A Luz é Para Todos / Gentleman’s Agreement


Nota: ★★★★

Anotação em 2000: Este é um filme extraordinário, possivelmente um dos melhores de Elia Kazan, um dos melhores filmes sobre racismo de toda a História.

Gregory Peck faz um dos vários papéis que teve a sorte de interpretar ao longo da carreira de homem de caráter nobre, reto, honesto – como o de Atticus Finch, o personagem criado por Harper Lee no romance O Sol é Para TodosTo Kill a Mockinbird e que daria ao ator um Oscar em 1962. Aqui ele é Philip Schuyler Green, um escritor que é convidado pelo dono de uma revista progressista, liberal, de Nova York, para escrever uma longa matéria sobre o anti-semitismo nos Estados Unidos do pós-guerra; para elaborar sua reportagem, ele se faz passar por judeu. O que vai encontrar pela frente – o racismo, a falta de caráter, a mentira, a hipocrisia, tudo o que Atticus Finch também enfrentaria – é de fazer corar um frade de pedra.

aluzInfelizmente, o filme desaponta um pouco no finalzinho, quando tudo se resolve muito rapidamente, como num passe de mágica. Mas nem essa pequena concessão ao padrão da época, a necessidade de happy ending e de o bem prevalecer, tira o brilho do filme. O texto é excepcional, absolutamente excepcional.

O filme foi indicado para oito Oscars e levou três, os de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz coadjuvante (Celeste Holm); perdeu nas categorias de ator (Peck), atriz (Dorothy McGuire), atriz coadjuvante (Anne Revere), montagem e roteiro.

Pouco depois de fazer esta obra-prima, Kazan seria acusado de colaborar com o comitê de McCarthy que caçava bruxas comunistas na indústria de entretenimento americana; embora massacrado por essa acusação, continuaria a fazer filmes brilhantes.

Só para registrar: pois foi então do título brasileiro deste filme que os distribuidores tiraram o O Sol é Para Todos para To Kill a Mockinbird, outro filme extraordinário sobre valores fundamentais, decência, anti-racismo. Que coisa, hein! Só fiquei sabendo disso agora. Como é parco o conhecimento cinematográfico mesmo de quem se dedica muito ao cinema! E a Bolha de S. Paulo pega uns meninos de 25 anos e os chama de críticos de cinema.

A Luz É Para Todos/Gentlemen’s Agreement

De Elia Kazan, EUA, 1947.

Com Gregory Peck, John Garfield, Celeste Holm, Dean Stockwell, Dorothy McGuire, Anne Revere, Jane Wyatt, Sam Jaffe

Roteiro Moss Hart

Baseado na novela de Laura Z. Robson

Música Alfred Newman

Produção Darryl F. Zanuck

118 min, P&B.

****

Título em Portugal: A Luz é para Todos. Na França: Le Mur Invisible.

3 Comentários

  1. Romão gomes
    Postado em 7 março 2013 às 11:39 pm | Permalink

    Gregory Peck sempre foi um daqueles tipões manufaturados de hollywood, mas nunca um ator. Era extremamente caricato e o filme citado “o Sol é para todos foi um dos que eu mais desejei vir em minha vida e,quando o vi… Quanta decepção. Eu não compreendo porque tão poucas pessoas conseguem enxergar certas coisas. Será que o rótulo de clássico eleva um a obra a imunidade? A torna imaculada? Parece que sim!

  2. Jussara
    Postado em 22 outubro 2015 às 1:13 am | Permalink

    Também acho que o filme desaponta no final, com uma saída fácil para livrar a cara da personagem Kathy (Dorothy McGuire). Ela se mostra preconceituosa ao longo de todo o filme, principalmente quando o filho de Phil chega em casa chorando por ter sido xingado na rua pelos amigos, e ela fala pra ele não se preocupar, afinal, ele não é judeu, então não precisa ficar ofendido. Como é que é? Nessa hora ela ultrapassou todos os limites.
    Em contrapartida, temos a maravilhosa Anne (Celeste Holm), inteligente, liberal e espirituosa, que em determinado momento fala com todas as letras ao Phil sobre o verdadeiro caráter de Kathy (uma das melhores cenas do filme, na minha opinião), e ainda se declara, mas ele não lhe dá ouvidos nem bola, e fica por isso mesmo. Uma pena, aliás, que a personagem não volte a aparecer mais na história depois disso. Torci tanto para os dois ficarem juntos naquela hora, na primeira vez em que assisti, mas de nada valeu minha torcida. he Eu nunca gostei do romance entre Phil e Kathy, acho que se deu rápido demais, e que Kathy não tinha nada a ver com Phil. Espero que eles tenham ido morar com a mãe dele depois do casamento.

