
Nota: 



Anotação em 1996: Obra-prima. Brilhante, emocionante, de fazer pensar e chorar. Desses filmes que fazem a vida valer a pena.
Tem aquela estrutura de flashback que tanto irrita o crítico Roger Ebert, e que o Clint Eastwood usou muito bem, por exemplo, em As Pontes de Madison. Começa nos dias de hoje, em Liverpool; um velho está morrendo do coração, chega a ambulância, o velho morre no caminho do hospital, para desespero de sua neta. De volta em casa, a neta pega uma mala velha em cima do guarda-roupa, e começa a examinar o conteúdo, que vai revelando para ela e para o espectador o episódio mais marcante da vida do morto – sua participação na Guerra Civil Espanhola. São recortes de jornais (especialmente o jornal do Partido Comunista Britânico), cartas dele para sua então namorada, fotos, um lenço vermelho com um punhado de terra.
Quando se volta no tempo, no primeiro flashback, lá está o agora morto, o então jovem David, comunista, desempregado, e sua namorada, Kit, num sindicato (ou na sede do Partido), ouvindo uma palestra de um espanhol, que mostra didaticamente (para as duas platéias, a da ação e a do filme de Loach) trechos de filmes sobre o início da Guerra Civil, e pede o apoio de todos para que juntos combatam os fascistas – os comunistas, os republicanos, os anarquistas, brigadas formadas por estrangeiros das mais diversas nacionalidades. Ao final da palestra, o jovem David está decidido a ir se engajar. E vai.
Com mais 20 minutos de filme, já tendo visto sinceras e emocionantes demonstrações de solidariedade entre os que lutam contra o fascismo, sinceras e emocionantes loas ao espírito de companheirismo dos que lutam pela causa justa, eu cheguei a me perguntar onde o Loach estava querendo chegar. Estaria ele, em pleno 1995, quase cinco anos após a derrocada da União Soviética e do fim do comunismo no Leste Europeu, fazendo uma simples – embora sincera e emocionante – elegia da velha luta que não existe mais, o bem contra o mal, o povo contra os poderosos e ricos, os desorganizados mas puros e bons e certos contra os organizados e fortes e maus? Estaria ele, depois de tantas obras-primas do cinema contra o militarismo, a guerra, a violência, de Kubrick a Copola, fazendo a elegia da guerra certa, a última guerra romântica da esquerda contra a direita?
Mais uns 20 minutos de filme, e estamos em um pequeno vilarejo que os brigadistas internacionais e espanhóis acabam de tomar dos fascistas, tendo fuzilado um padre que dedurou jovens anarquistas para o exército de Francisco Franco. Organiza-se um debate sobre o que os camponeses vão fazer dali para a frente. Os camponeses discutem, cercados pelos brigadistas que os libertaram. A maior parte quer a coletivização das terras. Mas há quem, embora igualmente antifacista, defenda a existência de terras coletivas e também de terras privadas. O líder comunitário diz que os brigadistas também podem se expressar, podem dar sua contribuição, cada um tendo a experiência de sua terra natal. E então falam vários – ingleses, alemães, franceses, italianos.
A seqüência é de um brilho de arrepiar, de emocionar. Coisa de gênio.
E aí então se percebe (pelo menos aí então eu percebi) que, não, senhor, o Loach não ficou doido. Ele quer discutir a pluralidade dentro da luta antifacista. Ele quer discutir como é multifacetada a esquerda, e como é difícil a convivência entre as várias faces. Sobretudo, ele quer mostrar como o stalinismo – centralista, imperialista, negociador, expansionista, torturador, antidemocrático – conseguiu condenar à morte a maior tentativa de se chegar ao socialismo que a história já registrou.
É na seqüência brilhante sobre o microcosmo do pequeno vilarejo que ele mostra onde ele quer ir. E em seguida vai amplificando isso, na discussão sobre os rumos da própria frente ampla antifacista. Aos brigadistas independentes não se fornecem armas e munição adequadas. Há um racha entre eles próprios sobre o que é melhor. David, o operário desempregado de Liverpool, vota pela preservação das brigadas, contra sua absorção pelo Exército Comunista. Mas a precariedade das armas e os argumentos de gente que ele ouve em Barcelona, para onde foi, ferido por uma espingarda velha que explodiu em seus braços, o levam a se inscrever no exército republicano regular.
