Trono Manchado de Sangue / Kumonosu jô


Nota: ★★★½

Anotação em 1997: Mais um filmão que eu nunca tinha visto, uma das muitas falhas que tinha na vida. E é aquilo mesmo que se poderia esperar, um filmão, mestre Kurosawa e suas tomadas que são pinturas, cada tomada de uma beleza de obra de arte. 

É uma brilhante adaptação de Macbeth, cheia de ruídos de aves e relincho dos cavalos como sinais da danação sobrenatural a que foi submetido o casal depois do encontro com criaturas não humanas na floresta (que fazem as vezes das bruxas do original shakespereano).

A cena em que Macbeth (aqui Taketoki Washizu, interpretrado pelo Toshiro Mifune, o John Wayne deles, que por coincidência morreu dias atrás) assassina o rei é espantosamente genial: a câmara fica o tempo todo grudada na Lady Macbeth (Isuzu Yamada), o ser humano que se aproveitou da profecia dos espíritos para insuflar a ambição assassina no marido; ela entrega para ele a lança, ele arregala gigantescamente os olhos e sai do quadro, que não muda, fica sempre estático nela. Até que ele volta, as mãos sujas de sangue, a lança toda suja de sangue.

Bem, então é isso mesmo, mestre Kurosawa revendo Shakespeare. A ambição, a cobiça, a inveja, o mal, e depois a loucura no lugar do arrependimento, o castigo, a danação eterna. A abertura e o encerramento, com a neblina nos campos, em preto e branco magistral, são quase um quadro abstrato – e de que beleza. A abertura ainda tem, fazendo as vezes do coro da tragédia grega, um coro de vozes masculinas cantando em uníssono. Brilhante.

Bem, então é isso mesmo. Mas…

Cá pra nós, e sob o risco de parecer herege e me expor a um raio fulminante que vem do céu: a interpretação dos atores japoneses é de dar no saco. Eu não sei se eles são assim na vida real, não sei por que raios optaram por na arte fazer assim. Mas no cinema isso é muito chato. É tudo muito exagerado, over do over do over. Eles berram o tempo todinho. O tempo todinho estão arregalando demais os olhos. Estão dando saltos, pulos. Fazem gestos largos, imensos. O tempo todo, sem parar. Quer ver um exemplo que ninguém pode contestar? Avisam a Macbeth-Washizu que a floresta está andando em direção ao castelo. Ele vai lá, vê, o espectador vê o que ele vê, e aí ele se joga pra trás num salto, arregala os olhos, dá gritos. OK. Não sejamos etnocêntricos; cada cultura é uma cultura, vamos respeitar. Mas aí ele vai lá de novo, vê de novo a floresta andando, o espectador vê de novo o que ele vê, e aí ele se joga pra trás de novo num novo salto, de novo arregala os olhos, de novo dá gritos. Terminou? Não: repete tudo de novo, faz pela terceira vez!!!!!!!! Ele vai lá de novo, vê de novo a floresta andando, o espectador vê de novo o que ele vê, e aí ele se joga pra trás de novo num novo salto, de novo arregala os olhos, de novo dá gritos!!!!!

Leonard Maltin, como todo crítico e resenhador do mundo, elogia: “Final pungente, com Taketoki Washizu (o personagem de Macbeth, brilhantemente interpretado por Mifune) atacado por flechas.”

Ora, pungente porra nenhuma. Pelo menos para nós, pobres não-japoneses, por mais que tentemos não ser etnocêntricos, é de um ridículo atroz, três minutos inteiros de Toshiro Mifune sendo atingido por dezenas e dezenas de flechas, até a final, que atravessa o pescoço, e o bicho continua lá de olho arregalado.

Que os deuses e o Cahiers Du Cinéma me perdoem, mas esse over do over do over dos japas é um saco.

Se quiser ver um trailer do filme no YouTube, clique aqui.

Trono Manchado de Sangue/Kumonosu jô

De Akira Kurosawa, Japão, 1957

Com Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Minoru Chiaki

Roteiro Shinobu Hashimoto, Ryuzo Kikushima, Akira Kurosawa e Hideo Oguni

Baseado na peça Macbeth, de William Shakespeare

P&B, 105 min

4 Comentários para “Trono Manchado de Sangue / Kumonosu jô”

  1. Acho de uma imbecilidade colossal tratar a Obra de Akira Kurosawa e o Trabalho de Toshiro Mifune assim, sim, devemos observar a Época, o contexto e também a Cultura na qual o filme se Alicerça, e tudo neste Maravilhoso Filme é excelente e obviamente Teatral, com ares de Teatro Kabuki, e não ver isto antes de fazer uma Crítica torna muitos “críticos” verdadeiros Analfabetos Funcionais.

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