Tempos de Viver / Hoozhe


Nota: ★★★½

Anotação em 1996: Um filme tão belo e bom quanto pesado e triste. Acompanha a trajetória de uma família numa cidade do interior da China, desde os anos 40, antes da guerra civil entre nacionalistas e o Exército Vermelho, até depois do furacão da revolução cultural de Mao no final dos anos 60.

Suscita estranhos questionamentos, agora que o comunismo acabou na Europa e na própria China sobrevive mais como forma de eliminar liberdades do que como modelo econômico.

A primeira reação racional que vem é a antiga: pô, esse cara está sendo reacionário, está batendo no cão que já está quase morto.

A reação racional vai pras cucuias pela força dramática da história e da competência extrema com que o diretor Yimou a conta.

E aí vem outra reação racional: pô, mas o cara não está culpando o comunismo, e sim os desvios do comunismo chinês, e especialmente os radicalismos dos chefetes, dos inspetores de quarteirão.

E depois vem uma terceira reação racional: caceta, no Ocidente o cinema serve pra apontar os males, as feridas e os podres do sistema ocidental; por que é reacionário que um chinês aponte os males, as feridas e os podres do comunismo na China?

De qualquer forma, é espantoso que o governo totalitário chinês tenha permitido que este filme fosse feito.

Uma seqüência é especialmente brutal: a da hora do nascimento do neto do casal principal, no auge do radicalismo maoísta. Os médicos do hospital, assim como antigos chefes de vilas e bairros, foram banidos como sendo vendidos para o capitalismo, e o hospital está entregue às jovens estudantes. O pai do garoto, da Guarda Vermelha, consegue tirar de um cortejo que expõe ao ódio popular os vendidos ao capitalismo um professor de obstetrícia, para que ajude no parto. Mas ele chega faminto demais; como o avô da criança traz sete pães para ele, enquanto aguardam a hora do nascimento, ele passa mal porque come depressa todos os sete pães depois de dias de jejum; a mãe do garoto tem hemorragia, e as enfermeiras não sabem o que fazer, e ela morre.

E no final fica um gosto amargo de que a mensagem do filme é mais ou menos assim: o povo humilde não tem nada a ver com política; a politica é a arma dos poderosos que acaba só fodendo o povo.

É uma moral que eu sempre considerei reacionária, retrógrada. O velho Brecht deve ter se revirado mil vezes no caixão. Mas o filme é competente demais pra ser descartado por qualquer pessoa que não seja militante cega de alguma ideologia – qualquer ideologia. É uma obra de arte inquietante – e não é essa uma das grandes funções da arte?

Tempos de Viver/Hoozhe

De Zhang Yimou, China, 1993.

Com Gong Li, Ge You, Niu Ben, Guo Tao

Roteiro Wei Lu e Hua Yu

Baseado em sua novela

Cor, 125 min.

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