Fim de Caso e Por Amor do Meu Amor / The End of the Affair


Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2000: Tudo, com relação a DVD, acontece de maneira extraordinariamente rápida. Os primeiros títulos foram lançados no Brasil no segundo semestre de 1998, dois anos atrás, hoje já são cerca de 800 e até o final do ano devem ser mil. (…) Um bem acabado exemplo de como deveriam ser todos os lançamentos em DVD – e de como, espera-se, serão, quanto mais brevemente melhor – é Fim de Caso, do diretor irlandês Neil Jordan, baseado no romance de Graham Greene.

A caixa traz um selinho para tentar transformar essa qualidade em ponto de venda: “Apresentações especiais com legendas em português”. Há os comentários feitos pelo diretor Jordan e há os da atriz central, Julianne Moore. O espectador pode escolher entre um e outro, além, é claro, de escolher não ouvir comentário algum; nos dois casos, com diretor e atriz, todos os comentários vêm acompanhados de legendas em português, inglês e espanhol. O mesmo acontece no making of. Uma maravilha.

Uma outra novidade muito bem-vinda é que o espectador pode também escolher entre os dois formatos de tela – widescreen, o formato mais retangular, tipo cinemascope, usual no cinema, e o formato padrão de tela de TV, mais quadrado. E pode fazer isso sem ter que virar o disco no aparelho de DVD: os dois formatos estão disponíveis de um lado só do disco. Antes, já haviam sido lançados vários títulos em que eram apresentados os dois formatos, mas cada um estava em um lado do disco.

É o caso, por exemplo, da primeira versão para o cinema deste mesmo livro de Graham Grene, feita em 1955 e também lançada este ano no Brasil, que tem o mesmo título no original inglês, The End of the Affair, mas nome diferente aqui, Pelo Amor do Meu Amor – o mesmo com que foi lançado nos cinemas.

O Fim de Caso de 1999 é um esplendor. O de 1955 é bem inferior – mas vale a pena vê-lo (ou revê-lo) agora, fazer as comparações com o mais novo e, eventualmente, também com o belo livro de Greene.

 

  Fim de Caso/The End of the Affair, o livro, 1951. Por Amor do Meu Amor/The End of the Affair Fim de Caso/The End of the Affair
Produção   Inglaterra, 1955. Inglaterra-EUA, 1999.
Diretor   Edward Dmytryk Neil Jordan
Roteiro e argumento   Roteiro de Lenore J. Coffee (1896-1984), baseado no livro de Graham Greene. Roteiro do diretor Neil Jordan (1950- ) , baseado no livro de Graham Greene.
Elenco   Van Johnson (Maurice Bendrix), Deborah Kerr (Sarah Miles), John Mills (Albert Parkis), Peter Cushing (Henry Miles) Ralph Fiennes (Maurice Bendrix), Julianne Moore (Sarah Miles), Stephen Rea (Henry Miles), Ian Hart (Albert Parkis)
Ação Londres, entre 1939 e 1946. Londres, entre 1939 e 1946. Londres, entre 1939 e 1946.
Local de filmagem   Inglaterra, 1955. Inglaterra, 1999.
O tempo e a estrutura da narrativa O narrador escolhe para começar a contar a história, que se passa entre 1939 e 1946, no meio dela, em janeiro de 1946. A partir daí, ele vai em frente no tempo, mas misturando sempre, sem parar, o passado e o presente. A roteirista preferiu contar a história em ordem cronológica  rigorosa; começa no começo, quando Bendrix conhece Sarah, em 1939, e vai avançando. Só há um flashback, no capítulo 19, com a visão de Sarah dos fatos. Neil Jordan respeitou a estrutura da narrativa do romance; ele começa exatamente como Greene escreveu, e segue como o autor fez, indo e vindo no tempo, misturando presente e flashbacks sem parar. 
Deus A primeira referência vem logo no primeiro parágrafo (“ela acreditava em Deus tão pouco quanto eu”). E não pára em momento algum – está presente sempre, da primeira à última página. A primeira referência só vem no capítulo 7; a partir daí, é presença constante, mas não tão forte quanto no livro. É, certamente, o ponto em que as duas versões para o cinema mais se distanciam, e é o ponto chave. Como no livro, no filme de Jordan Deus é onipresente, dolorosa, opressivamente onipresente. 
O ciúme O ciúme de Bendrix é forte, violento, pegajoso, compulsivo. O tema está presente sempre, com muita ênfase. Há várias menções a ciúme, a primeira delas já na terceira vez em que Bendrix e Sarah se vêem. Mas é uma coisa muito mais suave do que livro e na segunda versão. Neil Jordan, exatamente como Greene, enfatiza o ciúme o tempo todo. Para explicitar de uma vez, inventa até um diálogo inexistente no livro, sobre o ciúme que Bendrix sente da meia que encosta na pele de Sarah.
O padre e o ativista  anti-religião Greene criou dois personagens secundários mas importantes, o padre Crompton e o “racionalista” Richard Smythe, um ativista, pregador, missionário anti-religião. Aqui, neste ponto específico, o primeiro filme seguiu mais de perto o livro; nele existem esses dois personagens. Não existe, simplesmente, a figura do pregador anti-religião.
A mancha no rosto – e o “milagre”. De Richard Smythe. Sim, acontece. De Richard Smythe. Não há mudança. De Lancelot Parkis, o filho do detetive Parkis. Sim, acontece. 
O desfecho   A roteirista preferiu encerrar a história antes do final escrito por Greene. Ao contrário da versão anterior, Neil Jordan vai até acontecimentos finais criados por Greene. Mas, pouco antes do desfecho, se deu a liberdade de acrescentar fatos que  não existem no livro.

