Intriga Internacional e Pacto Sinistro


Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2001: Nos dois últimos meses, dobrou o número de filmes da fase americana de Alfred Hitchcock disponíveis em DVD no Brasil. Já haviam saído Um Corpo Que Cai e Psicose – lançamentos caprichados, com diversas apresentações especiais. Agora, saíram Pacto Sinistro e Intriga Internacional. São, naturalmente, os dois, belíssimos filmes, dos melhores do mestre Hitchcock, daqueles que sempre vale a pena ver e rever.

A grande diferença entre os dois lançamentos recentes está no DVD.

Não quanto aos filmes em si. A qualidade de imagem e de som dos dois novos DVD é absolutamente perfeita; é como se estivéssemos vendo uma excelente cópia do lançamento original num ótimo cinema.

O diferencial está nos bônus, os extras, as apresentações especiais, este fantástico algo mais que o DVD tem a capacidade de ter, como nenhuma outra mídia. Um dos dois vem com belíssimos bônus; o outro quase chega a ser um caso de polícia, ou de Procon. O quadro com as características do DVD resume a distância que separa um do outro. O quadro sobre os filmes em si mostra algumas especificidades – e muitos pontos em comum.

 

  Pacto Sinistro/Strangers on a Train Intriga Internacional/North By Northwest
Produção EUA, 1951. EUA, 1959.
Diretor Alfred Hitchcock Alfred Hitchcock
Argumento e roteiro, oficialmente Roteiro de Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, baseado na novela de Patricia Highsmith. Adaptação de Whitfield Cook. Roteiro original de Ernest Lehman, escrito diretamente para o filme.
… e como foi de fato. Chandler, o grande escritor de histórias policiais, não se deu bem de jeito algum com Hitch, que chamou Ben Hecht para retrabalhar o roteiro do autor. Ocupado em outros projetos, Hecht indicou Czenzi Ormonde, um colaborador seu, para a tarefa, e, depois, deu a última forma ao trabalho.   Lehman e Hitch trabalharam juntos na história e na construção do roteiro durante cerca de um ano, a partir de algumas idéias do diretor – uma das quais era fazer uma cena de perseguição bem nas gigantescas esculturas dos presidentes americanos no Monte Rushmore.
Elenco Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Laura Elliot, Marion Lorne, Howard St. John. Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Martin Landau, Philip Ober, Josephine Hutchinson.
O elenco e Hitch Farley Granger já havia trabalhado com o diretor em Festim Diabólico, de 1948, como um dos dois estudantes que convidam o professor para um jantar sobre um cadáver. Patricia, a filha do diretor, faz aqui uma raríssima aparição como a cunhada do herói, Guy Haines. Leo G. Carroll, o sogro do herói, era um coadjuvante assíduo – esteve em seis filmes de Hitch. Este foi o quarto filme do diretor em que Cary Grant fez o papel principal, depois de Suspeita (1941), Interlúdio (1946) e Ladrão de Casaca (1955). Os filmes de Hitchcock em que Leo G. Carroll trabalhou, além dos dois deste quadro, são os seguintes: Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940), Suspeita, Quando Fala o Coração (1945) e Agonia de Amor (1948). 
Cor, duração. P&B, 101 min (“versão americana”) e 103 min (“versão britânica”). Cor (Technicolor), 136 min
Fotografia Robert Burks. Ao todo, trabalhou com Hitch em 12 filmes: além dos dois deste quadro, também em A Tortura do Silêncio (1953), Disque M Para Matar (1954), Janela Indiscreta (1954), Ladrão de Casaca (1955), O Terceiro Tiro (1955), … Robert Burks. Outros filmes de Hitch em que ele foi o diretor de fotografia: O Homem Que Sabia Demais (1956), O Homem Errado (1957), Um Corpo Que Cai (1958), Os Pássaros (1963) e Marnie, Confissões de Uma Ladra (1964).
Música Dimitri Tiomkin. O músico nascido na Rússia fez também para Hitchock as trilhas de A Sombra de Uma Dúvida (1943), Tortura do Silêncio e Disque M Para Matar. Bernard Herrmann. O perfeito autor da música de Hitchcock (e muito mais que isso) fez as trilhas de O Teceiro Tiro, O Homem que Sabia Demais, O Homem Errado, Um Corpo que Cai, Psicose (1960), Os Pássaros e Marnie.