O espectador fica sabendo que ele fez essa opção junto com Blanca, uma brigadista de seu regimento, que vai a Barcelona dormir com ele, e, tendo já dormido, descobre a farda em sua bolsa, na manhã seguinte, e o abandona imediatamente, depois de xingá-lo de stalinista. Pouco depois, em um bar, ouvindo asneiras ditas por soldados do exército republicano, e pior, enfrentando do lado regular os igualmente antifacistas brigadistas e anarquistas, ele faz a opção, rasga a carteira do Partido Comunista e volta para o antigo regimento.
Há duas cenas em que Loach parte para a baixaria do primarismo, sem qualquer pudor. Estão os republicanos lutando entre si em prédios diferentes de Barcelona, e David descobre que do outro lado está outro inglês. Eles conversam aos berros. Você é de onde? De Manchester. E eu sou de Liverpool; o que você está fazendo aí? Mais ainda: no meio dessa mesma luta entre irmãos, uma mulher do povo grita para os dois lados: Parem de se matar uns aos outros e vão matar fascistas, porra!
Antes, na tomada pelos brigadistas do vilarejo então dominado pelos fascistas, morre um companheiro de David, um irlandês corajoso até a loucura, que era o amante de Blanca. No enterro do irlandês e das demais vítimas, Blanca faz um discurso brilhante, antes que todos cantem – apoiados por uma brilhante, emocionante, inesperada entrada de bateria – a Internacional.
Se você não viu o filme, não leia a partir de agora
Depois que David volta para seu regimento de brigadistas, onde reencontra Blanca, chega o exército republicano regular, exigindo que os brigadistas deponham as armas. A cena é, novamente, baixaria, primarismo, sem pudor. O coronel que chefia as tropas tem a cara feia, infeliz, brutal, idêntica à de um fascista puro e simples.
Blanca é morta nessa cena, em um momento em que Loach se permite, à la Peckinpah, à la Arthur Penn em Pequeno Grande Homem, uma seqüência em câmara lenta, a violência bestial mostrada a menos do 24 quadros por segundo – para ver se a porra do espectador se coça, para ver se a besta do espectador pensa alguma coisa, ou, pelo menos, sente alguma coisa.
Na cena do enterro de Blanca, em seu povoado onde as terras haviam sido coletivizadas (mas seriam descoletivizadas um ano depois, pelo exército stalinista), ouvimos de novo o mesmo discurso que Blanca havia feito tempos atrás, no outro enterro, sobre a necessidade de ter forças para lutar.
É no povoado de Blanca que David ganha o lenço vermelho que tinha sido dela. E, no momento do enterro dela, embrulha um pouco da terra coletivizada. Esse punhado de terra será devolvido (do pó ao pó, tu és pó e ao pó retornarás) à terra em Liverpool, nos dias de hoje, pela neta de David, sobre seu caixão. É impossível deixar de chorar.
Quem tiver vontade, pode pensar, é claro. O stalinismo, parece que é o que Loach pensa, foi o germe que levou à derrota do socialismo nos anos 80. A direita, como bem sabemos, e Loach nos relembra, sempre foi coesa (la derecha a todo lo envilece, como se dizia no Chile em 1973), enquanto a esquerda sempre se dividiu em 432 facções diferentes.
O impressionante, no caso deste filme esplêndido, é mostrar que, apesar de tudo, a esperança não morre. E na cena final a neta do velho operário que tinha esperança levanta o braço direito na antiga saudação dos que acreditavam. Para o velho Loach, a esperança não morreu.
Terra e Liberdade/Land and Freedom
De Ken Loach, Inglaterra-Espanha-Alemanha-Itália, 1995.
Com Ian Hart, Rosana Pastor, Iciar Bollain, Tom Gilroy
Roteiro Jim Allen
Cor, 109 min.


2 Trackbacks
[...] Terra e Liberdade/Land and Freedom, 1995; [...]
[...] para diversos filmes importantes (Ligações Perigosas, O Pescador de Ilusões, Terra de Sombras, Terra e Liberdade), compôs a [...]