 A estrutura narrativa

O item do quadro sobre a forma de narrativa permitiria diversas considerações. Talvez mais que qualquer outro, Greene é um escritor de ligações fortíssimas com o cinema. Foi crítico de filmes nos anos 30 (seus textos seriam mais tarde reunidos em um volume, Greene on Film, de 1972). Foi autor de diversos roteiros, inclusive de um filme endeusado por toda a crítica, O Terceiro Homem, de 1949, dirigido pelo inglês Carol Reed, mas na verdade, segundo muitos, conduzido por Orson Welles, seu ator principal, apenas oito anos depois do estouro de Cidadão Kane. Diversos dos romances de Greene foram filmados, e muitos deles têm um estilo que refletia influências da linguagem cinematográfica. “Greene extraiu sua técnica do cinema, com o qual aprendeu a escolher imagens visuais como correlatas das emoções”, notou um crítico inglês.

Em Cidadão Kane, em 1941, Welles havia rompido com a narrativa cronológica dos acontecimentos. Dez anos depois, no seu livro Fim de Caso – assim como fez também, por exemplo, em O Americano Tranquilo -, Greene explorou ao máximo a narrativa com mistura de tempos, com idas ao passado e vindas ao presente, seguindo a linha nada direta e reta dos pensamentos do seu narrador.

Assim, é interessante ver que, em 1955, a roteirista californiana Lenore J. Coffee tivesse optado por voltar atrás no tempo, à época pré-Kane, desmanchado essa teia emaranhada de passado-presente-passado-presente criada por Greene, e preferido contar sua história seguindo rigorosamente o calendário – com a única exceção de um longo flashback que mostra ao espectador, desta vez sob a ótica de Sarah, a mesma história antes apresentada por Bendrix.

A mesma história contada sob duas óticas nunca é a mesma história, são duas histórias às vezes completamente diferentes. Greene mostrou isso com brilhantismo no seu livro; e isso está dito na primeira versão para o cinema, ainda que de forma mais rápida. Neil Jordan vai muito mais fundo, já bem na primeira meia hora de filme, mostrando, genialmente, a mesma realidade sob os pontos de vista de Bendrix e de Sarah. Possivelmente é o melhor exercício cinematográfico sobre isso desde que, no início dos anos 60, o francês André Cayatte teve a ousadia de fazer dois filmes diferentes para contar a mesma história que na verdade são duas muito diferentes, em Confissões de Um Homem Casado-Confissões de Uma Mulher Casada.

