A Trégua / La Tregua


Nota: ★★★★

Anotação em 1998: Um excelente filme, um grande espetáculo cinematográfico, uma obra para alimentar o espírito. Como é uma superprodução, por causa do tema e da época em que ele foi produzido, é impossível para o espectador deixar de lembrar de A Lista de Schindler.

E é interessante notar que o filme, de autoria de Francesco Rosi, nome forte do cinema político italiano desde os anos 60, não tem qualquer pudor de ser o que os críticos chamam de “sentimental”, ou “que apela para o sentimentalismo”. Característica tida como um dos defeitos de Steven Spielberg.

Sem querer prosseguir em qualquer tipo de comparação com Schindler, é preciso dizer isto: o filme não tem vergonha de apelar para o sentimentalismo. Tem diversas frases, contextos, cenas, imagens feitas para atingir diretamente o coração do espectador. E isso não tem nada demais, ou de menos; não é um defeito.

O texto é brilhante; tem frases tão belas quanto fortes, de grande efeito (e isso me fez lembrar aquele grande exemplar do cinema político italiano, Os Companheiros, de Mario Monicelli, do início da década de 60), que fazem pensar, sim, mas sobretudo emocionam.

* Primo Levi (o papel de John Turturro) entrega o uniforme com o número de registro e a estrela de David para o amigo Danielle. “Para lembrar.”

“Se Auschwitz pode existir, Deus não existe.”

* “Agora sei por que Deus poupou você” – diz o amigo Danielle para o Primo Levi.

“Não tenho essa intimidade com Deus”, ele responde.

“Para que você possa escrever.”

*”Vocês não são italianos”, diz uma senhora austríaca que havia vivido na fronteira com a Itália. “Os italianos têm paixão nos olhos. Vocês são croatas.”

“É que nós viemos de um lugar onde não existe paixão, a paixão é aniquilida”, diz Primo Levi.

“De onde vocês vieram?”, pergunta a velhinha.

“De Auschwitz.”

E ela os convida a entrar, beber cerveja e comer bolo. E conta que, quando a guerra começou, escreveu uma carta para Hitler, para avisar de milhares de inocentes morreriam.

* O mesmo Danielle coloca um pedaço de pão no chão, quando soldados alemães prisioneiros dos soviéticos imploram por comida. E Primo Levi fala em off que os alemães vieram rastejando-se para pegar o pão dado pelo ex-prisioneiro de Auschwitz.

As duas seqüências mais belas e mais emocionais e emocionantes deste filme que se apega tanto às palavras se baseiam na música, e uma completa a outra. A primeira delas se passa logo após uma outra seqüência linda e carregada de símbolos, aquela em que Primo Levi tem a primeira real experiência da vida em liberdade após Auschwitz: ele é convidado pela chefe russa a jantar em seu apartamento, juntamente com um oficial de alta patente e a enfermeira linda. Ao sair da casa da chefe russa, Primo Levi vê a enfermeira linda, e por um momento acha que ela veio se encontrar com ele; mas não, ela veio se encontrar com um oficial russo – e um colega italiano diz que ela é apenas uma puta.

Pois bem. Logo após isso, vem a primeira das duas seqüências mais belas do filme. Os italianos ouvem o som de Cheek to Cheek, e vão até o local de onde sai o som. Está lá um soldado russo dançando ao som da música; parece um veado, um veadaço, dançando ao som de Cheek to Cheek e fazendo movimentos grotescos com sua espada. E os italianos se aglomeram para ver através de frestas o russo dançando ao som do standard composto (só me lembrei deste detalhe agora) por um russo cuja família fugiu para a América no começo do século – Irving Berlim é russo, na hora do filme eu não me lembrei disso! E alguém, um dos muitos italianos reunidos ali, diz: “Para a música não há guerra. A música não tem fronteiras”.

Mais um bom tempo de filme, vem a seqüência mais bela de todas. Fogos no campo onde o Exército Vermelho administra ex-presos dos alemães, inclusive os italianos. Berlim caiu, Hitler está morto. Há uma cerimônia marcial em um grande galpão, os oficiais à frente, os soldados atrás, os ex-presos mais atrás. Um coral canta uma música marcial. Depois, a enfermeira russa linda canta uma música tradicional russa. E aí colocam Cheek to Cheek, com o soldado repetindo sua coreografia veada e desengonçada. E então – esta é a seqüência mais brilhante do filme – italianos e italianos se olham, feios, sujos, cabelos cortados há poucos meses com máquina zero, e vão pouco a pouco formando pares e dançando Cheek to Cheek, câmara em primeiríssimo plano, às vezes se desfocando, faces encostando em faces pela primeira vez em milênios.

