O Fabuloso Destino de Amélie Poulain / Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain


Nota: ★★★★

Anotação em 2002: Amélie chega precedido de uma falação como há muito não se via – e merece toda a falação. É um dos melhores filmes dos últimos tempos. É absolutamente extraordinário.

Fiquei pensando nas semelhanças. Amélie é um filme absolutamente ímpar, original. Mas tem semelhanças, é claro.

Em primeiro lugar (e é muita coincidência eu ter visto o outro ontem, um dia antes de ver Amélie pela primeira vez), ele tem semelhanças com Sinfonia de uma Cidade/Sous le Ciel de Paris Coule la Seine. Como o filme que o Duvivier fez tem meio século, é uma declaração de amor a Paris, e às figuras simples da cidade. E, como ele, faz todo um jogo com o destino. Ainda como ele, é contado por um narrador.

No amor arrebatado por uma cidade, pelas figuras simples da cidade, e pelos jogos com o destino, se parece com a dupla de Paul Auster e Wayne Wang, Cortina de Fumaça/Smoke e Sem Fôlego/Blue in the Face. Com essa dupla genial, tem outra semelhança fantástica: o álbum de fotos. Na tabacaria do Brooklyn, Auggie, o personagem de Harvey Keitel, coleciona as fotos todas iguais, e ao mesmo tempo tão singulares, feitas a cada manhã, na mesma esquina, a sua esquina do mundo; em Amélie, o personagem masculino central coleciona as fotos todas iguais, e ao mesmo tempo tão singulares, feitas pelas maquininhas de 3×4 automáticas, por algum motivo rejeitadas por seus personagens.

Finalmente, e talvez principalmente, ele se filia àquela linhagem nobre de filmes que brincam com o destino, os encontros e desencontros, as peças que o destino prega na gente: os de Jacques Demy, os de Lelouch, os de Woody Allen (Poderosa Afrodite em especial)  e o Vermelho da trilogia de Kieslowski.

Pensei, pouco depois de sair do cinema, que Amélie tem um traço bem específico, dentro dos filmes dessa linhagem. É o fato de que o personagem de Amélie passa exatamente a interferir no destino, a pregar ela mesma as peças nas pessoas – ela “cria” o encontro entre o namorado ciumento e a balconista hipocondríaca; ela cria a carta falsa que chega 40 anos depois para comprovar o amor do marido fujão pela concièrge do prédio; ela forja as fotos do anão de jardim que forçarão seu pai, já velho e sem qualquer esperança, a pela primeira vez na vida viajar – il faut voyager, il faut s’en aller, como diz o Moustaki.

Em suma: por trás de toda a sua inventividade, a sua alegria, o seu brilhantismo formal, Amélie traz uma lição. O destino faz a vida, mas, caramba, a gente também pode dar uma forçadinha no destino.

Mas claro que o mais espetacular do filme é a criatividade, a inventividade. Há mais idéias por seqüência do que numa coleção de cem filmes hollywoodianos. As idéias brotam a uma velocidade insana – seja na trama (a forma como Amélie entrega o álbum de fotografias ao talvez futuro namorado é de uma criatividade estarrecedora), seja no visual (os closes dos copos se mexendo na primeira trepada da balconista hipocondríaca são só um pequeno exemplo).

Eis aí um filme de fato genial.

Um PS: E que belo presente minha filha me deu, ao escolher, para o momento da descida na escada, na cerimônia de seu casamento, exatamente a música tema de Amélie, de Yann Tiersen, ela própria, a música, tão extraordinariamente, arrebatadoramente linda, assim como minha filha.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain/Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain

De Jean-Pierre Jeunet, França-Alemanha, 2001.

Com Audrey Tautou (Amélie), Mathieu Kassovitz (Nino Quincampoix), Rufus (Raphael Poulain), Yoland Moreau (Madeleine Wallace), Isabelle Naty (Georgette), Dominique Pinon (Joseph), Jamel Debbouze (Lucien), Maurice Bénichou (Brétodeau)

Roteiro Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant

Fotografia Bruno Delbonnel

Música Yann Tiersen

Produção Clauie Ossard Productions e UGC. Lançado na França 25/4/2001, lançado em São Paulo 8/2/2002.

Cor, 120 min.

