O Lutador / The Boxer


Nota: ★★★½

Anotação em 1999: Já na primeira metade, tive a certeza de estar diante de um filme absolutamente extraordinário, excepcional. A mistura de vida pessoal e política que ele consegue mostrar, tão forte, densa, é brilhante como poucas vezes vi. O roteiro é primoroso, alternando a saída de Danny Flynn da prisão (Daniel Day Lewis, excelente como sempre) com a vida de Maggie (Emily Watson) e seu pai, apresentado como chefe supremo do IRA, e o próprio momento histórico da Irlanda.

Há um momento, com uns dez minutos de filme, em que a câmara se fixa no rosto de Danny Flynn, deitado numa cama de asilo para a primeira noite fora da prisão depois de 14 anos, em que pensei: mas será que ele vai dar um flashback para explicar por que o personagem estava preso? Não, não dá, ao contrário do que se poderia esperar, ao contrário do que seria mais cômodo. Não; os roteiristas Jim Sheridan e Terry George são safos demais, experientes demais para cair na saída cômoda. Eles seguem em frente com a narrativa, deixando para o espectador, pouco a pouco, ir juntando os pedaços da história, dos 14 anos que se passaram antes do início da ação.

Algumas questões são colocadas de cara, antes mesmo que o espectador menos atento entenda por quê. Desde os letreiros, duas ações paralelas vão se desenvolvendo: a saída de Danny Flynn da prisão e uma cerimônia de casamento lá mesmo, dentro da prisão. Quando Maggie, a noiva, sai e joga o buquê, uma mulher mais velha vê Danny Flynn saindo. Os letreiros terminam na festa de casamento de Maggie, em que só a noiva está presente, pois o noivo está preso; a mulher mais velha informa Maggie, que vemos pela primeira vez, sobre a saída de Danny Flynn. Não se fala isso, mas está claro: os dois, Maggie e Daniel, tiveram um caso no passado.

E, na própria festa de casamento, o pai de Maggie faz um brinde à noiva e exalta a fidelidade das mulheres dos presos como o ponto de honra mais importante para aquele país em guerra – e no mesmo discurso, en passant, ele diz que o marido de Maggie ainda está na prisão. Na mesma seqüência, a segurança do IRA pega um rapaz que está dançando com uma mulher cujo marido está preso e o adverte para não ameaçar a fidelidade conjugal.

Temos aí, com menos de dez minutos de filme, os dados claramente expostos na mesa: caso haja envolvimento de Danny Flynn e Maggie, eles estarão indo diretamente contra todo o código de honra do IRA, rígido demais exatamente porque se está em guerra.

Lá pela metade do filme, me ocorreu que a questão moral, a questão política, o que eles estavam dizendo, afinal, era bem mais complexa, bem mais matizada, bem menos maniqueísta do que nos dois filmes anteriores da dupla de roteiristas e diretores, Em Nome do Pai e Mães em Luta – de resto, dois filmes excelentes, em forma e conteúdo. Os dois anteriores se baseavam em fatos reais. E foram feitos com a perspectiva dos anos que já haviam se passado. Mostravam o absurdo erro da presença militar inglesa na Irlanda e os crimes que ela cometeu.

Aqui, não. Em primeiro lugar, trata-se de uma ficção – e fala da guerra entre irlandeses e ingleses que ainda estava acontecendo, e que não se sabe onde iria dar, a tentativa de uma trégua na luta secular. Não se trata de não condenar a intervenção estrangeira armada; claro, a condenação está lá, o tempo todo. Mas trata-se, sobretudo, de ir mais fundo, de fazer autocrítica, de questionar: afinal, estamos nós (este é o ponto de vista do filme e de seus autores), irlandeses católicos e republicanos e separatistas, preparados para viver uma trégua em nome da possibilidade da paz, com tudo o que isso implica – inclusive ceder um pouco, inclusive esquecer os crimes que eles, os ingleses e os protestantes, praticaram no passado, em nome de um futuro melhor?

Há dois diálogos, em especial, que colocam isso diretamente, os dois entre Joe, o chefe do IRA, pai de Maggie, e Harry, o radical. “Quando é que você vai parar de viver no passado e pensar no futuro?”, pergunta Joe. E depois: “Sim, conviver com eles, Harry, os protestantes, os outros 50% da população”.

Na segunda metade, especialmente na terça parte final, no entanto, me pareceu que o filme cai um pouco – o começo prometia demais da conta.

Mesmo assim, é claro que é um grande filme, para se rever e sobre o qual se pensar. Os atores todos estão extraordinários. E que mulher interessantíssima é essa Emily Watson, linda, com aqueles belíssimos, brilhantes olhos azuis.

Um detalhe interessante é que Chris Menges, depois de dirigir Um Mundo à Parte, de 1988, um belo filme sobre o apartheid com a Barbara Hershey, de novo está trabalhando como diretor de fotografia.

O Lutador/The Boxer

De Jim Sheridan, Irlanda-EUA, 1997.

Com Daniel Day Lewis, Emily Watson, Brian Cox, Ken Stott, Gerard McSorley, Kenneth Chanham

Fotografia Chris Menges

Roteiro Jim Sheridan e Terry George

Música Gavin Friday e Maurice Seezer

Produção Hell’s Kitchen, Universal

Cor, 113 min.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Entre Irmãos / Brothers em 27 novembro 2010 às 1:34 pm

    […] seca, sem sentimentalismos, optando várias vezes pelo subentendido em vez do explícito, o diretor Jim Sheridan mostra que uma suspeita, um ciúme, pode doer quase tanto quanto a mais brutal tortura física e […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » O Negociador / Whole Lotta Sole em 15 setembro 2014 às 4:13 pm

    […] como roteirista ou como diretor, os maravilhosos Em Nome do Pai (1993), Mães em Luta (1996) e O Lutador (1997), todos sobre os conflitos na Irlanda do Norte. É dele também o roteiro do excelente Hotel […]

  3. […] é interpretada pela londrina Emily Watson, essa maravilhosa atriz de tantos belos filmes como O Lutador (1997), O Poder Vai Dançar (1999), Assassinato em Gosford Park (2001). O espectador vê Emily […]

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