Viagens do Coração / Bon Voyage


Nota: ★★★★

Anotação em 2006, com complemento em 2008: Epa, eis aí um grande filme. É um daqueles filmes que contam a História enquanto contam histórias de personagens, alguns reais, outros fictícios, que participaram de um momento importante, um acontecimento marcante – no caso, a fuga de Paris antes da chegada dos invasores nazistas, em 1940.

É também um daqueles filmes tour-de-force, em que o diretor mostra o tempo que domina bem demais o seu ofício, que está fazendo um trabalho especial, esmerado, cheio de brilho. Costumo meter o pau em filmes assim. A questão é que tem gente que tenta mostrar que é genial mas não é, e em vez de belezas entrega ao público chatices. E tem gente que sabe fazer mesmo, como é o caso aqui.

Nisso, este filme lembra outros autores que gostam de fazer coisas espetaculares mostrando o tempo todo que estão fazendo coisas espetaculares – e de fato sabem fazer -, como, por exemplo, um Brian De Palma em Os Intocáveis ou Olhos de Serpente, ou Martin Scorsese em Cassino ou Os Infiltrados.

Como os filmes de Brian De Palma, este Viagens do Coração tem planos-sequências absolutamente geniais, longos, com centenas e centenas de figurantes, movimentos de câmara belíssimos, de tirar o fôlego, de dar vontade de rever em seguida.


É fascinante notar que exatamente o mesmo tema – a fuga de Paris antes da chegada dos nazistas – está em outro filme francês feito no mesmo ano, 2003: Anjo da Guerra/Les Égarés, de André Téchiné. E um não poderia ser mais diferente que o outro. Téchiné, um cineasta sensível que trata de relações familiares e afetivas, vai para o microcosmo. Conta a história de quatro pessoas, apenas – uma mãe, seus dois filhos garotos e um adolescente que se aproxima deles na retirada de Paris; é uma história pequena, em tom menor. Uma peça para um conjunto de câmara; um pequeno retrato.

Jean-Paul Rappeneau, ao contrário, vai para o macro. Quase sempre chegado a uma superprodução, faz um afresco, um painel, uma sinfonia. Mistura diversas histórias: a atriz de tremendo sucesso (Isabelle Adjani, lindíssima, diáfana, divina) que mata um homem, compromete um fã na tentativa de esconder o corpo e usa a fama e as relações com um ministro para escapar dos nazistas e da Justiça; o próprio ministro (Gérard Depardieu), envolvido nas paixões mundanas e nos negócios de Estado; jornalistas, espiões de todos os matizes ideológicos, socialites, bandidos, um cientista (Jean-Marc Stehlé) e sua bela e brava assistente (Virginie Ledoyen) – um monte de gente cujos destinos se cruzam num momento crucial da História.

Viagens do Coração/Bon Voyage

De Jean-Paul Rappeneau, França, 2003

Com Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Virginie Ledoyen, Peter Coyotte, Aurore Clément

Roteiro Jean-Paul Rappeneau, Patrick Modiano, Jérôme Tonnerrre, Gilles Marchand, Julien Rappeneau

Fotografia Thierry Arbogast

Música Gabriel Yared

Produção ARP Sélections. Estreou em São Paulo 26/11/2004.

Cor, 114 min

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » 8 Mulheres / 8 Femmes em 20 novembro 2011 às 11:58 pm

    […] Ozon, o cara que reuniu esse bando de estrelas, é um garotão. Está mais próximo das meninas Virginie Ledoyen e Ludivine Sagnier do que daquela maravilhosa trinca de atrizes maduras. Nascido em 1967, estava […]

  2. […] Viagens do Coração/Bon Voyage, de Jean-Paul Rappeneau, França, 2003 […]

  3. […] veterano Jean-Paul Rappeneau passou 12 anos sem lançar um filme, depois do maravilhoso Viagens do Coração/Bon Voyage, de 2003, uma obra excitante, feérica, um tour-de-force cheio de estilo, sobre a fuga de milhares […]

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