Eclipse Total / Dolores Claiborne


Nota: ★★★★

Anotação em 1997: Um thriller extraordinário. Desses filmes raros que a gente não quer que acabe e que, assim que acaba, quer ver de novo. Tudo funciona perfeitamente, das duas grandes atrizes, Kathy Bates e Jennifer Jason Leigh (mas é Kathy Bates quem brilha mais, ofusca tudo) à bela história, do roteiro que joga brilhantemente com flashbacks ao sentido todo da história, feminista, humanista, com uma visão amarga mas positiva sobre as besteiras que o bicho homem comete e sobre as pequenas grandezas de que é capaz. E uma clareza rara sobre os preconceitos sociais, a luta surda das classes no seio do lugar mais aristocrático do maior Império do mundo.

O lead é brilhantíssimo, como poucos. Uma tomada muito perto do mar, a câmara deslizando em uma grua até perto de uma mansão milionária diante do mar (e imediatamente percebemos o ambiente, a Nova Inglaterra, a costa Leste do alto, os muito ricos, o Maine). Corte. Tomada do interior, do térreo da mansão. Duas vozes femininas no alto da escada; sombras; um corpo vem rolando pela escada; Kathy Bates corre escada abaixo para ver a outra mulher; está viva ainda. Corte. Kathy Bates – entendemos imediatamente que ela é a governanta, a empregada – entra correndo na cozinha, derruba coisas, caem diferentes facas de uma gaveta; ela pega um daqueles pesados rolos de passar em massa, vai para diante do corpo caído, a mulher sussura “por favor”; Kathy Bates levanta o rolo pesado até onde pode, hesita, tremendo; nesse momento, chega o carteiro, pergunta o que diabos Dolores Claiborne está fazendo, ela deixa cair o rolo no chão, o carteiro aproxima-se do corpo no pé da escada, seguro o pulso, sente a circulação e diz: “Você a matou!”. Corte e estamos em Nova York; dois planos gerais, estamos numa redação importante; uma jovem, competente e competitiva repórter discute com o editor sobre a matéria que acabou de fazer e sobre a próxima; chega um fax de um jornal de província com a notícia da morte de uma milionária e a prisão da governanta, e uma frase escrita à mão: “Não é a sua mãe?”

Mais cerca de 10 minutos de filme, apenas, e mãe e filha estão juntas na casa da família caindo aos pedaços. Dois seres absolutamente antagônicos, com um universo de conflitos fortes do passado a separá-las: a mãe, trabalhadora braçal, caipira, rija, forte, decidida, desafiadora das autoridades, com a certeza da inocência e do nome pobre, mas honrado; a filha, em plena ascensão social na capital do mundo, competitiva, ambiciosa, competente, brilhante trabalhadora intelectual, dependente de uísque e muitas pílulas, um monte de problemas afetivos nunca resolvidos.

E já nos primeiros encontros, nos primeiros momentos, do lado de fora e do lado de dentro da casa que um dia foi uma casa de família humilde, de trabalhadores duros, mas limpa, hoje aos pedaços, o roteiro define como será a estrutura da narrativa, toda baseada em flashbacks em que os personagens de hoje assistem – como em Morangos Silvestres – aos acontecimentos do passado, e quase chegam a interferir neles.

O trabalho de maquiagem é esplêndido, o trabalho do diretor de fotografia e do cenógrafo é extraordinário, mas o brilho puro, radioso, é Kathy Bates, fazendo ao mesmo tempo a Dolores Claiborne de hoje, possivelmente 60 anos, e a de 20 e poucos anos antes, em 1975, o ano do eclipse total do sol do título brasileiro do filme.

Os flashbacks vão se concentrar no ano de 1975, mas vão mais para trás. Em 1975 Selena, a agora repórter yuppie, estava com 13 anos – e que fantástica garota o casting arrumou para interpretar o papel que seria de Jennifer Jason Leigh adulta; é extraordinária a semelhança física com a atriz adulta, e ela está maravilhosa, fazendo aquele papel difícil de criança que vive em meio a uma tragédia. Os flashbacks vão até quando Selena era uma garotinha de uns quatro, depois uma garotinha de uns nove, dez, e aí se concentram no ano em que Selena tinha 13 anos, 1975, o ano do eclipse total.

As histórias vêm vindo juntas: a história do passado, que terminou na morte do marido de Dolores, em 1975, a de agora, que começou com a morte da patroa de Dolores e trouxe Selena de volta, e a história da relação, ou da não-relação, entre mãe e filha. Mais a história do velho detetive (Plummer, ainda careteiro mas bom, já bem velhinho) que em 1975 tentou condenar Dolores pelo assassinato do marido mas não conseguiu, e agora acha que chegou o momento de fazer justiça e condená-la pela morte da patroa. E o roteirista consegue vir trazendo as histórias todas entremeadas de uma forma brilhante.

