Nosso Tipo de Mulher / She’s the One


Nota: ★★★½

Anotação em 1997, com complemento em 2008: Minha sensação, ao ver o filme pela primeira vez na noite de sabadão (eu veria de novo no domingo), foi: meu Deus, esse menino Edward Burns é um novo Woody Allen!

O filme é uma total delícia. É uma gostosa e inteligente comédia sobre amor, traição, família, com excelentes observações sobre as coisas do cotidiano e os sentimentos, as ligeiras falsidades no convívio, o pai que se mete na vida dos filhos, o pai e a mãe que desaprovam as mulheres escolhidas pelo filho, o filho que sabe disso mas conta mentirinha pra mulher pra não desagradá-la, os imbecis moralismos que permeiam as relações mesmo entre gente estudada, no limiar do ano 2000 na capital do mundo, as diferenças entre quem opta por ganhar muito dinheiro e quem opta por viver sem muita encheção de saco, os códigos de moral que ainda existem (não se pode namorar ex-mulher de irmão ou ex-marido de irmã) e na verdade não significam nada, a competição eterna entre irmãos…

E que prazer imenso ver um filme em que não há um tiro, uma perseguição de carro, uma cena de violência, nenhum plot policial!

É o segundo filme desse garoto Edward Burns. O primeiro tinha sido Os Irmãos McMullen, de 1995, quando Burns tinha 28 anos; sobre ele eu escrevi que era “sobretudo honesto, íntegro, sensível, verdadeiro. É simples, claro, límpido. E fala daquilo que o cinemão americano mal consegue arranhar hoje em dia: as relações familiares, as relações humanas, as relações afetivas. Apenas e tão somente o que mais importa na porra da vida.”

Um segundo filme sincero e honesto como o primeiro

Pois bem: Edward Burns, com 29 anos de idade, venceu com brilhantismo o desafio do segundo filme, feito com orçamento ainda modesto para o cinemão americano, mas 140 vezes maior que o do primeiro. Fez um filme tão sincero e honesto quanto o anterior. Não cedeu em nada aos modismos dos grandes estúdios – a não ser, talvez, a inclusão de Cameron Diaz e Jennifer Aniston no elenco, os únicos nomes de bilheteria boa do elenco.

Ao contrário. Aprimorou o estilo que já estava presente no primeiro, um estilo próprio – claro, tem um pouco de Woody Allen, sim, mas já demonstra um estilo próprio. São seqüências curtas, todas de muitos diálogos (fala-se muito, fala-se quase o tempo todo), mas diálogos simples, comuns, do dia a dia, nada muito elaborado. Como ele conta as histórias de alguns personagens básicos (não é centrado em um personagem apenas, com o resto servindo só de satélites em torno da história principal), uma seqüências curta de muitos diálogos é seguida de outra seqüência curtas com outros personagens. E as seqüências são separadas por cortes bem rápidos. Às vezes, em uma seqüência intercala-se outra, de um fato que aconteceu pouco antes com aquele mesmo personagem, para fazer um contraponto, flagrar as pequenas mentiras, as contradições.

Há um momento no filme em que ele faz um interessante, gostoso (embora simples, porque tudo é simples) jogo com a narrativa: pega um diálogo de duas pessoas que estão sentadas lado a lado; primeiro fala A, depois a câmara se move para a direita e pega o B falando; corta rápido para nova tomada em que B está sentado à direita e está falando; a câmara se move para a direita e pega C falando; corta rápido para uma terceira seqüência em que C está sentado à direita e está falando: a câmara se move para a direita e pega A falando de novo.

E de que falam tanto esses personagens? De amor, sexo, ciúme, a vida do outro, dinheiro, roupa, o lugar onde se mora, o que se quer da vida. Só isso. A vidinha simples de gente comum. Fala-se muito de sexo, fala-se constantemente de sexo, como na vida, mas não há uma cena de sexo; sequer uma. Não há absolutamente uma cena de apelação para a bilheteria garantida de sexo.

