Mães em Luta / Some Mother’s Son


Nota: ★★★★

Anotação em 1997: Um espanto. Do mesmo nível de Em Nome do Pai, ou ainda melhor – e não é coincidência. Jim Sheridan, o diretor do outro, divide o roteiro com o diretor deste, Terry George (em estréia na direção) e é também um dos produtores.

A dupla assinou o roteiro do outro. De todos os filmes recentes sobre o absurdo que é a Inglaterra, a mais antiga democracia do mundo ocidental, manter seu exército dentro da Irlanda, este talvez seja o mais forte, o mais violento, o mais direto, o mais explícito, o mais tapa na cara.

(Para lembrar – lista feita às pressas, de cabeça, sem consultar nada

Em Nome do Pai, do Jim Sheridan

A Agenda Secreta, do Ken Loach

Traídos pelo Desejo, do Neil Jordan

Michael Collins, também do Neil Jordan)

A música é extraordinária; combina a dureza de tambores quase marciais com a delicadez das flautas e gaitas de fole irlandesas. A fotografia é perfeita, maravilhosa. O elenco todo é estupendo, das duas atrizes centrais, Helen Mirren e Fionnula Flanagan, a todos os figurantes. O roteiro é um brilho.

O filme abre, antes da apresentação, com uma cena de TV, a então jovem recém-eleita Margareth Thatcher, em 1979, diante do número 10 da Downing Street, com um sorriso nojento, asqueroso, agradecendo ao povo britânico por ter depositado sua confiança nela e nas coisas em que ela acreditava e citando uma frase do pobre São Francisco de Assis, que seguramente deve ter se remexido no túmulo: “Onde houver discórdia, que levemos harmonia; onde houver erro, que levemos a verdade; onde houver dúvida, que levemos a fé; onde houver desespero, que levemos a esperança.”

Poucos minutos depois, logo em seguida à apresentação que dá espaço para a música assombrosa, um braço direito de Thatcher explica a uma seleta audiência de autoridades britânicas na Irlanda do Norte que “a primeira-ministra quer uma abordagem totalmente nova para o problema” do Ulster, uma estratégia em três bases: isolamento, criminalizaçào e desmoralização, para quebrar a espinha do IRA – to break the back of the IRA.

Com dez minutos, o estreante Terry George faz uma antológica seqüência com duas ações paralelas e o espectador percebe que está diante de uma grande filme, além de de um grande panfleto. Garotas dançam na escola uma dança típica irlandesa; ao mesmo tempo, um pequeno grupo do IRA se prepara para retaliar e atingir tanques e soldados ingleses. No momento em que o guerrilheiro se prepara para atirar com o morteiro, câmara lenta para um close das pernas branquelas das garotas dançando; volta a cena para o atentado, em velocidade normal; câmara lenta de novo acompanhando a professora na escola; e então a explosão.

O filme mostra a escalada da violência do Estado britânico promovida pelo thatcherismo contra o IRA e a Irlanda do Norte de uma maneira geral, de 1979 a 1981. É uma escalada da violência como a promovida pela direita tantas vezes na história; é a recusa total ao diálogo, ao compromisso, ao entendimento; é a crença firme, absoluta, absolutista e absurda de que o Estado tem a razão e de que, se não arredar pé um milímetro, quebra a espinha do inimigo e o subjuga.

Mostra a escalada da violência através da guerra literalmente suja que se travou nas prisões onde estavam os guerrilheiros e através da visão de duas mulheres cujos filhos estão presos pelos ingleses – e dispostos a morrer antes de ter a espinha quebrada. São duas mulheres opostas. Uma delas, Kathleen Quigley (interpretada por Helen Mirren, também produtora associada do filme), é católica e até suavemente anti-ingleses, mas totalmente contrária à guerra civil, à violência de qualquer forma. E apóia o filho, um membro menor do IRA, não por acreditar naquilo em que ele acredita, e sim porque uma mãe deve apoiar o filho. A outra, Annie Higgins (Fionnula Flanagan), é totalmente partidária da causa da libertação; seu filho, Frank, é um ativista importante do IRA, e ela o apóia em tudo porque apóia o filho e apóia a causa.

É uma guerra suja, ingrata, dura, mortal, e estranhamente, britânicamente, em cima de conceitos. O governo inglês considera os presos criminosos comuns – “eles não são soldados, são guerrilheiros; não há uma guerra, apenas crime”. Os prisioneiros se consideram prisioneiros de guerra, e querem ser reconhecidos como tal. A luta se trava em torno disso. Os ingleses querem que eles se vistam como prisioneiros comuns; os irlandeses querem vestir roupas normais, não uniforme de prisioneiros. Os ingleses deixam de recolher as latrinas; os presos jogam a merda nas paredes, nas portas. Por fim, partem para a greve de fome.

