Água Negra / Dark Water


Nota: ★★★☆

Anotação em 2006, com complemento em 2008: Milos Forman, o grande diretor checo, disse que, se fosse arquiteto quatro séculos antes de Cristo, iria para o Egito; como é cineasta, foi para Hollywood. Não era preciso, mas, neste filme Água Negra, Walter Salles demonstra, com sobra, que, se quisesse, poderia ir para a Meca do cinema fazer suas pirâmides.

É um belo filme, esta refilmagem americana com diretor brasileiro de terror sobrenatural japonês. Walter Salles consegue criar um clima sombrio, pesado, denso, claustrofóbico. É extraordinária a música de Angelo Badalamenti, o colaborador costumeiro de David Lynch que já trabalhou também com os franceses Jean-Pierre Jeunet e Nicole Garcia, entre outros. O elenco, com grandes atores – John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postlethwaite – está todo brilhante.

adark2E Jennifer Connelly, além de ser um dos rostos mais bonitos da história do cinema, tem muito talento. Tão jovem, tão bela, Jennifer Connelly coleciona na sua filmografia uma série de personagens tristes, angustiados, problemáticos, como a garota desajustada que, sem dinheiro, perde a casa que herdou dos pais e depois até a razão, em Casa de Areia e Névoa/House of Sand and Snow; ou a mulher do cientista genial que pira feio, em Uma Mente Brilhante/A Beautiful Mind; ou a repórter believer que testemunha as mais desumanas crueldades em Diamante de Sangue/|Blood Diamond; ou a mãe que perde o filho inteligente, sensível, atropelado na estrada, em Traídos pelo Destino/Reservation Road; ou ainda a esposa traída em Pecados Íntimos/Little Children.

Mas nenhum dos personagens sofridos que ela fez até agora se compara a Dahlia Williams deste filme aqui. Recém-separada do marido, enfrentando uma dura batalha pela custódia da filha pequena, com dinheiro curto, tendo que morar num prédio soturno na soturníssima Roosevelt Island, em Nova York, enfrentando os fantasmas do passado traumático, Dahlia ainda terá que enfrentar outros fantasmas, os que povoam sua nova casa. 

Água Negra/Dark Water

De Walter Salles, EUA, 2005.

Com Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postlethwaite

Roteiro Rafael Yglesias

Baseado no roteiro do filme Honogurai mizu no soko kara, por Hideo Nakta e Takashige Ichise, por sua vez baseado na novela de Kôji Suzuki

Fotografia Affonso Beato

Música Angelo Badalamenti

Cor, 105 min

4 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 5 Janeiro 2010 às 9:24 pm | Permalink

    Não sou fã de terror, mas resolvi assistir e gostei dessa refilmagem. Não tenho vontade de ver o original pq já vi uns (poucos) filmes japoneses de terror e não gostei. Optei por ver o filme durante o dia, rs, apesar de ele não ser tão aterrador assim; tanto que não senti medo, mesmo assistindo sozinha e no escuro (o fato de ter sido dia acho que ajudou). É muito mais o terror psicológico mesmo, como vc disse. Achei que a menininha atuou muito bem, parecia uma criança frágil, insegura, carente, mal amada, até. [Me lembrou uma menininha um pouco mais nova que eu conheço. Não foi abandonada pela mãe, mas é meio que criada pela bisa, vive sendo “jogada” de um canto pra outro, pobrezinha].
    Jennifer Connely está bem neste filme. Ela é bem bonita, sim, mas não acho que seja um dos rostos mais bonitos da história do cinema, não; não é do tipo de beleza que enche a tela; é muito magrela e acho que não tem carisma. Ela lembra um pouco a Demi Moore quando era mais jovem, acho que por isso não acho que ela seja essa Coca-Cola toda. E olha que eu consigo ver beleza até onde não tem (o que não é o caso dela, claro).

    Gostei de Água Negra, é mesmo muito bem feito. Mas o final eu de-tes-tei (mesmo sabendo que algumas mães fariam mesmo tudo pelos seus filhos — digo algumas, pq existem mães e mães). O diretor do original japonês deve ter uma queda (ou obsessão?) por chuva, poços, tanques de água, não? Em “O Chamado” o poço era o “x” do problema.