Ação Trem entre Washington e Nova York, mais Washington e uma pequena cidade entre as duas, Metcalf, 1951. Nova York, trem entre Nova York e Chicago, mais Chicago, interior de Illinois e o Monte Rushmore, em Dakota do Sul, 1959.
Local de filmagem Há diversas cenas de Washington, certamente adicionadas às imagens dos atores feita em estúdio. As cenas de Nova York foram de fato rodadas na cidade – algo raríssimo na carreira de Hitch, que sempre preferiu trabalhar em estúdio. Para as cenas do Monte Rushmore foram usadas maquetes no estúdio da Metro em Hollywood, depois que a equipe foi proibida de filmar no próprio parque, junto do monumento.
A aparição de Hitch No capítulo 5 do DVD, logo depois que Farley Granger (Guy Haines) desce do trem em Metcalf; ele  sobe no mesmo trem, carregando um contrabaixo. Logo no final da apresentação; ele tenta entrar em um ônibus no final do expediente em Manhattan, e não consegue.
Os monumentos cartões postais O Capitólio e vários outros prédios públicos de Washington. O prédio sede das Nações Unidas; o monumento aos grandes presidentes americanos no Monte Rushmore.
O homem errado O espectador sabe que Guy Haines é inocente, mas para a polícia ele é o assassino. O espectador sabe que Roger Thornhill é inocente, mas para a polícia e a imprensa ele é o assassino.
Uma seqüência antológica Tomada de uma platéia de jogo de tênis; todos movem a cabeça seguindo o movimento da bola – todos, menos o assassino, os olhos fixos em um só jogador. Um pequeno avião persegue o personagem de Cary Grant em uma vasta planície, junto de uma estrada. 
Hitch copia Hitch, Hitch antecipa Hitch. Toda a seqüência de abertura mostra os pés de pessoas em close, descendo do táxi, andando na estação, entrando no trem: Hitch voltaria a fazer uma seqüência assim na abertura de Marnie, Confissõez de Uma Ladra. A seqüência de abertura mostra a multidão, como um rebanho de carneirinhos, saindo do trabalho e entrando no metrô: Hitch já havia feito isso em Ricos e Estranhos, de 1932. A seqüência da perseguição em um monumento nacional, no caso o Monte Rushmore: Hitch já havia feito isso na Estátua da Liberdade, em Sabotador.
Um comentário de Hitch “Granger não era adequado para o papel. A Warner insistiu para que eu o usasse. Deveria ter sido um homem muito mais forte. Quanto mais forte o homem, mais frustrado ele se tornaria naquela situação.” “O filme era pura fantasia. O título original era ‘O homem no nariz de Lincoln’. Mas não pude usá-lo. Eu tinha em mente uma tomada maravilhosa, em que Cary Grant se esconde no nariz de Lincoln e tem um acesso de espirro.”

 

Formato Tela padrão de TV. Widescreen (para preservar o formato origina VistaVision).
Som Dolby. Mono. Dolby Digital.
Opções de línguas Som original em inglês, legendas em português, espanhol e inglês. Som original em inglês, legendas em português, espanhol e inglês.
Início Pára no menu principal. Pára no menu principal.
Capítulos 33. Com nomes e relação na contracapa interna. 46. Com nomes e relação na contracapa interna.
Comentários em áudio ao longo do filme Não tem. Do roteirista Ernest Lehman, gravado recentemente, para o lançamento do DVD. Sem legendas.
Making of  e outros extras Não tem nenhum extra. A capa do DVD vende que são duas versões do filme, uma dos EUA, outra da Inglaterra – e o disco tem dois lados, cada um com uma das “versões”. Na verdade, a diferença entre elas é mínima, ínfima. Leia mais no texto. “Destination Hitchcock – The Making of North By Northwest”, um excepcional filme de 40 minutos, feito em 2000, um making of de deixar com vergonha a imensa maioria dos outros. Sem legendas. Leia mais no texto.
Trailers e fichas Não tem. O trailer original – engraçadíssimo – em que Hitchcock vende o filme como uma viagem de férias. Mais outro trailer, tradicional.
Produção e distribuição Produção Warner Bros. DVD Warner Bros. Produção MGM. DVD Warner Bros.

