Viva Maria


Nota: ★★★☆

Anotação em 1998, com complemento em 2008: O pessoal papo-cabeça que não perde um filme iraniano na Mostra de Cinema de São Paulo não gosta muito desse tipo de coisa, mas a verdade é que uma das muitas artes do cinema é divertir. Divertir, entreter, agradar, proporcionar momentos gostosos, prazerosos. Viva Maria pertence a esse departamento – e é uma pérola.  

 Antes de brindar o mundo com esta diversão, Louis Malle tinha feito 30 Anos Esta Noite/Le Feu Follet, um dos filmes mais lúgubres, mais soturnos da nouvelle vague, em que um um homem que está em tratamento de desintoxação decide pôr fim à vida no dia de seu 30º aniversário. Certamente deve ter passado pela cabeça dele a idéia de se divertir um pouco, depois daquilo. Juntamente com Jean-Claude Carrière, um dos melhores roteiristas europeus, colaborador freqüente de Luís Buñuel, inventou uma história maluca, uma bobagem, totalmente inverossível, sobre duas jovens cantoras de um troupe de music hall que viaja pelo México em revolta no começo do século, e participa de aventuras ao mesmo tempo heróicas e cômicas.

Teve a felicidade de juntar, para isso, as duas maiores atrizes francesas da época – Jeanne Moreau e Brigitte Bardot, no auge da fama e da beleza. Para o título, inventou a brincadeira com Viva Zapata, o filme em que Elia Kazan discute a sério os rumos, os vacilos, os tropeços da revolução mexicana.

A dupla Moreau-Bardot funcionou às mil maravilhas. O filme é uma alegria, uma delícia.

O anticlericalismo de Malle nunca esteve tão forte, violento, aguçado. Mas ele não pesa no filme. Nada pesa – tudo é livre, leve e solto, como às vezes a vida precisa ser, que ninguém é de ferro.

Décadas depois dessa deliciosa brincadeira, o cinema voltaria a usar heroínas se aventurando num mundo de homens. Para lembrar só dois: o western Quatro Mulheres e Um Destino/Bad Girls, de 1994, com Madeleine Stowe, Mary Stuart Masterson, Andie McDowell e Drew Barrymore, e a brincadeira escrachada Bandidas, de 2006, com Penelope Cruz e Salma Hayek atirando a três por quatro em nome dos fracos e oprimidos. São boas diversões. Mas o original de Malle é melhor.

Viva Maria/Viva Maria

De Louis Malle, França-Itália, 1965.

Com Brigitte Bardot, Jeanne Moreau, George Hamilton, Paulette Dubost

Roteiro Louis Malle e Jean-Claude Carrière

Música Georges Delerue

Fotografia Henri Decae

Cor, 120 min

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2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Viver por Viver / Vivre pour Vivre em 16 fevereiro 2011 às 4:47 pm

    [...] os jovens que viriam a ser os grandes nomes da nouvelle vague – Godard, François Truffaut, Louis Malle, Claube Chabrol, Eric Rohmer. Embora o cinema desses autores não tenha muita coisa em comum, [...]

  2. [...] visto, mas sempre tinha amado Trinta Anos Esta Noite/Le Feu Follet, um dos primeiros filmes de Louis Malle, com Maurice Ronet como o belo homem que uma manhã, às vésperas de seus 30 anos, anuncia para si [...]

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