
Nota: 



Anotação em 1996: Uma beleza emocionante. O filme rompe aquela estrutura normal das tragicomédias em que a gente começa rindo e aos poucos vai deixando de rir e vai ficando amargurado. É dividido em dois tempos distintos, e a passagem da comédia para a tragédia se dá de repente, num momento só, o momento em que Joe Morelli cruza pela segunda vez com o carabinieri, agora tornado delegado, e é preso, espancado pela máfia e na saída da prisão encontra a Beata louca.
Mas vamos por partes.
Cinema Paradiso era uma elegia à magia do cinema. Aqui, Tornatore usa a magia do cinema como uma ilusão que é vendida por um escroque para as pessoas humildes do povo. Joe Morelli, o personagem central, percorre pequenos vilarejos da Sicília – percebe-se de cara que é final dos anos 40, o pós-guerra; depois veremos que deve ser 1949, ou comecinho dos anos 50 (em entrevista, Tornatore esclarece: é início dos 50) – com uma máquina de filmar, cobrando 1.500 liras de quem quiser fazer um teste, na esperança de transformar-se em artista de cinema e ganhar milhões.
O escroque usa a magia do cinema como a única esperança daquelas pessoas miseráveis, ignorantes, sem qualquer horizonte, de mudar de vida, de ganhar dinheiro e fama. Usa a magia do cinema como forma de achacar gente humilde. No final, faz uma elegia do povo miserável da Sicília, ao mesmo tempo em que faz um panfleto que denuncia a miséria, a ignorância, a exploração do povo pelos ricos de todos os matizes, contra a própria absurda má divisão de riquezas – e isso num dos sete países mais ricos do mundo.
Em quatro quintos do filme, enquanto Joe Morelli, o escroque com um restinho de caráter, vai explorando o povo, e escapando astutamente de ser flagrado, o tom é de amor à magia do cinema; no finalzinho, o riso acaba, e Tornatore afunda na tragédia.
No primeiro encontro de Joe Morelli com o policial, este quer fazer um teste; quer saber se seu teste será visto por De Sica, Visconti, Rossellini. Chama-se Mastropaolo; traduziu Dante para o siciliano, e estava então preparando a tradução de Othelo. Diz para a câmara (que não tem filme algum): “Caros Rossellini, Visconti, caro De Sica. Sou um policial só porque meu pai era policial. Mas juro que esta vida nào é pra mim. Eu sonho mais alto. Mas, aqui, o que sonhar?”
No segundo encontro, Mastropaolo já havia levantado a ficha suja de Morelli, e o prende. O texto dele para o descobridor de talentos que o havia enganado é o resumo do filme: “Somos uns coitados. Moças, camponeses, estudantes… e até policiais. É só prometer sucesso e fortuna que a gente acredita na hora. (…) Todos se confessaram para você. Entragaram a você suas almas. E provavelmente nunca mais vão vê-lo. E você não entendeu nada. Eles confiaram em você. Até eu confiei. E você só pensou em roubar aqueles trocados.”
Se você não viu o filme, não leia a partir de agora
A primeira parte do fim tem um quê de Bye Bye Brasil, a troupe (neste caso de uma pessoa só) vinda dos maiores centros vendendo ilusões no interior bravo. O final também tem: quando sai da prisão, tendo repensado a vida e concluído que no passado foi um grande filho da puta, e procura Beata, Joe Morelli janta num restaurante e, perto dali, as pessoas se reúnem para ver TV. Onde tem espinha de peixe, como dizia o personagem de José Wilker, não cabe mais vender a ilusão do circo ou do cinema.
O próprio Tornatore fez a comparação entre este filme e o Cinema Paradiso. Disse que Paradiso é “uma espécie de sublimaçào do amor pelo cinema, da perfeição do cinema”, enquanto este “representa o outro lado da moeda, a capacidade que o cinema tem de desiludir, enfeitiçar e, de vez em quando, fazer sofrer e trair”. Sobre a Sicília, onde nasceu, ele diz: “Na Sicília podem ser encontradas todas as contradições possíveis. Acredito que não exista um conflito que não esteja ali presente.”
Em outra entrevista, Tornatore disse: “Em Cinema Paradiso o amor pelo cinema estava em primeiro plano e a Sicília ficava em segundo. Em O Homem das Estrelas a Sicília está em primeiro plano.”
Sonia Nolasco acertou quando disse que importante é o fascínio de Tornatore pela gente humilde da Sicília: “Extrai de seus atores tristeza, alegria, esperança, dor, medo e amor.”
O Homem das Estrelas/L’Uomo delle Stelle
De Giuseppe Tornatore, Itália, 1995.
Com Sérgio Castellitto, Tiziana Lodato
Arg. Giuseppe Tornatore
Roteiro Giuseppe Tornatore e Fabio Rinaudo
Música Ennio Morricone
Fotografia Dante Spinotti
Cor, 113 min
2 Comentários
Servaz querido, parabéns pelo site ! Mas existe uma falha gravíssima : cade o comentário sobre “Cinema Paradiso” ?
Beijos,
Patrícia
Obrigado pela mensagem em si e pelo elogio, Patrícia querida. E a falha está aí devidamente anotada. Não tem Cinema Paradiso, não tem Blade Runner. não tem Twin Peaks, não tem A Missão, não tem A Vida dos Outros… Só para citar outras lacunas pelas quais já fui cobrado pelos amigos… Mas eu chego lá, algum dia eu chego lá…