 

Isso sim é que é making of

 Intriga Internacional chega ao DVD com a mesma riqueza com que tinham vindo antes Um Corpo Que Cai e Psicose. Tem os comentários em áudio ao longo de todo o filme, feitos agora, para o lançamento em DVD, pelo roteirista Ernest Lehman. Com a experiência de veterano (está com 80 anos), ele não fica ansioso para preencher todos os 136 minutos do filme com sua voz superposta aos diálogos e à magnífica música de Bernard Herrmann; fala pausadamente, quando tem o que dizer a respeito de alguma tomada, algum detalhe. É para fazer a delícia de todo cinéfilo. 

E tem, sobretudo, o extraordinário making of. Muitos DVDs têm trazido filmetinhos de dez minutos vendidos como making of, mas que, na verdade, não passam de um ajuntamento das entrevistas rápidas, superficiais, feitas para distribuição para as emissoras de TV mundo afora, com uma ou outra cena das filmagens.

Este de Intriga Internacional, não – este é de fato um filme que mostra como o filme foi feito. O diretor e produtor Peter Fitzgerald reuniu um monte de imagens da época, em fotos e filmes, trechos do roteiro original, cheios de anotações feitas durante a produção; mostra bastidores, conta histórias, desvenda truques da filmagem, exibe até mesmo um erro que passou no meio das pernas de todos os envolvidos e foi parar na versão final. São belas, interessantes as entrevistas, 41 anos depois que o filme foi feito – do roteirista Ernest Lehman, do desenhista de produção Robert Boyle, do ator Martin Landau, da filha de Hitch, Patricia. E é uma delícia a apresentação, feita por Eva Marie Saint, agora uma velha senhora respeitável, admirável.

Eis aqui algumas das histórias e curiosidades contadas em “Destination Hitchcock – The Making of North By Northwest”:

* A Metro juntou Hitch e o roteirista Lehman para fazerem o filme The Wreck of the Mary Deare, a história de um naufrágio. Nenhum dos dois tinha o menor interesse por aquilo, e, depois de alguns dias recebendo salário por nada, resolveram criar uma história; trabalharam em segredo, a Metro achando que estavam preparando o tal roteiro do desastre marítimo, até chegarem a umas 60 e tantas páginas de Intriga Internacional; aí apresentaram a proposta para os chefões do estúdio.

(O making of não conta, nem era para contar, mas The Wreck of the Mary Deare acabou sendo feito, em 1959, pelo inglês Michael Anderson, que havia dirigido em 1956 o grande sucesso A Volta ao Mundo em 80 Dias; o filme, que se chamou no Brasil O Navio Condenado, teve um grande elenco: Gary Cooper, Charlton Heston, Michael Redgrave, Richard Harris…) 

* Hitch e Lehman pensaram primeiro em James Stewart para o papel de Roger Thornhill, o elegante e bem sucedido executivo de publicidade da Madison Avenue que é confundido com um espião e se mete nas enrascadas mais incríveis, no sentido mais literal da palavra; só depois o diretor aceitou Cary Grant.

* A Metro queria Cyd Charisse, a bela bailarina das pernas maravilhosíssimas, como Eve Kendall. Hitch quis Eva Marie Saint, que tinha estreado em 1954 em Sindicato de Ladrões/On the Waterfont, de Elia Kazan, e acabava de fazer A Árvore da Vida/Raintree County, uma espécie assim de … E o Vento Levou depois de uma gripe forte.

* Jesse Royce Landis, a atriz que faz o impagável papel da mãe de Roger Thornhill, tinha só um ano a mais que o ator que faz seu filho, Cary Grant; na verdade, menos de um ano; os dois são de 1904, ela de janeiro, ele de novembro.

* Hitch jogou fora quase todo o figurino criado pela equipe da Metro para Eva Marie Saint; foi com ela a lojas granfas de Nova York e comprou ele mesmo os belos vestidos que sua loura da vez usa no filme.

