Êxito Fugaz / Young Man With a Horn


Nota: ★★★☆

Anotação em 2006, com complemento em 2008: Uma pérola da época de ouro de Hollywood, este filme é uma cinebiografia que não se assume completamente como tal. Para os mais jovens, o monte de nomes que consta da ficha técnica abaixo deste texto talvez não signifique muita coisa – mas, credo é muito nome importante reunido.

Para começar, Michael Curtiz, o diretor, é o sujeito que tinha dirigido Casablanca oito anos antes. O trio central de atores – Kirk Douglas, Doris Day, Lauren Bacall – estava em seu auge. Carl Foreman, que entraria na lista negra do macarthismo, teve trabalhos muito importantes tanto como roteirista quanto como produtor e diretor. Alex North era um dos grandes compositores do cinema americano. Quem toca o trompete que Kirk Douglas dubla é o grande Harry James. Louis Armstrong faz o papel dele mesmo, mas Hoagy Carmichael, um dos nomes do topo da Grande Música Americana, não – ele atua mesmo como ator, como fez em outros filmes.

Kirk Douglas faz o papel de Rick Martin, um dos poucos músicos brancos a se firmar no cenário do jazz dos anos 20, então completamente dominado por negros. E sua vida é uma série de tragédias – até porque seu temperamento é difícil, ele é um sujeito chato, exigente, se acha mesmo o maioral, e por isso muitas vezes terá que comer o pão que o diabo amassou.  

Rick Martin não consta de nenhum alfarrábio sobre música, simplesmente porque ele nunca existiu. E é aí, ao usar esse nome falso, inventado, que o filme não se assume completamente como a biografia de uma figura real. Rick Martin na verdade é Bix Beiderbecke.

Bix Beiderbecke, que os dicionários e enciclopédias de música de fato definem como o primeiro grande jazzman branco, nasceu em 1903 e morreu em 1931, quando tinha apenas 28 anos. Muitos jazzistas tinham a heroína, a morfina, a cocaína; Beiderbecke, não; morreu de alcoolismo, mesmo – cachaça, booze.

No filme, temos Rick Martin, um músico rebelde, inconformado com o fato de ter que tocar na chatice das orquestras brancas “respeitáveis”, que se apresentavam para casais brancos dançarem. Só encontra duas pessoas que compreendem seu anseio por uma música mais livre, improvisada, solta, não feita para dançar, e apenas para se ouvir: uma jovem cantora de canções de dor-de-cotovelo, Jo Jordan (Doris Day), e um pianista boa gente, Smoke Willoughby (Hoagy Carmichael). Consegue criar seu próprio conjunto, e faz algum sucesso.

Se fosse um sujeito esperto, teria casado com Jo e toda a história seria outra. Como era um sujeito atormentado por demônios interiores, o músico do filme casa-se como uma mulher rica, interpretada por Lauren Bacall, abandona seus sonhos de fazer um jazz mais solto, mais livre, e entrega-se à cachaça.

Mas era 1950, quando o filme foi feito, e a produção envolvia aquele mundo de gente importante, o filme precisaria fazer sucesso na bilheteria, a Warner não queria um final infeliz, com o herói morrendo bêbado aos 28 anos, e então deu-se um outro destino à história.

Não tem tanta importância assim, a licença poética-monetária feita no estúdio para alterar o final da vida do personagem. É um filme muito interessante, pelo tema, pela importância do quase biografado, por todos os nomes envolvidos, e até mesmo por ser um exemplo da interferência dos estúdios nas obras. Mas, mesmo se não houvesse nada disso, o filme valeria só pela maravilha que é ver Doris Day, gloriosa como atriz e como cantora aos 26 aninhos – bem antes, como se diz na piada, de virar virgem.  

Aliás, a gravadora americana Columbia relançou em CD, em 1999, no seu selo Columbia Legacy – All Time Classics, as gravações originais de 1950 feitas para a trilha sonora,. O disco, de “Doris Day, Harry James & His Orchestra”, é apresentado como “songs from the Warner Bros. Production” e tem o mesmo título original do filme, Young Man With a Horn. É um espetáculo. (A ilustração acima é a capa do LP, reproduzida fielmente no lançamento em CD.)

Êxito Fugaz/Young Man With a Horn

De Michael Curtiz, EUA, 1950.

Com Kirk Douglas, Doris Day, Laren Bacall, Hoagy Carmichael, Louis Armstrong

Roteiro Carl Foreman e Edmund H. North

Baseado no livro de Dorothy Baker

Música Alex North

Solos de trompete Harry James

Produção Warner

P&B, 112 min.

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  2. […] que enfrentam muito bem a passagem do tempo. É um bom thriller, um bom filme de suspense. Doris Day demonstra mais uma vez que, além de excelente cantora, era uma grande […]

  3. […] de Calcinhas de Renda, 1966), seja em dramas baseados em vidas reais (Ama-me ou Esquece-me, 1955, Êxito Fugaz, […]

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