
Nota: 



Anotação em 2006, com complemento em 2008: Não envelheceu bem este filme que foi um marco, um cult na época em que a gente era muito jovem e nem usava essa palavra, que só viraria moda, e moda cult, muito depois.
Vi o filme pela primeira vez adolescente – e ficou na memória uma coisa idílica, bonita, prazerosa. Tudo era absolutamente belo – Marie Laforêt com aqueles gigantescos olhos verdes, aquela pele lindíssima sob o sol do Mediterrâneo, arranhando um violão e cantando com aquela vozinha pequena, suave e sensual. Não era possível admitir, mas, cacilda, Alain Delon e Maurice Ronet são igualmente bonitos, bonitos pra cacete. Aquelas roupas esportivas simples e maravilhosas, belos jeans e camisetas. O azul profundo do mar italiano. O dolce far niente, a vida boa de playboy endinheirado indo de Roma para o litoral, e para outra cidade do litoral mais linda ainda. E até o crime – o mocinho bonito mas pobretão pegando a assinatura, o iate, o dinheiro e a mocinha linda do mocinho rico – parecia quase uma conquista socialista, o proletariado expropriando os bens de produção da burguesia.
Ao rever o filme, 46 anos depois que ele foi feito, o charme derrete como sorvete au plein soleil.
As brincadeirinhas do jovem playboy rico com o jovem aventureiro que vai à procura do outro para tentar convencê-lo a voltar para casa não funcionam mais. Parecem patéticas, idiotas. Mas que diabo estão fazendo esses sujeitos na faixa dos 25, 28 anos, agindo feito adolescentes de 14 nas ruas de Roma? Por que não vão procurar alguma coisa de útil pra fazer na vida? E por que aquelas mudanças de humor, repentinas, de uma hora para outra? Por que de repente se abatia aquele tédio profundo naquelas pessoas?
Todos os personagens parecem hoje falsos como uma nota de 3, as situações todas parecem carecer absolutamente de qualquer tipo de sentido.
Acho que tem filmes da época da adolescência que a gente não deveria rever.
Algumas coisas, é claro, sobrevivem. A própria beleza do trio de atores. A fotografia de Henri Decae, um dos melhores diretores de fotografia do cinema. A música de Nino Rota, um dos maiores compositores do cinema. E – atração à parte, especial – a beleza ainda mais ofuscante que tudo o mais da jovem Romy Schneider, na época começando o namoro com Alain Delon, na transição da atriz adolescente de Sissi para a estrela de Visconti e Sautet. Ela é apenas uma figurante; aparece rapidamente numa seqüência numa rua de Roma, no início do filme. É de babar.
Vamos ver o que diz quem entende do assunto.
Estranho: Sérgio Augusto não selecionou esse filme para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema, de Pauline Kael. Vamos ao livro original, 5001 Nights at the Movies:
“Maurice Ronet e Alain Delon como americanos decadentes vagabundeando na Itália – Ronet rico e vicioso, Delon pobre, amoral e assassino. Quando Delon experimenta as roupas de Ronet, é claro que elas ficam melhores nele. O diretor, René Clément, mantém esse thriller no estilo de cartões postais de viagem de férias ensolaradas, com o ódio homossexual e a inveja inflamando. Cria uma atmosfera sensual, pesada; você se sente como se estivesse respirando alguma coisa bela e podre.”
Falta mencionar o óbvio: a história de Patricia Highsmith foi refilmada em 1999 por Anthony Minghella, com Jude Law no papel que tinha sido de Maurice Ronet, Matt Damon no de Alain Delon e Gwyneth Paltrow no de Marie Laforêt, mantendo o título do livro, The Talented Mr. Ripley, O Talentoso Ripley. Está mencionado.
O Sol Por Testemunha/Plein Soleil
De René Clement, França-Itália, 1960.