Nos seus comentários em áudio ao longo do filme, o diretor Jordan conta um caso de puro deleite para cinéfilos inveterados. Na sua versão, assim como no livro, Bendrix, que é romancista, leva Sarah a um cinema para ver um filme baseado em um romance seu. Jordan fez uma pesquisa e acabou achando um trecho de um filme inglês “dos anos 40”, conforme ele diz, que teve roteiro de Greene, 21 Days Together. É um rapidíssimo trecho desse filme que o espectador de Fim de Caso vê, na cena em que Bendrix e Sarah estão no cinema vendo um filme baseado num romance de Bendrix.

(Na verdade, Jordan cometeu um pequeno equívoco em seu comentário: o filme 21 Days Together é de 1938, e não dos anos 40.)

Uma enciclopédia

 As comparações entre as duas versões de Fim de Caso, como muitas vezes acontece, fascinam porque são um compêndio, uma enciclopédia sobre as mudanças que ocorreram no nosso século não só com o próprio cinema, mas com toda a sociedade, o comportamento, as modas, os modismos, a estética, os gostos, as manias, os valores, a vida.

Tome-se, por exemplo, a forma com que o cinema, e portanto a sociedade, olhava e retratava o sexo; veja-se especificamente a escolha da atriz que faz a personagem central, Sarah Miles (é, claro, mera coincidência com o nome da atriz inglesa, que, quando Greene escreveu o romance, tinha dez anos). O livro faz uma belíssima teia de relações entre o desejo sexual e a fé religiosa.

Pois bem. A Sarah Miles do filme de 1955 é Deborah Kerr, uma atriz extraordinária, capaz de uma interpretação tão sutil quanto forte, de belíssimo rosto clássico – e quase nenhuma sensualidade. Naturalmente, não há nenhuma cena explícita de sexo; longe disso – afinal, era 1955; o cinema mal estava começando a se desvencilhar dos rigores absurdos do Código Hays. Esse código, que regulava a produção cinematográfica americana e influenciava a inglesa, defendia, com todas as letras, “a santidade da instituição do casamento e do lar”, bania “beijos excessivos ou luxuriosos, abraços luxuriosos e posturas e gestos sugestivos” e definia que “o adultério não deve ser tratado explicitamente”. Nesse ponto, ao contrário, é até necessário compreender que o filme de 1955 era avançado para a época; afinal, é exatamente de adultério que se trata, o tempo todo.

Pois bem, de novo. A Sarah Miles de 1999, Julianne Moore, transpira sensualidade em cada cena – mesmo quando está inglesa e recatadíssimamente trajada. Já na seqüência inicial, num jogo maravilhoso de presente e passado, vemos Bendrix meter as mãos entre as pernas de Sarah enquanto os dois sobem as escadas do santo lar dos Miles. E isto é só o começo. Jordan explicita – como nem a roteirista Lenore J. Coffee nem o diretor Edward Dmytryk poderiam, nos anos 50 – a forte carga erótica que Greene criou para Bendrix e Sarah, o casal adúltero. Nos Estados Unidos, o filme teve a classificação de R, restrito (crianças abaixo de 17 anos só entram com pais ou acompanhantes), devido a “cenas de forte sexualidade”.

Inquietações metafísicas

 Isso, no entanto, é apenas a mais clara e obviamente visível diferença entre as duas versões. Seguramente a mais importante é a forma de tratar Deus, a religião, as profundas inquietações metafísicas que se interpenetram nas relações do triângulo Bendrix-Sarah-Henry.

É interessante notar que o momento chave da história, o fim de caso do título – a bomba que explode perto do casal, Bendrix desacordado, Sarah ajoelhando-se, implorando a Deus para acreditar –  é mostrado de forma bastante semelhante nos dois filmes, apesar do quase meio século que os separa. No de 1955, é uma bela cena, a interpretação de Deborah Kerr tornando-a viva, forte, poderosa, apesar das limitações de Van Johnson. No de 1999, com o talento de Jordan, de Julianne Moore e de Ralph Fiennes, a seqüência é extraordinária.

