Mistério na Neve / Smilla’s Sense of Snow


Nota: ★★½☆

Resenha para a Agência Estado, em 1997: Mistério na Neve tem dois pontos excelentes. O primeiro é a abertura do filme, a seqüência inicial. (Como diriam os jornalistas, o lead. O lead, o primeiro parágrafo de um texto, tem que ser atraente, fisgar o leitor, fazê-lo se interessar pelo assunto.) O lead do diretor Bille August é absolutamente brilhante.

         Dinamarquês, ganhador de duas Palmas de Ouro em Cannes, a quem o mestre Ingmar Bergman confiou a tarefa de dirigir um filme sobre a vida de seus pais, baseado em roteiro dele mesmo (As Melhores Intenções), Bille August desta vez se meteu no mundo dos policiais, dos thrillers. E fez um lead brilhante, um plano-seqüência na paisagem estranha, imponente, desolada, de outro mundo, quilômetros de gelo a perder de vista na Groenlândia, até chegar a um solitário pescador esquimó com seus cães, minutos antes de um cataclisma.

A cena – nos avisa uma legenda logo de cara – se passa na última década do século XIX. E então acontece o cataclisma. Corte rápido, e estamos em Copenhagen, nos dias de hoje, acompanhando uma mulher estranha, linda mas sempre tensa, nervosa, desconfiada, uma outsider, uma desajustada, uma pessoa que não pertence à sociedade da Dinamarca de hoje, um bicho estranho no ninho da civilização. Até seu nome é estranho: Smilla. O nome dela está no título original do filme, Smilla’s Sense of Snow – o sentido da neve de Smilla.

O segundo ponto excepcional desse filme é exatamente o personagem de Smilla, que o escritor (também dinamarquês) Peter Hoeg, o diretor Bille August e a atriz Julia Ormond criaram. Se você viu a nova versão de Sabrina, esqueça a carinha bonita e charmosa de Julia Ormond naquele filme; neste aqui a atriz está bonita, sim, mas com uma beleza esquisita, longe de qualquer padrão, agressiva, nervosa, com o semblante sempre duro, marcado, de quem sofreu e sofre muito na vida.

Smilla é um personagem absolutamente fascinante, que vai se revelando aos poucos, enquanto se desenrola a trama intrincada, complexa, que vai unir aquele cataclisma acontecido no século passado na Groenlândia à morte de um garotinho que mora no mesmo prédio que Smilla. O legista, a polícia, todas as autoridades dizem que ele caiu do teto do prédio; contra tudo e todos, Smilla garante que ele foi assassinado. Ela sabe disso porque examinou as pegadas dele na neve do teto do prédio, e de neve ela entende: ela tem o sentido da neve.

Mistério na Neve/Smilla’s Sense of Snow

De Bille August, Alemanha-Dinamarca-Suécia, 1997.

Com Julia Ormond, Gabriel Byrne, Richard Harris, Vanessa Redgrave

Bas no livro do dinamarquês Peter Hoeg

Roteiro Ann Biderman

Cor, 121 min

Um comentário para “Mistério na Neve / Smilla’s Sense of Snow”

  1. Fiquei absolutamente fascinado pelo drama, o visual e a interpretação da inglesa Júlia Ormond; volta e meia o revejo!

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