A luta de classes permeia o filme todo. Dolores descreve (o texto é brilhante) como ela foi trabalhar para Vera Donovan, a milionária; como era fisicamente duro satisfazer os caprichos e as exigências dela; as referências às mãos que sangravam com o frio no inverno na hora de colocar os lençóis para secar são um brilho. Mas não fica na relação trabalhadora pobre x milionária cheia de manias. A vida do casal pobre é um inferno entre outras coisas por causa da luta de classes; Joe, o marido, gosta de citar que no passado os pais de Dolores trabalharam para os pais dele; ele vinha de família classe média média que empobreceu; ela vinha de família classe média baixa que nunca tinha sido nada. E a filha é a classe média que sofreu na infância mas ascendeu por causa dos méritos próprios, o estudo, a dedicação, o jornalismo.

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 Joe, o marido, é, como acontece em muitos dos filmes americanos que adotam uma visão feminista e a favor da independência da mulher, o retrato do lixo, o tal do white trash. Incompetente no trabalho, bêbado, bêbado às escondidas depois bêbado de ir pro AA, incompetente sexualmente, arrogante, violento, agressivo, e – disso o espectador só saberá quase no final do filme – abusador sexual da própria filha.

Só no finalzinho, a minutos do finalzinho, o espectador fica sabendo o que aconteceu na primeira cena, e o que aconteceu em 1975, na morte de Joe. Ao saber que Joe abusava da filha, Vera Donovan, a milionária, tinha aconselhado Dolores a matar o marido, única saída para que ele não mais infernizasse as vidas dela e da filha; Dolores na verdade não o executa, mas permite que ele morra, caindo num fosso perto da casa.

Quanto ao que aconteceu com a própria Vera Donovan, diretor e roteirista enfrentaram com brilhantismo o tema terrível do direito à morte. A milionária, que foi uma mulher bonita, vaidosa, não suporta mais o resto de vida que a vida lhe reservou, um lado paralisado por derrame, não contendo mais a urina, a humilhação de depender de outra pessoa para tudo. É ela que se joga escada abaixo. E, lá embaixo, suplica à governanta, à amiga-inimiga de uma relação de mais de 20 anos de amor e ódio, que acabe de matá-la.

Sim, um thriller realmente extraordinário. Não se fazem muitos como esse.

Eclipse Total/Dolores Claiborne

De Taylor Hackford, EUA, 1995.

Com Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, David Strathaim, Christopher Plummer, John C. Reilley

Roteiro Tony Gilroy

Baseado em história de Stephen King

Música Danny Elfman

Cor, 132 min.

11 Comentários para “Eclipse Total / Dolores Claiborne”

  1. O filme é mesmo bom, mas bem difícil de assistir (pra mim). Escuro, duro, amargo, triste. Decidi assistir por ser um dos poucos que trata da violência doméstica e ao mesmo tempo tem uma visão feminista.
    Vc descreveu bem o tal do Joe, ele é mesmo o retrato do lixo, o tipo de personagem que causa repulsa em quem assiste. Não deixa de dar um certo prazer vê-lo morrer implorando por ajuda (mas o bicho era tão ruim, que mesmo morrendo não deixou de blasfemar).
    Só não dá pra entender pq a Selena se voltou contra a própria mãe, como se ela fosse a culpada pelo o que aconteceu… mas parece que em casos assim há mesmo a negação, o sentimento de culpa e talvez a transferência da culpa. Vai entender a psique humana.

    Como vc bem disse, Kathy Bates brilha e conduz o filme, e as falas da personagem dela são muito boas, vale a pena prestar atenção. Acho que esse filme passou meio batido na época (só fiquei sabendo dele por causa do site), pois Tomates Verdes Fritos é de um ano antes, tem tb a atuação da Kathy, mas foi muito mais falado.

    “In a depressingly masculine world, sometimes being a bitch is all a woman has to hold onto.” Naquela época podia até ser; ainda bem que hoje temos a lei Maria da Penha.

  2. Na verdade, Tomates Verdes Fritos é de 91, não sei pq fiquei com 94 na cabeça. De todo modo, esse filme passou mesmo batido.

  3. Ainda não vi o filme, mas gosto de ver as críticas do Sérgio Vaz antes de assistir, seja em DVD, seja no cinema, acho as opiniões dele muito ponderadas e completas e não esqueço uma frase q ele colocou uma vez sobre a responsabilidade de ser pai pu mãe, em um filme q tratava do assunto. O q quero dizer é q ele não se limita A parte crítica pròpriamente dita, ele tb vê o lado humano do filme e acho isso muito importante. Obrigadão, Sérgio. Guenia

  4. Nossa mãe, Guenia… Fico até encabulado com seu elogio. Não sei o que dizer. Muito obrigado por sua gentileza.
    Um abraço.
    Sérgio

  5. Este filme é adaptado de um romance do famoso Stephen King e fiquei tão entusiasmado com a sua crónica que já o comprei.
    Entre ler, ir ao IMDb, à Wikipedia e ao site de leilões tudo em 5 minutos!

  6. Com grande pesar meu o vendedor do DVD no site dos leilões saltou fora ou foi expulso e fiquei muito desconsolado.
    Felizmente que não cheguei a pagar nada mas agora não sei onde o vou encontrar.

  7. Obrigado Caro Sérgio!
    Graças a este seu comentário descobri um excelente filme cuja existência desconhecia por completo.
    5 estrelas sem dúvida alguma.
    Curioso que a actriz principal- Kathy Bates -também foi protagonista noutro óptimo filme adaptado de um romance de Stephen King – Misery – e onde ganhou o Oscar para amelhor actriz.

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