Morte ao Vivo / Tesis


Nota: ★★★½

Anotação em 1997: O filme é uma grata surpresa. Faz lembrar, por um ou outro motivo, uma série imensa de filmes: Kika, de Almodóvar, que reflete sobre o mesmo tema; sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh, por causa da mania de filmar tudo que tomou conta da sociedade depois do domínio do VHS; O Massacre da Serra Elétrica e todos os filmes de exploração explícita da violência; um pouquinho de Vestida Para Matar, pela união de dois jovens levemente desajustados e sem qualquer tipo de contato com os pais contra o mundo; os thrillers americanos de uma maneira geral; Bastidores da Notícia e Íntimo e Pessoal, pela denúncia da praga do infotainment, essa mistura entre informação e entretenimento, os programas que transformam crimes e outras feridas num fantástico show da vida; e tantos outros.

É um filme sobre comunicação de massa; sobre a exposição e a superexposição da violência nos meios de comunicação; sobre imperialismo cultural; sobre a influência do cinema e da TV na formação das pessoas; sobre a ética de quem exerce poder dentro dos meios de comunicação de massa. É um tapa na cara.

O filme tem toda a dinâmica de um thriller americano – do tipo assim: ó, inimigo, eu sei perfeitamente bem usar a sua técnica, domino ela tanto quanto você, mas faço coisa superior, faço coisa pras pessoas pensarem, e não pras pessoas se entorpecerem.

Tem a estrutura de um thriller, a velocidade de um thriller. E no entanto é uma reflexão, essa coisa que os meios de comunicação de massa dos Estados Unidos estão lutando duro para matar, para extinguir. Muito significativamente, segue a trilha de Kika; não é à toa que os espanhóis estão na frente no mundo no estudo da comunicação social.

Passa-se na Faculdade de Ciências da Informação de Madri – e o nome da Escola de Comunicações e Artes deles também é significativo, muito mais amplo e profundo que o da nossa. Angela (Ana Torrent, que de criança bonita de traços fortes da época de Cria Cuervos, de Carlos Saura, virou uma jovem mulher bonita de traços fortes, e uma grande atriz) estuda cinema; é classe média alta, não tem comunicação em casa nem com os pais nem com a irmã mais nova, e prepara uma tese sobre a violência explícita na TV e no cinema. Rapidamente se envolve numa rede absolutamente perversa de pessoas (o espectador só entenderá quais bem no final, depois de seguir várias pistas falsas) que assassinam mulheres diante de câmaras de vídeo, e que reproduzem esses videotapes como se fossem filmes de sacanagem, para tarados que gostam de ver esse tipo de perversidade.

Há uma cena particularmente significativa e rica: um professor (veremos, mais tarde, que ele está envolvido nesse esquema de snuff movies – eu não conhecia a expressão; designa isso, os filmes de violência explícita, documentários de violência explícita) diz à classe que: o cinema é uma indústria, que gasta milhões para depois recuperar esses milhões na bilheteria; que o cinema espanhol não existe como indústria; que cabe àqueles alunos lutar para que passe a existir uma indústria espanhola de cinema; e, sobretudo e mais importante, que é preciso dar às audiências o que as audiências querem.

É preciso dar às audiências o que as audiências querem. Esse conceito maluco, perverso, pervertido, em nome do qual cinema e TV se bestificam, se imbecilizam.

Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

A seqüência final é surpreendemente forte, violenta, real, realística: descoberta pela mídia a rede que envolveu nossos personagens, a TV vai exibir as cenas de violência crua; avisa que está prestando um serviço (na verdade, está brigando por Ibope, apenas isso), e tasca lá, manda brasa, exibe os documentários do assassinato com crueldade. Como a Globo faz, o SBT faz, a TV americana faz, todo mundo faz.

Um brilho.

Morte ao Vivo/Tesis

De Alejandro Amenábar, Espanha, 1996.

Com Ana Torrent, Fele Martinez, Eduardo Noriega, MIguel Picazo, Javier Elorriaga

Argumento e roteiro Alejandro Amenábar e Mateo Gil

Montagem Maria Elena S. de Rozas

Som Goldstein e Steinberg

Fotografia Hans Burmann

Música Alejandro Amenábar e Mariano Marin

Cor, 125 min

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