
Nota: 



Anotação em 1997: O filme parte de uma idéia bárbara, sensacional (na apresentação, não se diz argumento e roteiro de Giuseppe Tornatore, mas sim “idéia original e roteiro”). E conta com dois atores monstros, embora o francês Gérard Dépardieu e o polonês-cidadão-do-mundo Roman Polanski estejam dublados para o italiano. Conta ainda com a música de Ennio Morricone, uma câmara excelente, uma cenografia muito bem cuidada (de Andrea Crisanti).
E, no entanto, o final é um tanto decepcionante; o filme perde o fôlego, fica confuso, não desata os nós – pelo menos foi a sensação que tive nesta primeira vez. Posso estar enganado. Mas a sensação que tive foi de que Tornatore ainda não tinha maturidade suficiente para tratar das muitas e complexas questões que aborda. (Ver complemento abaixo.)
A idéia central: a confrontação de dois homens dentro de uma delegacia de polícia, o representante do Estado, a autoridade, e o suspeito de um crime, e as disputas pelo poder que nascem daí, as inversões do mando de jogo quando se descobre que o suspeito não é um homem comum, e sim uma figura ilustre, importante, respeitada na sociedade. E mais: a discussão sobre arte, sobre a arte que o artista produz e o ser humano às vezes abjeto que é o artista; o endeusamento do artista; as vacilações de caráter do artista, a crise do bloqueio, a incapacidade de continuar criando. Tudo dentro de um tour-de-force no embate, durante uma noite de tempestade, entre duas personalidades num recinto fechado, que é em boa parte a essência das artes cênicas todas.
A abertura do filme é brilhantíssima. Um revólver dispara. A câmara vai correndo numa floresta em meio a uma chuva forte; percebemos imediatamente que a câmara são os olhos de um personagem que corre, resfolega; a câmara vira para a esquerda, para a direita, para correr entre as árvores. A seqüência dura toda a apresentação. Ao final da apresentação a pessoa que corre se depara com policiais. Só aí vemos que é Dépardieu. A polícia pede os documentos, ele não tem; é levado para a delegacia, uma delegacia pobre, de interior da Itália, lugar nada turístico, onde há diversas goteiras.
A primeira imagem que temos, assim, é do homem indefeso diante da máquina do Estado, um homem molhado até os ossos, a quem não dão o direito de tomar um banho, botar uma roupa seca, e que fica à espera da chegada, nunca se sabe quando, da autoridade, o comissário de Polícia, interpretado por Polanski, brilhantíssimo. E aqui talvez seja preciso lembrar que de fato Polanski é um grande ator – como já havia demonstrado à exaustão em A Dança dos Vampiros, Chinatown, O Inquilino.
Começa o interrogatório; o preso diz que se chama Onoff, e o comissário diz que então se chama Leonardo da Vinci. Porque, veremos em seguida, Onoff é um escritor famoso, de quem o próprio comissário é leitor ardoroso, a ponto de saber recitar frases inteiras. O comissário leva um tempo até se convencer de que o preso fala a verdade, é de fato Onoff.
E então temos a segunda imagem – a autoridade se curvando diante da pessoa importante. O comissário muda completamente o tratamento do preso, faz com que ele troque de roupa, bote roupa seca; passa a tratá-lo com a reverência do pequeno funcionário público diante de um homem famoso. E o preso então bota banca, se sente reconhecido, acha que passou a dominar a cena.
Acontece que, embora com reverência, o comissário continua a fazer perguntas – e o preso entra em contradições, não sabe responder a questões básicas. Houve um crime no lugar, naquela noite, informa o comissário ao preso, e ele precisa saber a verdade.
O espectador vê fragmentos de imagens que passam rapidamente pela cabeça do preso; ou ele de fato teve uma amnésia parcial, e não sabe o que aconteceu durante três horas daquela noite, ou está escondendo fatos da autoridade.
Tudo isso é muito bem contado; Tornatore cria com brilhantismo um clima caustrofóbico, de demência, de insanidade.
A partir daí é que Tornatore perde a mão, eu acho. A história começa a ficar confusa; ficamos sabendo que o escritor famoso está em profunda crise existencial por não conseguir escrever novas obras, e que a última que publicou foi na verdade roubada de um mendigo que ele conheceu e admira; não fica claro se ele matou alguém, ou se forjou um estranho suicídio montando um boneco em forma de gente com suas próprias roupas e colocando no interior velhas fotos e lembranças. Não fica claro o que aconteceu com a visita que recebeu, uma mulher misteriosa, que tanto pode ter sido sua ex-mulher quanto uma nova amante.
Complemento em novembro de 2009: Várias pessoas escreveram mensagens para o site (estão aí logo abaixo) dizendo que eu não entendi nada. Ou que o filme permite várias leituras – uma delas é a de que Onoff (on x off) já chegou à “delegacia” desligado da vida material, e a delegacia, naturalmente, é apenas uma metáfora. Estão certas essas pessoas, errei. Vou rever o filme e escrever de novo sobre ele. Mas deixo a anotação original aqui, em que, aliás, eu até admitia que podia mesmo estar enganado. Estava. A gente erra mesmo; errei.
Uma Simples Formalidade/Une Pure Formalité/Una Pura Formalità
De Giuseppe Tornatore, Itália-França, 1994.
Com Gerard Depardieu, Roman Polanski, Sergio Rubini
Argumento e roteiro Giuseppe Tornatore
Música Ennio Morricone
Cor, 108 min
8 Comentários
Pessoal, não acho que no final tornatore perdeu a mão. O final fica para a imaginação de cada um. É isso. O filme é maravilhoso.
Tornatore não perdeu a mão. Quem não tiver espiritualidade suficiente para entender que Onoff já se encontrava em espírito quando chegou à “delegacia”, assista de novo e entenda a “delegacia” post mortem.
Quase ninguém entende a espiritualida do filme. Onoff (On – off) já estava off quando chegou à delegacia.
COmo disse ocolega Carlos, On Off é uma puta sacada…e é muito bom saber que tem genet que não entende o filme de primeira…é sinal que é bom de mais e não segue os passos dos blockbusters…AO caro colega q não entendeu, digo,,,,veja novamente e leve em consideração dicas postadas aqui..verá q o filme é fantático….( não contamos o fim, apenas damos dicas para não estragar a surpresa)
Conforme já foi comentado por outros aqui, o crime que Onoff cometeu foi o seu próprio suicídio e ele já estava desligado da vida material quando chegou à delegacia. O filme é sensacional, roteiro inteligentíssimo do início ao fim e com um final surpreendente =)
Quem não teve maturidade suficiente foi você, tanto que não entendeu a mensagem que o filme quis passar, recomendo que assista novamente e reflita bem antes de escrever algo assim.
Mas credo em cruz, Kathren, não precisava de tanta agressividade. Você não leu o complemento que escrevi e que está lá direitinho, dizendo que errei, que não entendi o filme?
Nossa, moça, pra que tantas pedras na mão em cima do pobre coitado que não entendeu o filme mas que se penitenciou por isso?
Está com algum problema na vida?
Boa sorte pra você, moça, nesta vida e na outra. Mas menos ódio, por favor…
Oi pessoal! Onde vcs encontraram esse filme p/ alugar ou vender? Estou interessada em assistir. Me ajudem. Bjs