A Conspiração / The Contender


Nota: ★★★½

Anotação em 2006, com complemento em 2008: Um ótimo filme político, extremamente liberal (no sentido do que se opõe ao conservadorismo; nada a ver com o que no Brasil se usa sobre economia), progressista, avançado – mais uma das dezenas e dezenas de provas de que o cinema americano está muito à frente do resto do país.

É fascinante como o filme faz lembrar um outro bem mais antigo, Tempestade Sobre Washington/Advise & Consent, que Otto Preminger filmou com um elenco extraordinário, numa beleza de preto-e-branco, em 1962, logo depois da caça às bruxas do macarthismo e no auge da guerra fria.

Naquele lá, um presidente doente (Franchot Tone) indica um liberal para o cargo de secretário de Estado (para quem não lembra, o cargo corresponde ao nosso ministro de Relações Exteriores),  A indicação desse Robert Leffingwell, interpretado pelo grande Henry Fonda, precisa ser aprovada no Senado, e lá, a direita, encabeçada pelo veterano senador sulista Cooley (Charles Laughton), vai à caça de informações que comprometam o nome do indicado. A caçada por podres na vida de Leffingwell acabará passando por um segredo da vida íntima de outro senador, interpretado por Don Murray. Descobrirão que o indicado teve, no passado longínquo, alguma ligação com o Partido Comunista.

Neste filme aqui, que poderia perfeitamente chamar Tempestade Sobre Washington 2, temos situações bem semelhantes. Após a morte do vice-presidente, o atual ocupante da Casa Branca, Jackson Evans (Jeff Bridges, careteiro mas ótimo como sempre) indica para vice a senadora Laine Hanson (Joan Allen, essa grande atriz), uma mulher jovem, muito bem preparada intelectualmente, cheia de energia. Como no filme do início dos anos 60, neste aqui, feito no último ano do século e do milênio, a direita vai à caça de segredos do passado de Laine Hanson cuja divulgação torne impossível a aprovação de seu nome. O líder reacionário é Shelly Runyon (Gary Oldman, espetacular), um sujeito em tudo desprezível, mas uma peluda, astuta raposa política.

A trama criada pelo diretor e roteirista Rod Lurie parte de um fato implausível: esse Jackson Evans jamais poderia ser eleito presidente dos Estados Unidos; é liberal demais, progressista demais; perto dele, George McGovern, provavelmente o candidato mais liberal do Partido Democrata à presidência nos últimos 50 anos, é quase um conservador.

Mas, tirando esse detalhe, tudo no filme é extremamemente verossímil – os jogos, as trapaças, as sacanagens miúdas e graúdas, o uso da mídia segundo o interesse de cada um, e, sobretudo, a mistura que se faz entre detalhes da vida pessoal dos candidatos, mesmo que de um passado distante, com sua capacidade de governar.

O elenco é excepcional, assim como o texto. Há diálogos absolutamente memoráveis. O iMDB traz vários deles. Há uma fala da senadora Laine Hanson que merece ser transcrita, ainda mais nestes tempos de avanço da direita religiosa – lá, aqui, no mundo árabe:

“E, senhor presidente, eu defendo a separação da Igreja e do Estado, e o motivo pelo qual defendo isso é o mesmo motivo que, creio, tiveram nossos fundadores. Não é para proteger a religião do controle do governo, mas para proteger nosso governo do controle do fanatismo religioso. Eu posso ser atéia, mas isso não significa que eu não vá à igreja. Eu vou à igreja. A igreja à qual eu vou é aquela que emancipou os escravos, que deu às mulheres o direito de voto, que nos deu todas as liberdades que prezamos. Minha igreja é a Capela da Democracia, em que nos sentamos todos juntos, e eu não preciso que Deus me diga quais são meus valores morais. Eu preciso do meu coração, do meu cérebro, e dessa igreja.”

A Conspiração/The Contender

De Rod Lurie, EUA-Alemanha-Inglaterra, 2000

Com Joan Allen, Jeff Bridges, Gary Oldman, Christian Slater,

Roteiro Rod Lurie

Produção Dreamworks

Cor, 126 min

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 21 abril 2013 às 10:22 pm | Permalink

    Há muito tempo que pensava em ver este filme mas não tive oportunidade, só agora.
    Acho que está muito bem feito e concordo inteiramente com a opinião do Sérgio.
    Gary Oldman tem um desempenho excelente e tenho pena de não ver mais vezes em filmes de qualidade como este.
    O elenco está todo muito bem incluindo o Jeff Bridges que não vi a fazer “caretas”!
    Um “careteiro” mesmo era o Louis de Funés “the man with forty faces per minute” segundo a Wikipedia.

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  1. […] responsável pelo canil da cidade, mas acaba – embora contra a vontade da sua mulher (o papel de Joan Allen) – ficando com ele. De forma bem sutil, é mostrado ao espectador que Parker já havia perdido […]

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