Um irmão que ganhou dinheiro, um outro que sabe viver

Uma sinopse, até pra se entender a descrição das seqüências que vem em seguida: Mickey (Edward Burns) e Francis (Mike McGlone) são filhos de um imigrante irlandês (John Mahoney) que mora no Brooklyn e adora pescar. Francis tem 25 anos, é um pouco mais novo que Mickey, e é um tremendo sucesso na vida material: trabalha em Wall Street e ganha os tubos. Mickey, ao contrário, capitalistamente falando é um fracasso; no momento em que se passa a ação, é um motorista de táxi, o único de Nova York que fala inglês, como lhe joga na cara Heather (Cameron Diaz). Mickey e Heather estiveram pra se casar, no passado; três anos antes do momento em que se passa a ação, Mickey flagrou Heather no carpete da sala (ele repete essa informação umas 20 vezes ao longo do filme) embaixo de um sujeito peludo como um macaco, e logo depois disso passou três anos viajando de carro pelo país.

Heather agora trabalha também em Wall Street e é amante de Francis, embora Francis não conte isso para o irmão. Francis está casado com Renee (Jennifer Aniston), uma mulher bonita, elegante, educada – e absolutamente carente, porque Francis não a come há meses. Heather dá para Francis porque ele é estupidamente rico, mas critica claramente seu péssimo desempenho sexual, e deixa claro pra ele que Papa, um homem de 60 anos, a come muito melhor. Veremos mais tarde que Heather gostaria mesmo é que Mickey se interessasse por ela, desde que tivesse dinheiro. Também veremos mais tarde que Heather foi puta de luxo, para poder pagar a faculdade.

ashe'sIsso posto, falta dizer que, bem no comecinho do filme, sobe no táxi de Mickey uma moça simples e despachada, Hope (Maxine Bahns, na foto com Ed Burns), que está indo pro aeroporto pegar avião para Nova Orleans, onde assistirá ao casamento de uma amiga; ao parar no aeroporto, pergunta pra Mickey se ele não topa levá-la de táxi até Nova Orleans; a cena corta aí, e em seguida saberemos que depois de um dia de viagem eles se casaram. Mais tarde saberemos que Hope terminou a faculdade e se inscreveu para um PhD na Sorbonne. Mas, como não sabem disso, e devido à pressa na decisão do casamento, o pai de Mickey e a mãe também (interessantíssimo: a mãe é muito citada, mas não aparece uma única vez em cena) elaboram teorias de que ou Hope estava grávida ou então era imigrante ilegal e quis se casar tão depressa pra conseguir o greencard.

Uma série de seqüências absolutamente exemplar:

* Francis e Renee estão andando na rua. Ela diz que tem inveja do casal Mickey e Hope, porque eles parecem tão apaixonados e transando muito. Ele: “Como assim, inveja deles? Ele é motorista de táxi e ela é garçonete”. Renee insiste e volta falar mais uma vez sobre a falta de sexo na vida deles nos últimos tempos. Ela diz: “Não sei há quanto tempo não vejo o seu pênis”. Ele, assustado, porque naquele momento passava uma mulher por eles: “Ei, cuidado com o linguajar, estamos em um lugar público”. E em seguida diz de novo que eles estão num ciclo de baixa, que é normal. E a seqüência vai sendo intercalada por uma outra, de um encontro dos dois irmãos no bar, Francis perguntando a Mickey quantas vezes ele e Hope transam por dia. Corte rápido.

* Seqüência seguinte: uma loja de roupas bem classe média, Hope fazendo compras, Mickey e ela conversando sobre o apartamento mixuruca dela, de paredes cor de rosa, onde falta energia elétrica e ele tem que tomar banho frio. Ela aproveita para introduzir o assunto Paris: “É que talvez a gente tenha que ficar nele só mais um mês antes de ir para Paris”. Ele fica espantado, diz: “Paris, França? Aquele lugar onde acham os americanos imbecis?” E continuam conversando sobre o tema. Corte rápido.