* Cary Grant – que ficou de fato hospedado no The Plaza de Nova York enquanto duraram as filmagens na cidade – cobrava 15 cents por autógrafo, na época das filmagens.

* A ONU não dava permissão para se filmar nas suas dependências. A cena de Cary Grant entrando no prédio foi feita sem autorização alguma, e às escondidas, com uma gigantesca câmara VistaVision colocada em um caminhão estacionado do outro lado da avenida diante do território das Nações Unidas.

* Eva Marie Saint ainda se lembrava dos conselhos de Kazan sussurrados ao seu ouvido quando ouviu de Hitch apenas três conselhos sobre como atuar: fale em voz baixa; não mova as mãos; e sempre olhe direto nos olhos de Cary Grant.

* O departamento de parques nacionais proibiu que a área do Monte Rushmore – onde estão esculpidos os rostos de Thomas Jefferson, George Washington, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt – fosse usada para as filmagens. A ida da equipe para o parque, e a proibição da filmagem, virou tema de grossa polêmica; um editorial de jornal sugeriu que o inglês Hitch fosse filmar assassinatos na Inglaterra, diante do nariz da rainha.

* Toda a seqüência do Monte Rushmore foi, portanto, filmada no estúdio da Metro, em Hollywood. O filme mostra direitinho como.

(O making of não fala disso, mas é bem possível que toda a polêmica sobre a possível filmagem no parque nacional das caras dos presidentes americanos tenha sido instigada pelo próprio Hitch, um dos melhores marqueteiros de si próprio de que já se teve notícia. É óbvio que ele faria de qualquer maneira aquelas cenas em estúdio, mesmo que tivesse sido dada autorização para trabalhar na área do parque.)

* A seqüência mais imitada, copiada, citada do filme (em Moscou Contra 007 há uma longa, digamos assim, recriação dela, com Sean Connery fugindo de um helicóptero), a do avião perseguindo Cary Grant numa planície aberta, foi toda filmada na Califórnia. Em várias das tomadas em que aparece em primeiro plano, Cary Grant estava confortavelmente longe do avião que tentava cortar sua cabeça – no estúdio, enquanto cenas pré-filmadas do avião eram exibidas nas telas para o processo de transparência. Em outras tomadas, ele foi substituído por um dublê, que aparece em fotos no making of.

* O orçamento do filme era de US$ 3 milhões e pouco, Hitch estourou a quantia em cerca de 30% – custou US$ 4 milhões e tanto. O contrato de Cary Grant estipulava que, se o limite de determinados dias de trabalho fosse ultrapassado, haveria uma multa de US$ 5 mil por dia a mais. Estourou o prazo – foram 78 dias de filmagem – , o dele e o de Eva Marie Saint, cuja multa era de US$ 2 mil por dia. Não há igualdade no paraíso do capitalismo.

* Na cena do jantar de Cary Grant e Eva Marie Saint no trem de Nova York para Chicago, quando ela diz: “Eu nunca discuto amor de estômago vazio”, os movimentos dos lábios dela dizem: “Eu nunca faço amor de estômago vazio” – uma fala bem adiante de seu tempo, como admite hoje o roteirista Lehman. 

* Não estava no roteiro a tomada final, o trem entrando no túnel, a referência óbvia do velho Hitch ao ato sexual. (O cinema é montagem, Hitch repetiu mil vezes – e aqui ele demonstrou como tinha as lições de Pudóvkin.) “Não há jeito de eu ter o crédito dessa cena”, diz Lehman no making of. E completa: “Que merda!”

* Sem Bernard Herrmann, não teria existido Intriga Internacional. Não só porque a música dele dá o clima do filme, mas porque foi ele que apresentou Lehman a Hitch.

Como bônus no meio deste bônus fantástico que é o making of, há uma curtíssima, mas absolutamente fantástica imitação de Hitchcock feita por Martin Landau – não o jovem ator do filme em 1959, mas o Landau de hoje, um venerando senhor de quase 70 anos.

