Caindo no Ridículo / Ridicule


Nota: ★★★★

Anotação em 1997: Uma bela e total surpresa. É um drama, e denso, bastante denso, sério, inteligente, sensível. Acho que a melhor forma de fazer uma resenha seria dizer que é um filme sobre como manter os princípios morais em uma sociedade em que é difícil manter os princípios morais, e em que para se conseguir realizar o bem que se pretende é preciso fingir que se está abrindo mão dos próprios princípios que se quer manter.

É a história de um aristocrata falido, de bom coração e bons princípios morais, às vésperas da Revolução Francesa, que estudou engenharia e quer dragar sua propriedade, um pântano, para evitar as doenças que matam os seus camponeses. Para conseguir fazer isso, ele entende que precisa chegar até o rei Luís XVI; e, nesse processo, se submete aos ditames da corte francesa, apresentada como a coisa mais vil e infame da história da humanidade, em que o que conta é parecer inteligente e fazer piadas maldosas contra os demais.

O próprio texto da caixinha do vídeo faz paralelo com Ligações Perigosas, e é bem verdade. O filme, assim como o de Frears baseado no clássico de Laclos, é uma denúncia forte, tomando partido mesmo, contra a maldade reinante no ambiente abjeto da corte francesa pré-Revolução. O personagem da condessa feito por Fanny Ardant é muito parecido com o da Marquesa de Merteuill que Glenn Close fez no filme de Frears; os valores do mal são exatamente iguais; a cena em que a condessa chora no meio do baile em que tentou dar a última rasteira do barão falido mas bem intencionado e bom caráter, lembra direto a cena final de Ligações, em que a Marquesa, depois de ser vaiada na ópera, vai retirando a maquiagem, derrotada enfim. Nos dois casos, o sofrimento dos personagens não é por amor, por ter perdido o amor – que isso eles não sabem o que é -, e sim por ter sofrido uma derrota aos olhos daquela sociedade desprezível, nojenta. Para ampliar o paralelismo entre os dois, o ator que faz o barão, o personagem principal, Charles Berling, tem um tipo físico semelhante ao de John Malkovich.

E que mulher estupidamente bonita é a tal de Judith Godreche, que faz o personagem riquíssimo da filha da médico.

Antoine Duhamel, o autor da trilha sonora, é um veterano, da estirpe e da importância de Georges Delerue, o outro grande compositor do cinema francês. Só para Truffaut, Duhamel musicou A Sereia do Mississipi, Beijos Roubados e Domicílio Conjugal.

Caindo no Ridículo/Ridicule

De Patrice Leconte, França, 1996.

Com Charles Berling, Fanny Ardant, Bernard Giradeau, Judith Godreche

Roteiro Rémi Waterhouse

Música Antoine Duhamel

Cor, 102 min.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Uma Promessa / A Promise em 15 junho 2015 às 3:48 pm

    […] Caindo no Ridículo / Ridicule (1996), […]

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