Um Comentário

  1. Postado em 18 fevereiro 2010 às 10:16 pm | Permalink

    Ah, você tinha escrito essa crítica. Estava buscando-a no índice, e me esquecera de que era para fazê-lo na seção “Europa”, rsrs. Amanhã leio tua crítica e dou meu parecer, simplesmente amo este filme, Amélie com sua simplicidade, misantropia e doçura meio controversa, hehe.

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  1. […] me fez lembrar algumas outras pérolas, jóias raras – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Todas as Mulheres do Mundo, Simplesmente Amor/Love Actually, Apenas Uma Vez/Once. Tem o frescor, a […]

  2. […] metidas, presunçosas, tipo, olha aí como eu sou genial, meu. Nisso, ele segue a estirpe de Amélie Poulin – uma nobre estirpe. […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Um Novo Despertar / The Beaver em 3 janeiro 2012 às 1:34 pm

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  4. Por 50 Anos de Filmes » Angel-A em 4 janeiro 2013 às 2:34 pm

    […] Jamel Debbouze é um bom ator em drama – ele está ótimo em Dias de Glória/Indigènes, o belo filme de Rachid Bouchareb de 2006 sobre como os franceses recrutaram homens de suas colônias africanas para lutar na Segunda Guerra mas sempre os tratou como gente de segunda categoria. Mas na comédia ele é extraordinário. Sua atuação ajuda um pouco a amenizar a idiotice da trama. […]

  5. […] Audrey Tautou é charme, graça, leveza. Uma coisa linda, maravilhosa – mas bem longe da beleza estrondosa de tantas outras atrizes. Nesses quesitos, charme, graça, leveza, Audrey Tautou é imbatível. Só teria comparação com a outra Audrey, a Hepburn – que, aliás, era quase tão biafrenta quanto a francesinha nascida em 1976 e que virou estrela de primeira grandeza no frescor dos 25 aninhos em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. […]

  6. […] Na época, anotei apenas a ficha técnica básica, e duas frases curtas: “Junto com Fale com Ela, Amélie e Chicago, um dos melhores filmes novos que vi nos últimos muitos meses. Um show de […]

  7. […] estupidamente brilhante. É um início tão sensacional que faz a gente esperar algo como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, (500) Dias com Ela, Medianeras – filmes inteligentes, que soltam faísca de tanto brilho, tanta […]

  8. […] – Um Plano Complicado, o sexto longa realizado por Jean-Pierre Jeunet, é um desses filmes de visual esplendoroso, magnífico. É uma superprodução cara, de orçamento […]

  9. Por 50 Anos de Filmes » Thérèse Desqueyroux em 14 março 2014 às 2:43 pm

    […] sua câmara. Derramou-se em elogios à jovem atriz que Jean-Pierre Jeunet transformou em estrela em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain: “Com Audrey, foi particularmente mágico. Como dizer? Talvez ela tenha chegado, ainda mais […]

  10. Por 50 Anos de Filmes » Intocáveis / Intouchables em 12 junho 2014 às 10:59 pm

    […] já era o segundo filme francês de maior número de ingressos vendidos, tendo já ultrapassado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Só não tinha conseguido bater o campeão A Riviera Não é Aqui/Bienvenue Chez les Ch’tis. (No […]

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  12. […] Colette fica impressionada com a história fantástica – e não é para menos, porque a história de fato é fantástica. Acho que não seria errado dizer que muito provavelmente Jean-Pierre Jeunet pensou bastante nessa história criada por Truffaut e seus três companheiros, na hora de criar a igualmente fantástica, fascinante história de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. […]

  13. […] de artíficio. Jean-Pierre Jeunet esgotou o estoque de fogos de artifício das lojas parisienses em Amélie Poulain. O ator tornado diretor Albert Dupontel também gastou fogos de artifício em escala industrial em […]

  14. […] sentido, o filme de Jaco Van Dormael é daquela especial estirpe de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), de Jean-Pierre Jeneut; Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004), de Michel Gondry; […]

  15. […] São dois personagens principais, cercados por quatro secundários, mas todos fundamentais para o desenvolvimento da trama. Os protagonistas são dois imigrantes ilegais na Londres do novo milênio, Okwe (Chiwetel Ejiofor, o excelente ator de Cinturão Vermelho, Filhos da Esperança e Simplesmente Amor) e Senay (Audrey Tautou, na sua estréia em filmes de língua inglesa, logo depois do estrondoso sucesso de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain). […]

  16. […] Mary quanto eu, que era uma trilha sonora de Yann Tiersen. Em alguns momentos, é o Yann Tiersen de Amélie Poulain pura e […]

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