Ah, sim – falta falar do tal erro de continuidade que driblou todo o mundo e foi parar no filme. Não que o erro tenha sido revelado pelo making of. O livro The Films of Alfred Hitchcock já falava dele. É na cena em que Eva Marie Saint dá um tiro, na lanchonete perto do Monte Rushmore, cheia de turistas; segundos anos de ela dar o tiro, um dos figurantes, um garoto, sentado em uma das mesas, tapa os ouvidos com as mãos. Possivelmente já estava cansado de ouvir os tiros de festim, tapou os ouvidos na hora errada, numa das muitas cenas filmadas pela equipe secundária, no que seria depois exibido nas telas de transparência no estúdio, no momento em que os atores faziam a sua cena. Os continuístas, os montadores, ninguém percebeu, foi para a versão final, ficou lá para sempre. No making of, Eva Marie Saint conta a história, a cena aparece, o erro fica em destaque. 

 

A antítese do clichê que depois virou clichê

 Mais uma palavrinha só sobre a antológica seqüência, de sete minutos e tanto, da perseguição do avião no meio do descampado. Eis a explicação de Hitch para a cena, dada em entrevista a Peter Bogdanovich (está no livro dele, Afinal, Quem Faz os Filmes, lançado aqui pela Companhia das Letras; são também dali que foram tiradas as frases de Hitch sobre os dois filmes que estão no quadro desta resenha): 

“Isso se situa no capítulo de evitar os clichês. Quando uma garota envia um homem a certo endereço, o clichê é o de que ele fica esperando na esquina à noite, sob um poste de iluminação, a luz brilhando nos paralelepípedos molhados por uma chuva recente; o rosto aparece numa janela, por trás de persianas que se fecham rapidamente, e aí se corta para um gato preto que se esgueira ao som de uma música estranha. Bem, qual é a antítese disso? Nada! Sem música, sol brilhante, nada além de uma plantação – nenhum vão ou recesso onde se esconder. Agora, coloca-se um homem de terno nesse ambiente. Deixa-se o público especular – pois lhe foi dito de maneira explícita que, de uma forma ou de outra, algo vai lhe acontecer – sobre de onde a ameaça virá. E acaba por vir do céu, na forma de um avião. Mas, no processo de evitar o clichê, eu fui mais além; quando se usa um instrumento como um avião de aspergir inseticida, é preciso fazer com que ele também faça o seu serviço, além de atirar contra a personagem. Por isso, pusemos o milharal para que Cary Grant pudesse se esconder no seu interior, e aspergimos a plantação. Aquilo completava o círculo.”

É Hitchcock puro, a antítese do clichê, a noção de que o suspense é o contrário do segredo que só se conta ao espectador no último minuto, como nos livros de Agatha Christie; nos filmes de Hitchcock, o espectador  sabe mais do que a policia, ou do que o próprio personagem, porque aí o filme mexe mais com a emoção dele. 

É fantástico rever essa seqüência hoje, no DVD, com a qualidade que só o DVD tem. Mesmo para quem já viu essa seqüência dez vezes, é fascinante rever.

O duro é pensar, depois de rever aquela beleza, que, com a velocidade com que as coisas se dão, com a avalanche industrial de imagens sobre imagens que o cinema despeja sobre nós, o anticlichê criado por Hitch em 1959 tenha sido tão copiado que virou um novo clichê. E, como os copiadores nunca têm o mesmo talento dos criadores, tratam de copiar com o exagero – a tal ponto que é de se aplaudir um filme americano recente simplesmente quando ele possui a imensa, porque rara, qualidade de não ter uma cena de perseguição de carros seguida de batidas, estrondos, explosões, incêndios.

 

Mas que duas versões, que nada

Se o DVD de Intriga Internacional tem essa riqueza que é o belíssimo making of e os comentários do roteirista, o DVD de Pacto Sinistro, por sua vez, não tem extra algum. Mas vem com uma promessa estranha, esquisita. Está dito na capa: “Duas vezes especial – Versão Americana e Versão Britânica”. Na contracapa, se diz o seguinte: “Hitchcock como sempre surpreende com sua genealidade (assim mesmo: genealidade) e deixou para trás duas versões de Pacto Sinistro, para a nossa melhor compreensão de seus personagens complexos”.