Na penúltima seqüência do filme, há de novo uma dessas cenas de grande apelo emocional. O trem soviético que leva erraticamente os ex-prisioneiros italianos de volta para casa chega a Munique, na Alemanha, onde tudo começou. John Turturro-Primo Levi sai do trem, se aproxima de um trabalhador alemão, arianão, e mostra a estrela de David do uniforme do campo de concentração; há um forte efeito de luz, e o alemão se ajoelha em pedido de perdão por aquilo que sua nação fez.

Há uma cena de diálogo forte que não combina muito bem com a ação. É quando o grupo de italianos saído de Auschwitz já está na União Soviética (ele passou pela Ucrânia e pela Bielo-Rússia), e matam um bezerro para distribuir a carne. Quando uma moça vai pegar o seu pedaço de carne, um rapaz diz que ela não deve receber, porque em Auschwitz ela dividia o pão com os SS. (O espectador já sabe quem é a moça por causa de um flashback em que os olhares dela e de Primo Levi se encontra.) Pois nessa cena ele interfere, falando, pausadamente, uma frase fortíssima do tipo: “O pior que nos fizeram em Auschwitz não foi a tortura, a fome, as mortes dos companheiros, e sim o fato de terem tirado de nós o respeito por nós mesmos e de uns pelos outros”.

A narrativa começa em janeiro de 1945, e vai possivelmente até o primeiro semestre de 1946. O início se dá exatamente no momento em que os alemães deixam a região da Polônia onde ficava o campo de Auschwitz, e o Exército Vermelho chega. Boa parte do filme (de 128 minutos) se concentra entre janeiro e maio, quando Berlim cai e a guerra na Europa termina.

Há uma cena que demonstra por um lado o agradecimento que Primo Levi deve ter do Exército Vermelho, e a nostalgia que o diretor Rosi seguramente sente da época em que a União Soviética existia e era poderosa. É uma cena mais para o final do filme, na Ucrânia (ou Bielo-Rússia), em que o grupo de ex-presos vê passando, de volta para o coração da Rússia, o Exército Vermelho. Há um texto em off do Turturro, que faz o Primo Levi, falando que aqueles soldados são gentis na paz e valorosos na guerra; as pessoas se amontoam junto à estrada para saudar os soldados; a música tem um espasmo de grandiloquência.

A música é muito, muito boa. No final, ao som de uma melodia suave, com uma gaita, me ocorreu que seria do Morriconne. Não é. É do Bacalov, o autor das músicas do Saltimbancos, que o Chico Buarque traduziu para o português. É muito bonita – mais quando é suave e sentimental, menos quando é grandiloquente.

Um detalhe me incomodou profundamente – o mesmo que me incomodou em Sete Anos no Tibete. Em Sete Anos no Tibete, um filme do francês Annaud, o personagem central, um austríaco, interpretado por um ator americano, fala em inglês com sotaque alemão. Aqui, nesta outra grande produção européia, os russos falam russo, os alemães falam alemão, o grego fala um pouco de francês, um pouco de grego, e os italianos falam inglês! É a mesma lógica perversa e absurda dos filmes americanos. Em quase absolutamente todos os filmes americanos, as demais línguas são as demais línguas, e a língua dos personagens principais – sejam eles franceses, alemães, italianos, espanhóis – é o inglês.

Tudo bem. Entendo perfeitamente a lógica perversa: uma superprodução ítalo-franco-russa-suíça distribuída mundialmente em versão em inglês tem mais chances de sucesso comercial. O Annaud, assim como o Rossi, cedeu à lógica perversa. Mas, caralho, não deveria ser assim. Que fosse assim na versão a ser exibida nos EUA, o maior mercado mundial. Mas não precisaria ser assim na versão distribuída no resto do mundo. Ou que fosse assim com filmes menores, de diretores menos importantes. É um absurdo. Que se dublasse John Turturro para o italiano, porra – como o Burt Lancaster foi dublado para o italiano em O Leopardo, e os demais atores foram dublados para o inglês na versão a ser exibida nos EUA.

Essa coisa do imperialismo cultural me enche muito o saco. Não consigo engolir essa lógica absurda e perversa.

Agora, entendo que isso é um detalhe (que, por exemplo, não deixou a Mary incomodada). E a grandeza do filme é fantástica.

E é lindo isso de ser um filme pan-europeu, feito hoje, na Europa unida e libertada tanto do nazifascismo quanto do stalinismo, embora ainda não libertada do racismo e tão perto da selvageria tribal dos Bálcãs.

A Trégua/La Tregua

De Francesco Rosi, Itália-França-Rússia-Suíça, 1997.

Com John Turturro, Rade Serbedzija, Massimo Ghini

Roteiro Francesco Rosi e Tonino Guerra

Baseado no romance autobiográfico homônimo de Primo Levi

Música Luís Bacalov

Cor, 125 min

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