    Gostei muito mais dos conflitos psicológicos, da parte real da coisa, do que da parte sobrenatural, que considerei fraquinha. Problemas no relacionamento entre mães e filhas, as consequências de uma infância com pouco amor, ausência e negligência maternas, pai alcóolatra, separação de casais, pessoas solitárias que fingem ser o que não são, etc. Achei o roteiro muito bem escrito, é como vc falou no texto sobre o filme original: a história parte do cotidiano, de situações corriqueiras. Um detalhe simples, mas que achei sensacional (que mostra realmente que se trata de vidas normais) é quando começa a gotejar pela primeira vez dentro do quarto e a mãe, toda esbaforida e nervosa, tentando pegar as coisas para sair, solta um palavrão leve. Nisso, a filha a repreende, pois devia ser um trato delas, o de não falar palavrão; aquela coisa que os pais tentam ensinar aos filhos quando eles são pequenos.
    Sempre acho que estou perdendo meu tempo quando assisto a filmes de terror, mas esse valeu a pena. Ah, e palmas para o advogado; eu não dava nada por ele, até pq ele era meio atormentado e fantasioso, mas acabou me surpreendendo. No fundo era uma boa pessoa, apenas sofria um dos males das grandes cidades: a solidão – e tudo o que está incluso nela.

  2. Jussara
    Postado em 7 Janeiro 2010 às 10:10 pm | Permalink

    Apesar de já ter deixado um comentário enorme, sorry, voltei pra dizer mais uma coisinha que achei super bem bolada, que faz a história ter bastante cara de trivial. Em algumas cenas, tanto o pai quanto a mãe da menina a deixam para trás e saem andando na frente, ou a deixam desatendida, como na hora em que a mãe vai conhecer o apartamento. No dia-a-dia isso é uma cena bem comum, infelizmente. Estou cansada de ver mães que saem na frente, em disparada, deixando os filhos pequenos pra trás, e eles, se quiserem, que as alcancem. Vejo isso em todos os lugares: ruas, supermercados, shoppings, lojas de departamentos… Lembro de que quando eu era criança e andava com minha mãe, já víamos cenas assim, de mães com crianças mais novas que eu, na época, andando na frente e as deixando pra trás. E minha mãe sempre falava que “onde já se viu?”, que era um perigo; e se alguém pegasse a criança? Claro que no filme isso foi mote pra que o roteiro deslanchasse, mas é algo bastante comum. Além do perigo e da falta de atenção e cuidado para com o próprio filho (eu acho o cúmulo, sempre tive medo de me perder dos adultos, ainda mais da minha mãe), tem tb toda a parte das crianças mal educadas que ficam soltas nas lojas, tropeçando na gente ou destruindo objetos que depois serão pagos pelo bolso dos outros consumidores. E os pais simplesmente fingem que não estão vendo.
    Enfim, tergiversei. Sorry again.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 8 Janeiro 2010 às 12:02 am | Permalink

    Não, não, Jussara, você não tergiversou, nem tem que pedir desculpas. É uma deliciosa observação feita por uma pessoa atenta a detalhes que passam desapercebidos a outras. Eu não havia notado esse detalhe, que é interessantíssimo, porque mostra um pouco da personalidade dos pais da menina.

  4. amaral milhomem
    Postado em 22 Maio 2013 às 12:06 pm | Permalink

    Walter Salles fez tudo certo no filme, so esqueceu de nos provocar medo.

3 Trackbacks

  1. […] do Walter Salles, sobre uma imigrante latino-americana (Catalina Sandino Moreno, a colombiana do filme sobre […]

  2. […] poucos exemplos, Deus da Carnificina (2011), de Roman Polanski, Chicago (2002), de Rob Marshall, Água Negra (2005), de Walter […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Paulina / La Patota em 14 outubro 2016 às 5:26 pm

    […] Paulina é uma co-produção Argentina-Brasil-França. Um dos vários produtores do filme é Walter Salles. […]

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