O Jogo da Paixão / Tin Cup


Nota: ★★★☆

Anotação em 1997: Delícia de filme. Uma variação sobre o igualmente delicioso Sorte no Amor/Bull Durham, da mesma dupla Ron Shelton-Kevin Costner. Lá era beisebol, aqui é golfe. Mas os princípios são exatamente os mesmos.

Antes de mais nada, queria  registrar uma coisa interessantíssima. Em uma determinada cena, fundamental para a trama, fundamental para moldar o personagem do sujeito ruim, ele, o bad guy, jogador famoso, rico, se defronta com um casal de idade e seu netinho; o avô pede um autógrafo, a mãe segura um cachorro; o bad guy diz que não tem tempo, está ocupado, e sai xingando também o cachorro. Nos letreiros finais ficamos sabendo que todos – a senhora, o senhor, e o garotinho -, todos eles são Costner. Possivelmente, provavelmente, a mãe dele, o pai dele, e um filho ou no mínimo sobrinho. Delícia.

A trilha sonora, cheia de country, é uma maravilha.

Vou fazer a sinopse, para aproveitar que os nomes dos personagens estão na caixinha do vídeo:

Canadian Open GolfRoy McAvoy, ou Tin Cup, o típico cara legal do cinemão americano (interpretado por Kevin Costner, já que o filme foi feito nos anos 90; se tivesse sido feito nos anos 40 ou começo de 50, teria sido Gary Cooper, o ator que sempre fazia o típico cara legal da época), poderia ser hoje um dos maiores jogadores de golfe do país, mas, por ser independente demais, pouco convencial demais, pouco ambicioso demais, é dono de um campo de golfe decadente e mal cuidado no nada próspero município de Salome, Noroeste do Texas, onde bebe cerveja e bourbon o dia inteiro e conversa com os amigos, povinho simples, meio desajustado, meio que ficou de fora do sonho americano, alguns chicanos e quetais.

Um belo dia – o dia do início da ação – aparece lá, para tomar aulas de golfe, uma mulher muito bonita e gostosa, psicóloga da linha não sei das quantas, a doutora Molly Grisworld (Rene Russo). Logo em seguida, aparece lá sujeito ricaço (David Simms, interpretado por Don Johnson), grande jogador de golfe, que era companheiro mas inimigo do nosso All American Hero nos tempos de faculdade, em Houston, o convidando para um torneio de duplas promovido por ele mesmo – não para ser o parceiro, mas para ser o caddy.

Mesmo assim, nosso herói topa. No meio do torneio, alguém aposta que Tin Cup poderia acertar tal jogada, e ele acerta. Furioso, nosso Simms demite o ex-amigo-inimigo do cargo de caddy. Na segunda aula com a gostosona, Tin Cup diz que ela deve estar aprendendo golfe por ter namorado jogador – e, claro, bingo, ela namora o rico mau. Vai daí que nosso herói resolve deixar a vida de dropout pra vencer o rival no golfe e com isso conquistar a dona.

Credo, essa sinopse faz parecer que o filme é imbecil. Não é, não. É uma grande e divertida brincadeira com os símbolos básicos do herói solitário, de hábitos simples, versus o engomadinho, o almofadinha, representante dos bancos e das corporações. É como no bangue-bangue, o mocinho gente boa mas pobretão contra o dono de fazendas imensas. É americano até a medula, mas no que o cinema americano tinha de bom, nos primeiros 80, 90 anos de sua história, e tem até hoje: o indivíduo é melhor que os poderes constituídos, o pistoleiro solitário é melhor do que o janota, que normalmente trabalha para os grandes proprietários; o desajustado, o dropout tem mais a ver com você ou comigo do que o executivo da grande empresa. É o jornalista que derruba presidente da República, é o jornalista que enfrenta o esquema das corporações que defende o infotainment.

Claro, o nosso herói vai lá, enfrenta o poder constituído, entra no US Open de golfe, e tem a chance de ganhar, mas prefere perder o torneio mas jogar de seu jeito.

Não estou sabendo escrever sobre esse filme.

Trata-se, basicamente, de uma gostosa brincadeira sobre esporte e amor, jogo e sexo, e de como os dois andam bem juntos, e de como quando você está bem no amor e no sexo você vai necessariamente bem no jogo. Exatamente como a dupla já havia mostrado em Sorte no Amor/Bull Durham.

Claro, tem toda a coisa ideológica que botei acima. Claro, tem mesmo, e é importante. E nesse ponto ele lembra filmes básicos que envolvem qualquer tipo de esporte, como A Cor do Dinheiro, e portanto O Desafio à Corrupção/Hustler, mais, é claro, O Cavaleiro Elétrico. Aliás, ele lembra muito A Cor do Dinheiro.

É assim, na cabeça do herói/protagonista: não me importa tanto o título, o campeonato; quem se preocupa com isso são os outros, os janotas, os almofadinhas, os ricos, os prostituídos, os sem valor próprio; o que importa é a integridade; o que importa é que eu possa fazer direito aquilo que sei fazer direito. Poder fazer direito me traz de novo à tona, me torna novamente íntegro, honesto.

 O Jogo da Paixão/Tin Cup

De Ron Shelton, EUA, 1996.

Com Kevin Costner, Rene Russo, Don Johnson,

Roteiro John Norville e Ron Shelton

Música William Ross

Produção Regency

Cor, 135 min.  

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