O filme mostra insistentemente como os ingleses não aceitam qualquer tipo de acordo, de compromisso; não cedem um milímetro, por princípio, o princípio fascista da Dama de Ferro. Ao contrário.

Quando o filho Gerard está à beira da morte, Kathleen Quigley é avisada pelos ingleses de que ela pode decidir pela salvação dele, pela alimentação forçada. E finalmente ela se decide – pelo filho, e não pela libertação de seu país.

Como um belo e trágico filme do novo cinema chinês, o Tempos de Viver, de Zhang Yimou, nesse momento o filme – absolutamente pró-Irlanda, absolutamente anti-domínio inglês – parece optar pela saída que sempre me pareceu dolorosa demais: a consciência de que as pessoas valem mais que as ideologias, até mesmo do que a luta pela liberdade da pátria.

 Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

 A cena em que ela decide salvar o filho, mesmo que a convicção política dele se danasse, mesmo que o país se danasse, é tão brilhante quanto a do atentado do IRA enquanto as meninas dançavam no colégio. Acontece cerca de dez minutos antes do fim do filme, como aquela outra acontece dez minutos depois do início. Círculos concêntricos, como uma vez um crítico, acho que da revista inglesa Sight & Sound, descreveu o Blow Up do Antonioni. De novo, a câmara lenta. O líder do Sinn Fein está no hospital, junto com Kathleen Quigley e o líder dos presos e mais outros pais, à espera da chegada da autoridade britânica no Ulster, que resolveu bancar um acordo, segundo o qual os presos desistem da greve de fome e em seguida o governo lhes garante os direitos que eles exigiam, desde que o Sinn Fein não proclamasse a vitória. Enfim: um acordo, um compromisso, uma saída para a crise, sem vencedores ou vencidos.

Mas, como mostra cena paralela, o yupppinho manipulado pela Thatcher entra no processo, demite o negociador, e propõe, via Igreja Católica, um outro acordo, que não é acordo, mas a vitória inglesa e a submissão dos irlandeses. Então chega à sala um padre, dizendo que o cardeal conseguiu um acordo. O líder do Sinn Fein vai ler os termos, e vê que “os prisioneiros passarão a ter o privilégio de usar suas próprias roupas”. Começa uma discussão entre o líder do Sinn Fein e o líder dos presos, de um lado, e o padre, de outro. Então começa a câmara lenta; Kathleen Quigley e o espectador deixam de ouvir as vozes, as vozes somem ao fundo; ela se decide. Em seguida (a câmara volta à velocidade normal), ela sai da sala, vai para o quarto em que o filho agoniza e assina a autorização para que os médicos cuidem dele e tentem salvar sua vida.

O filme termina com um letreiro lembrando que dez presos morreram na guerra pela aceitação de que eram presos de guerra. E encerra com a lembrança de que, poucos dias depois do final da greve de fome, determinado pela decisão de diversas mães de tirar os filhos do protesto, o governo Thatcher cedeu em todos os pontos que haviam sido exigidos pelos irlandeses.

Diz o diretor Terry George, que nasceu na Irlanda do Norte mas aparentemente vive nos Estados Unidos (li o material promocional depois de escrever a anotação acima): “Durante a greve de fome, 21 mães irlandeses enfrentaram o dilema retratado no filme” (ou ver o filho morrer de fome, ou salvar sua vida, embora sacrificando seus ideais). “Dez delas viram seus filhos morrerem lenta e dolorosamente, mas estavam com as mãos amarradas pelas promessas que fizeram de não interferirem no protesto. Outras mães preferiram ignorar os desejos de seus filhos e salvar suas vidas. Isso, para mim, foi e é um drama e uma tragédia de proporções shakesperianas. Foi macabro e hipnótico ver aquelas mães focalizadas pelas câmaras das TVs, tentando compreender a escolha a que foram forçadas. (…) Contar a história através dos olhos das mães foi uma forma de retratar as greves de fome de uma maneira universal.”

Mães em Luta/Some Mother’s Son

De Terry George, Irlanda, 1996

Com Helen Mirren, Fionnula Flanagan, Aidan Gillen, David O’Hara, John Lynch, Tom Hollander.

Argumento e roteiro Terry George e Jim Sheridan

Música Bill Whelan

Fotografia Greoffrey Simpson

Produção Jim Sheridan, Arthur Lappin e Edward Burke

Cor, 112 min.

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