A Senhora e Seus Maridos / What a Way to Go!


Nota: ★★★½

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Agüentou bem a passagem do tempo, essa comédia amalucada, um tanto frank-capriana, um tanto proto-hippie, feita em 1964, que brinca com o desprezo pelo dinheiro e o apego a bens mais importantes que ele.

Achei, revendo-a agora, quatro décadas depois, que ela continua engraçada e com boas sacadas. A jovem Shirley MacLaine era perfeita na comédia; no drama também, claro, mas aqui ela está absolutamente impagável como uma espécie de viúva negra contra a sua própria vontade.  

Mary gostou; ela ainda não tinha visto o filme, que eu vi muitas vezes quando garoto, em Belo Horizonte – e que, de alguma forma, nunca esqueci, certamente por causa desse tema que, embora levado aqui na brincadeira, é tão caro aos adolescentes daquela época, mas acho que também aos jovens de todas as épocas, a noção de que deve ter, tem que ter, é preciso ter coisa mais importante na vida do que bens materiais.

A brincadeira, a farsa, a falseta da história é esta: Louisa (o personagem de Shirley MacLaine, linda, encantadora aos 30 aninhos) é uma moça simples do interior que, ao contrário da imensa maioria das pessoas, não está nem aí para o dinheiro. Entre o rapaz feliz e pobretão, um tanto sonso, um tanto filósofo, leitor de Thoreau (Dick Van Dike) e o filho do homem mais rico do lugar (Dean Martin), ela escolhe o primeiro.

(Lembrando: Henry David Thoreau, 1817-1862, escritor e pensador americano, defendia que as pessoas deveriam ter uma vida simples, próxima da natureza. Defendia também o não pagamento de impostos e a resistência civil de todos contra os governos, que só fazem atrapalhar a vida das pessoas.)

Só que – maldição! – o marido de repente resolve deixar Thoreau de lado e trabalhar duro para ter uma vida melhor. Vira milionário (afinal, estamos nos Estados Unidos, a terra da oportunidade, a terra da fartura), trabalha 24 horas por dia, não tem mais tempo para a mulher – e bate as botas, deixando a fortuna para a viúva. 

A qual resolve enfrentar a dor da perda do marido na gay Paree, como dizem os americanos. Em Paris conhece um pintor americano doidão e expatriado (o papel do jovem Paul Newman), chegado a um existencialismo (era moda na época, certo?), que não está nem aí para as convenções, para o mercado – quer criar sua arte livre, não quer saber de dinheiro. Bem, casam-se, ele vende um quadro, vende outro – e aí vende a alma para o diabo, para a bufunfa, as verdinhas, a grana, o manistrone, money, money makes the world go round.

E a história vai se repetir mais uma, mais duas, mais três vezes.

Há várias seqüências marcantes, fortes, em tom de farsa total, sem qualquer pretensão de parecer realista, bem à frente do tempo. A seqüência em que o pintor, ensandecido pela ambição, põe várias máquinas para funcionar ao mesmo tempo é uma bela citação do episódio do Aprendiz de Feiticeiro que os estúdios Walt Disney fizeram em Fantasia (idem no original), de 1940. A seqüência em que o ator-bailarino-coreógrafo interpretado por Gene Kelly é perseguido por uma imensa horda de fãs que se transformam em elefantes é igualmente impressionante. 

E o personagem do analista (Robert Cummings) cansado de lavar suas próprias meias, para quem a viúva negra conta seus dramas, é delicioso.

Não tenho a mínima idéia do que falam sobre este filme os entendidos. Só sei que normalmente costumam desprezar o diretor inglês J.Lee Thompson (1914-2002), tido como burocrático e sem personalidade. Vamos então aos alfarrábios, para aprender um pouco com eles. 

Dame Kael não perdeu tempo com o filme. Stephen S. Scheuer esnobou; deu 2.5 em 4 e disse que é uma comédia de humor negro superproduzida e com bons números musicais.

Leonard Maltin gostou, deu 3 estrelas em 4: “As séries de paródias de filmes são engraçadas, e as atuações são uniformemente charmosas, especialmente Newman como um pintor obcecado e Kelly como astro de cinema egocêntrico.” E ele dá a dica do detalhe: “Uma das dançarinas no navio é Teri Garr” – uma pontinha dessa moça que seria depois uma boa atriz e trabalharia com Coppola, Spielberg, Mel Brooks, Sydney Pollack. 

A Senhora e Seus Maridos/What a Way To Go!

De J. Lee Thompson, EUA, 1964.

Com Shirley MacLaine, Paul Newman, Dean Martin, Robert Mitchum, Gene Kelly, Dick Van Dike, Robert Cummings, Teri Garr

Roteiro Betty Comden e Adolph Green

Baseado em história de Gwen Davis

Fotografia Leon Shamroy

Música Nelson Riddle

Produção Apjac-Orchard, distribuição 20th Century Fox

Cor, 111 min

R, ***1/2

5 Trackbacks

  1. […] produção anglo-americana de 1961, com roteiro do americano Carl Foreman e direção do inglês J. Lee Thompson, continua sendo um dos grandes filmes de guerra no estilo padrão, […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » O Indomado / Hud em 10 outubro 2010 às 4:28 pm

    […] um sentido positivo para o protagonista da história, o Hud do título original, interpretado por Paul Newman. E Hud é um […]

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  4. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 6 junho 2011 às 12:19 am

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