewick Bell, um filho de um senador, menino mimado, irresponsável, preguiçoso, que passa a exercer uma liderança perigosa entre os alunos. Hundert investe nele, tenta obter o melhor dele, e consegue admiráveis progressos. No momento de decidir pelos três finalistas que participarão do concurso, Bell está em quarto lugar, a apenas um ponto do terceiro colocado – e Hundert, talvez pela primeira vez na vida, comete um erro moral: inverte a ordem para que Bell possa participar do torneio.

O erro moral tem suas justificativas: afinal, a diferença entre Bell e o terceiro colocado era mínima; colocá-lo entre os três finalistas seria uma forma de recompensar o rapaz que chegou como um elemento desagregador e mudou, passou a estudar com afinco. Então o professor erra.  

Durante o concurso entre os três finalistas, percebe que Bell está colando. Ao perceber isso, muda completamente de tática; foge das perguntas programadas, faz perguntas que exigem de fato conhecimento, e assim permite a vitória do mais preparado, um garoto de origem indiana.

Cerca de 25 anos depois, Bell, então um bem-sucedido executivo e prestes a entrar na política como o pai, anuncia que quer doar uma fortuna ao colégio, desde que Hundert refaça o concurso com os três mesmos contendores da época da adolescência. O colégio, é óbvio, tem todo interesse em que o concurso seja refeito: é muito dinheiro prestes a entrar em caixa. Hundert, então, refaz o teste com os mesmos três ex-alunos.

 Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

 E Bell cola de novo. E – muito pior ainda -, confrontado pelo professor, reage fazendo a defesa explítica da Lei de Gerson: E daí? Qual é o problema de trapacear? De que adianta ser honrado e pobre? Quem trapaceia é que dá certo; moral não faz o sucesso de ninguém.

Na entrevista nos especiais do DVD, o grande Kevin Kline, extraordinário ator, fala uma coisa maravilhosa. Comenta essa coisa de o filme discutir moral, através do ensinamento de História do início da civilização ocidental – num momento em que, acentua ele, os próprios princípios que basearam a civilização ocidental estão se perdendo, e portanto ela própria, a civilização ocidental, inicia seu declínio.

O Clube do Imperador/The Emperor’s Club

De Michael Hoffman, EUA, 2002.

Com Kevin Kline, Embeth Davidtz, Emile Hirsch, Rishi Mehta

Roteiro Neil Tolkin

Baseado no conto The Palace Thief, de Ethan Canin.

Cor, 108 min

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