Com Alain Delon, Marie Laforêt, Maurice Ronet
Baseado no livro The Talented Mr. Ripley, de Patricia Highsmith
Fotografia Henri Decae
Música Nino Rota
Cor, 112 min
Título em Portugal: À Luz do Sol


6 Comentários
Um dos filmes que marcaram minha vida no período da juventude. Sempre aconselho os jovens a vê-lo. Eu mesmo quero ver de novo.
Hoje eu tenho 60 anos.Ví o filme e outros tantos da época. Sempre fui apaixonada por cinema. Alguns lembranças ficam para sempre na vida da gente.
Estranho esse sentimento não é? Como pode algo que adoramos um dia, simplesmente se desintegrar no tempo. Ainda bem que nos sobra a beleza!
Desculpe. Gosto é gosto. Mas vc pegou pesado
demais. Esse filme foi, é e, daqui 30 anos,
será maravilhoso. Alain Delon e Gerard Phillipe foram os maiores galãs do cinema francês de todos os tempos. Maurice Ronet era um ator extraordinário – notável no
soberbo 30 Anos Esta Noite (Feu Follet). E, ainda mais, a história é sensacional. Sem
ofensa, mas naõ aceito comparação com a versão americana “O Talentoso Ripley”, apesar
de Gwyneth Paltrow, Jude Law e Matt Damon.
Esse filme nos fez todos sonharmos em ter um
iate e vagabundear pelo mundo…
Caro Mário, pelamordedeus, não é o caso de pedir desculpa! Posso, sim, ter pego pesado demais na hora em que fiz a anotação, posso ter revisto o filme numa hora ruim. Eu tinha uma lembrança fantástica dele, e ele me decepcionou. Mas esta é apenas minha opinião pessoal. Claro que respeito a sua opinião, que é também a de muita, mas muita gente boa.
De qualquer forma, cabe um esclarecimento: não fiz comparação com a versão americana. Só citei que ela existe; não disse de forma alguma que a versão americana é melhor.
Um abraço.
Sérgio
quem viu la dolce vita de fellini, sabe que igual aos anos sessenta nunca mais. passei um ano assistindo todos os dias. é o cult mais cultuado, assim como o sol por testemuna. alain dellon etostá bello e pungente quanto i marcello mastroiann´. é magia dos anos sessenta.não ficar triste por existe mais esta magia, foi uma dádiva para os que temm mais de sessenta não ficar triste. foi um privilegio ser jovem nos anos sessenta. agora é só cultuar os cults.
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[...] este aqui. Cinco anos depois, em 1960, estava portanto com 23 quando apareceu em uma pontinha em O Sol Por Testemunha/Plein Soleil, a época em que conheceu Alain Delon – e a partir daí a atrizinha juvenil da trilogia Sissi [...]
[...] de Henry Hathaway que deu o único Oscar a John Wayne. O alemão Wim Wenders o dirigiu no papel de Tom Ripley, o personagem criado por Patricia Highsmith, em O Amigo Alemão, de 1977. (Wenders, fã absoluto de Nicholas Ray e do bom cinema americano, [...]
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[...] 1999, filmou novamente a história de Patricia Highsmith que René Clément tinha transformado em O Sol por Testemunha/Plein Soleil, em O Talentoso Ripley/The Talented Mr, Ripley. E em 2003 faria Cold Mountain, um ótimo filme [...]
[...] atriz e cantora que fez bastante sucesso nos anos 60, a garota dos olhos de ouro, a musa do filme O Sol por Testemunha/Plein Soleil, de 1960! [...]
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[...] versão Jean-Pierre Melville. E reunindo três dos maiores atores europeus da época – Alain Delon, Gian Maria Volontè e Yves Montand, e mais [...]
[...] tinha amado Trinta Anos Esta Noite/Le Feu Follet, um dos primeiros filmes de Louis Malle, com Maurice Ronet como o belo homem que uma manhã, às vésperas de seus 30 anos, anuncia para si mesmo que vai se [...]