Se, no entanto, essa seqüência fundamental é semelhantemente forte nos dois filmes, no resto eles se distanciam muito. A primeira versão não consegue passar direito para o espectador a profundidade do abismo que se cria a partir daí entre o agnóstico Bendrix e a Sarah perdida entre desejos inconciliáveis, entre forças antagônicas.  

A roteirista Lenore J. Coffe, prolífera, autora de argumentos e roteiros de dezenas e dezenas de filmes entre 1919 e o início dos anos 80, nenhum deles profundamente marcante, nem quis se aventurar muito nas profundezas das dúvidas metafísicas dos personagens de Greene. Ela conseguiu um bom retrato – embora diferente daquele criado pelo escritor – do padre Crompton, um crente um tanto perplexo, ciente das dificuldades de se transmitir fé embaixo de bombas. Preferiu, no entanto, ignorar a igualmente poderosa perplexidade do anticrente, o ativista anti-religião Richard Smythe, que Bendrix, em seu ciúme cego, enxerga como rival; deixou-se sólido como uma rocha. E simplesmente concluiu a história antes do momento em que Greene conclui a sua.

Jordan, que, muito mais que Lenore J. Coffee, conseguiu ser bem fiel ao texto de Greene, tomou, no entanto, algumas liberdades. A mais profunda delas foi ter simplesmente extinguido o personagem de Richard Smythe. Como era necessário que existisse um outro personagem masculino, para ser alvo das suspeitas de Bendrix, o roteirista-diretor transferiu essas atribuições para o padre Crompton. E, como era necessário um personagem com a mancha no rosto, transferiu-a para o filho do detetive Parkis, com toda a força que ela possui no livro e que não aparece no primeiro filme. Isso feito, jogou Smythe no lixo.

O fascinante é que as liberdades tomadas por Jordan não o afastaram do que Greene escreveu. Ao contrário. É o segredo da boa tradução de uma língua para a outra – e a adaptação de livros para o cinema é exatamente isso, não é? Tradutori, tradittori. Muitas vezes a transcrição solta, livre, é mais fiel que a literal. Nos anos 50, um ativista anti-religião; nos anos 90 e muitos, um padre. Faz sentido. Há tão pouca gente com fé hoje, nesse meio que Greene descreve, que não faria sentido um pregador da falta de fé.

Ele próprio um convertido – foi batizado aos 20 e poucos anos -, assim como Sarah, Greene dizia que gostaria mais de ser conhecido como um católico que era novelista do que como um novelista católico. Aparentemente, para ele, crer é um exercício extremamente doloroso. “Peguei crença como uma doença”, Sarah diz no livro, em bela frase que nenhum dos dois filmes aproveitou. Crença e dor – culpa, arrependimento, remorso, medo, tudo – vão tão juntas, mas tão juntas, que, para muitos leitores-espectadores, a história de Sarah, Bendrix e Henry poderá parecer mais própria de um incréu do que um crente. Para Greene, afinal, é do pecado que surge a graça, e aqueles que mais se “perderam” são os que mais graças receberão. 

 Anotação em 2007: Revi o filme de 1955 pela primeira vez com a sensação de que ele é muito melhor do que o remake de Neil Jordan em 1999. Aí fui ler minha resenha sobre os dois filmes, que fiz para o estadao.com.br, quando tinha uma coluna sobre DVDs. E me surpreendi ao ver que, na época, tinha gostado muito mais do remake!

Me surpreendi também com a qualidade da minha resenha – pesquisei a sério para fazê-la.

Quando vi o filme de 1955 pela primeira vez, em agosto de 2000, dei só duas estrelas. Absurdo.

A história de Graham Greene é extraordinária. E o filme é excelente – o único senão que talvez possa ser feito a ele é a escolha de Van Johnson, tido como um ator um tanto inexpressivo, para o papel de Maurice Bendix. Mas mesmo isso, que costuma ser dito nos guias, é contestável: ele tem o rosto, a expressão triste, acabrunhada, que o personagem precisava ter. E Deborah Kerr, que eu na resenha disse não ser sensual como Julianne Moore na refilmagem, é linda, é estonteantemente linda, com aquela beleza clássica que Greene deve ter imaginado na trágica heroína, Sarah Miles. John Mills, como o detetive, dá um show – é absolutamente extraordinário.

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