Muita gente boa poderá pensar: ué, mas Pacto Sinistro tem duas versões diferentes? Mas, caramba, eu nunca soube disso.

E de fato não há, nos livros, registro de que o filme tenha tido duas versões diferentes.

Como diria o personagem Roger Thornhill, o executivo da Madison Avenue de Intriga Internacional, não chega a ser propriamente uma mentira – é um grande, um gigantesco exagero, um ponto de venda bolado por algum marqueteiro da Warner.

Há dois lados, no disquinho de Pacto Sinistro, e a Warner vende que em um lado está a “versão americana” e no outro, a “versão britânica”. Bobagem. As diferenças são ínfimas, mínimas; nenhuma delas chega a ter importância.

Na apresentação da “versão americana”, há uma frase logo abaixo do nome de Farley Granger: “Mr. Granger aparece por acordo com Samuel Goldwyn”. Depois, no que no DVD é o capítulo 27, cortam-se alguns poucos segundos da cena em que Guy Haines escapa de casa para ir até a de Bruno Anthony. E a terceira diferença é que, na “versão americana”, há uma rápida, rapidíssma cena, de menos de 15 segundos, que a outra não tem. Essa cena – que está no capítulo 33 do DVD – não acrescenta nem diminui nada, em termos de entendimento do caráter dos personagens ou de qualquer outra coisa que importe. Mas é, de fato, a única diferença real entre uma “versão” e outra.

Muito provavelmente, o que a Warner chama de “versão americana” seja uma cópia feita para uma reestréia do filme nos cinemas; se foi Hitch ou a Warner que acrescentou aquela tal rapidíssima cena que não estava presente antes, não dá para saber: o detalhe não é mencionado em livros sobre Hitchcock, e não há explicação alguma no DVD.

Seria o caso de ligar pro Procon, denunciar propaganda enganosa? A rigor, é propaganda enganosa, sim – mas, como existem essas diferenças ínfimas, mínimas, qualquer advogadozinho, nem precisa ser de multinacional, poderia argumentar que são, sim, duas versões diferentes.

Melhor é ignorar totalmente a palhaçada que a Warner fez, e ver e rever o filme, que, claro, é um brilho. O filme – ainda bem – não é da Warner, é de Hitchcock.

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 27 agosto 2016 às 5:57 pm | Permalink

    Vi, ou revi, não tenho certeza, “Pacto Sinistro” esses tempos, depois que comprei um box de Blu-rays do Hitch.

    Considero um de seus melhores filmes, apesar de Farley Granger, que não conseguiu se encaixar no papel, destoando de todo o resto do elenco. Concordo com Hitch: ele não era adequado para o personagem. De alguma forma ficou deslocado, e com uma atuação bem aquém da dos outros atores.

    Patricia Hitchcock está ótima, como a moça nerd, meio xereta, esperta e que adora ler. A personagem me lembrou Ann Newton, a irmã mais nova de Charlie, em “A Sombra de uma Dúvida”.

    Sobre a sequência mostrando os pés das pessoas: sempre achei sapatos masculinos mais bonitos e confortáveis que os femininos. E ler sobre isso agora me fez lembrar de uma vez em que fomos à formatura do meu irmão mais velho, que estudava num internato (eu era criança). Ele entrou numa sala para trocar de roupa (colocar ou tirar a beca), e eu fiquei esperando ao lado da porta, olhando para os sapatos dos outros rapazes que saíam. Minha intenção era reconhecê-lo pelo sapato. Se não me falha a memória, a estratégia não deu certo, porque ele trocou de sapato também. he Tanto que quando saiu, pegou na minha mão para irmos. Engraçado que de tudo o que aconteceu na formatura, só me lembro desse episódio (e de um dos meninos assoviando pra mim, de brincadeira, e de outro perguntando se éramos irmãos). Tergiversei.

    E não é que um parente meu distante ajudou a escrever o roteiro? =D

    PS: Preciso aprender com você, e começar a fazer meus comentários logo depois de ver os filmes. Neste caso, eu não havia encontrado o texto aqui.
    Acho que ele merece uma anotação só dele, hein?! O pobre ficou espremido em meio a tanta coisa sobre “Intriga Internacional”.

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