    Li no IMDb que Gregory Peck e Elia Kazan não se deram bem durante as filmagens, e Kazan chegou a dizer para a imprensa que ficou desapontado com a performance de Peck. Ele disse também que nunca gostou muito do filme, que faltou paixão de sua parte, e que o romance dos protagonistas foi muito forçado.
    Celeste Holm, por sua vez, declarou que trabalhar com Gregory Peck não foi nada divertido.
    Fiquei pensando o que pode ter acontecido para ele não ter se dado bem com o diretor (muitos anos depois Peck falou que eles não estavam trabalhando na mesma sintonia, e que acha que não deu o melhor que podia a Kazan; mas que se eles tivessem trabalhado juntos com ele já maduro, teria feito tudo o que o diretor queria). Isso me faz pensar que Peck podia ser meio turrão na época, talvez ainda um pouco imaturo mesmo com seus 30, 31 anos. Nunca havia lido reclamações sobre ele, e em todas as entrevistas que vi, ele aparece sempre simpático, bem humorado, brincalhão e bastante pé no chão (mesmo depois de velhinho manteve o mesmo sorriso). Que outro ator teria humildade suficiente, poucos anos depois, para mandar colocar o nome de uma atriz iniciante e desconhecida antes do dele, que já era um astro?

    Não sei o que Elia Kazan esperava, mas a atuação de Peck não é ruim; revi o filme esses dias, e achei bastante boa. No geral todos estão bem; a performance mais fraca para mim, apesar da atriz ter sido indicada ao Oscar, é a de Anne Revere (que era só 12 anos mais velha que Gregory, mas aparentava bem mais, verdade seja dita).
    A Anne, de Celeste Holm, me lembra um pouco sua personagem em “High Society”. Holm era uma boa atriz, melhor que muitas outras badaladas, mas parece que foi subestimada (e era bem bonita, tinha olhos grandes e expressivos).
    Dean Stockwell está uma graça, como sempre. Dois anos antes ele havia feito “Anchors Aweigh” com Gene Kelly, Frank Sinatra e Kathryn Grayson (para mim, eterna “aunt” Susie). Tempos depois, já adulto, Stockwell deu uma entrevista sobre essa experiência, e fez um comentário totalmente nada a ver sobre Gene, que só me fez pensar que ele foi um ator mirim mimado, que cresceu e desenvolveu baixa auto-estima, apesar de se ter em alta conta.

    Gregory Peck era mais charmoso que bonito, mas está muito gatinho nesse filme. I could eat him with a spoon, como disse Kathy para seu personagem em determinado momento. (Quando revi o filme esses dias, e apareceu essa cena, me lembrei de uma coisa, por causa da palavra “eat” e suas variáveis. Uma vez, foi publicada uma foto do Gene Kelly usando short no set de “Marjorie Morningstar”, numa página que sigo. É uma foto rara, que deixa às mostras suas lindíssimas pernas; então gerou muitos comentários. Claro que como boa adoradora de pernas bonitas, eu não podia deixar de falar sobre as pernas maravilhosas e torneadas que ele tinha, e que infelizmente não foram exploradas nos filmes — mas mostrar virilha e coxa de mulher o cinema mostrava. Então comentei elogiando as pernas, e outra fã americana com quem às vezes troco mensagens, me deu reply dizendo que ele tinha as pernas mais bonitas ever: “You could eat off them”; e perguntou se a frase me soava excêntrica. Eu ri muito e disse que não.
    Mas voltando ao filme, na época a frase dita pela Kathy era inocente, mas hoje ela tem outros [e melhores] sentidos).

    And last but not least: só eu acho que John Garfield tinha cara de brasileiro? (Infelizmente foi mais um que morreu cedo, provavelmente por causa do cigarro).

  3. Jussara
    Postado em 22 outubro 2015 às 1:28 am | Permalink

    Meu Deus, não posso ficar muito tempo sem comentar, porque acabo escrevendo demais! Mas em relação ao que o leitor do comentário anterior disse, eu discordo: Peck não era manufaturado. Acho que às vezes ele podia exagerar nas cenas dramáticas sim, e cair no overact, mas talvez fosse pelo fato de ter vindo do teatro.
    E sim, você tem razão quando diz que Philip Green tinha a ver com Atticus Finch (e também com Gregory Peck himself, segundo o próprio). E como não se apaixonar por um personagem de caráter bom e nobre?
    Por falar nisso, Sérgio, falta um post aqui sobre “To Kill a Mockingbird”, hein?! Já li o texto sobre o livro lá no 50ADT, mas sinto falta de um sobre o filme (preciso reler seu texto e comentar lá).

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  6. Por 50 Anos de Filmes » O Justiceiro / Boomerang! em 21 janeiro 2016 às 9:10 pm

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