* Seqüência seguinte: Francis e Heather em uma loja de roupas chiquíssima. Francis quer discutir qual será o próximo nível da relação dos dois, para onde a relação deles está indo. Ela responde: “Obviamente para lugar nenhum”. Ele reclama do fato de ela trepar também com um velho de 60 anos. Ela diz que afinal ele também vai pra casa toda noite dormir com sua mulher. Ele diz que não trepa com a mulher há três meses. Ela: “Não sei se é uma boa idéia, Francis. É óbvio que você precisa de prática”. Corte rápido.

* Seqüência seguinte: Francis e o pai. O pai diz que, enquanto ele não pede o divórcio, deveria transar com a mulher. Francis: “Mas eu estou apaixonado por outra mulher, pai; seria errado ter sexo com Renee”. O pai: “Deixe eu ver se eu entendo: Você não quer trair a sua namorada com a sua esposa? Jesus, será que eu sou mesmo seu pai?”

Já ficou claro por tudo o que foi dito antes, mas acho que é bom explicitar. Temos aqui que o diretor está falando daquele tema eterno do hippie x yuppie, da escolha de Edward Barnard e da escolha de Bateman Hunter do conto de Somerset Maughan, a opção preferencial pela vida ou a opção preferencial pelo dinheiro. É disso que o diretor está falando. Bem humoradamente, levemente, quase como se não fosse isso.

A notar que três dos atores do primeiro filme do diretor estão de novo no segundo: o próprio Burns, mais Mike McGlone (nos dois filmes, eles interpretam dois irmãos) e Maxine Bahns, que, nos dois, faz a namorada do diretor. Acho que ela é a mulher dele na vida real. (O IMDB diz que eles foram namorados.) Ela é uma mulher de uma beleza absolutamente fora dos padrões normais, que dirá dos hollywoodianos; não de uma beleza óbvia, tipo barbie, à la Cameron Diaz, mas uma beleza especial, não propriamente dos traços, mas de um magnetismo pessoal, à la Frances McDermont ou Holly Hunter.

A ver se o filme faz algum sucesso, se paga, e o sistema permite que Edward Burns continue fazendo um filme assim por ano, e teremos um novo Woody Allen. Ou se vai ser um fracasso, e ele vai ter que optar entre fazer teatro off-Broadway ou thrillers com muito sangue, violência, serial killer e perseguições de carro.

Complemento em 2008: Edward Burns deu certo. Não fez um sucesso estrondoso – e nem é de se esperar que um autor de filmes sérios, sobre a vida de gente como a gente, tenha blockbusters no currículo. Mas prosseguiu trabalhando. Depois desses dois primeiros filmes, escreveu e dirigiu mais seis: No Looking Back (1998), Sidewalks of New York (2001), Ash Wednesday (2002), À Procura de Kitty/Looking for Kitty (2004), Noivo em Fuga/The Groonsmen (2006) e Purple Violets (2007). Paralelamente à carreira de autor, tem a como ator; em 1998, trabalhou no Soldado Ryan, de Spielberg, e de lá pra cá atuou em mais uns 15 outros filmes.

Nosso Tipo de Mulher/She’s the One

De Edward Burns, EUA, 1996.

Com Edward Burns (Mickey), Mike McGlone (Francis), Cameron Diaz (Heather), Maxine Bahns (Hope), Jennifer Aniston (Renee), John Mahoney (Fitzpatrick pai), Leslie Mann (Connie), Amanda Peet (Molly), Anita Gillette(Carol)

Argumento e roteiro Edward Burns

Música Tom Petty

Fotografia Frank Prinzi

Cor, 96 min

***1/2

Título em Portugal: Aquela que eu Quero

8 Comentários para “Nosso Tipo de Mulher / She’s the One”

  1. Eu acho que AmandaPeet é muito bom ator sempre trabalhando em projetos divertidos, como sua nova série Togetherness.

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