Não Amarás / Krotki Film o Milosci


Nota: ★★★☆

Anotação em 1996: Um filme muito, muito triste, amargo, desesperançado. A moral seria mais ou menos assim: não amarás – ou então, caso ames, serás tragado pelo inferno da infelicidade, da solidão, da falta, da ausência, da privação. Ou ainda: o amor não é encontro, é necessariamente desencontro, frustração, vontade que não pode ser saciada. Ou ainda: o amor é sempre unilateral e nunca tem duas vias ao mesmo tempo.

Kieslowski é um genial diretor de atores. Todos estão perfeitos, dos protagonistas aos figurantes. A música, do mesmo Zbigniew Preisner de sempre (esse competentíssimo compositor fez a trilha de toda a trilogia das cores, Branco, Azul e Vermelho), é simples, triste, linda. O diretor sabe criar atmosfera, envolver o espectador no mundo de seus personagens.

A história: garoto de 19 anos, problemático, órfão, desesperadamente solitário, que vive em apartamento com a mãe do amigo que está servindo exército, espiona, primeiro com binóculo, depois com luneta, mulher madura, de uns 30 anos, que vive no apartamento em frente. Ele trabalha no Correio; ela não tem atividade definida – pinta, tem amantes e provavelmente tem um trabalho fora, porque volta para casa todas as noites às 20h30.

A princípio ele apenas espiona. Vê, sem perceber o que está acontecendo, ela brigar com um amante, e chorar de amargura pelo fim do caso. Ele coloca na caixa de cartas dela aviso para ela pegar correspondência na agência de Correio, apenas para vê-la. Passa a entregar leite de manhã no bairro, apenas para vê-la. Quando ele manda o segundo aviso e ela vai ao Correio para não encontrar encomenda alguma pela segunda vez, ela apronta confusão na agência, reclama; ele a segue e conta que foi ele que pôs os avisos, para poder vê-la. Ela pergunta por que, ele responde que a ama. Ela pergunta se ele quer beijá-la, ele diz que não; pergunta se ele quer transar, ele diz que não, que não quer nada.

Nesse momento, ela o enxota. Mas em seguida, um tanto por curiosidade, um tanto por se sentir lisonjeada, ela o convida para um encontro, depois o leva para a casa dela, permite que ele toque a mão em suas coxas. Ele toca, e com o toque goza. Foge imediatamente para sua casa, e tenta o suicídio, cortando os pulsos.

Ela, então, se apaixona por ele. Passa os dias esperando que ele volte do hospital, examinando as janelas do apartamento dele com um binóculo.

 Se você não viu o filme, não leia a partir de agora

 O filme tem uma estrutura circular e, no final, me pareceu, um estranho flashback-forward em direção ao que poderia ter sido e não foi – assim como Era Uma Vez na América, só que muito mais óbvio do que o riso nervoso de Robert De Niro na casa de ópio. A primeira cena – uma mão tenta tocar no pulso enfaixado de outra pessoa, e a mão de uma terceira pessoa retira a mão que tenta tocar no pulso – reaparece a dois minutos do final, quando ela vai visitá-lo na casa dele. Ele está dormindo. Ela tenta tocar o pulso dele, mas a mãe adotiva dele afasta sua mão. E ela olha pela luneta dele, para a casa dela, onde está se passando naquele momento a cena do choro de desespero do fim de caso que ele na verdade no passado observou; só que ele chega naquele momento, para consolá-la.

Doidinho, o Kieslowski.

Doidinhos são também os autores dos meus alfarrábios. Depois de escrever minhas impressões acima, fui à cata de informações. No Cinemania, o filme, que pertence ao Decálogo criado pelo diretor, é apenas citado na filmografia do Kieslowski, mas não há verbete sobre ele, de nenhum dos três críticos. Nos EUA, o filme chamou A Short Film about Love. (Não Matarás chamou A Short Film about Killing.) O Cinéguide traz. O nome em francês é semlhante ao americano que, parece, segue o original polonês: Brève Histoire d’Amour.

Não Amarás/Krotki film o milosci

De Krzysztof Kieslowski, Polônia, 1988

Com Grayna Szapolowska, Olaf Lubaszenko, Stefania Iwinska.

Roteiro Kiewslowski e Krzysztof Piesiewicz

Música Zbigniew Preisner

Cor, 82 minutos.

4 Comentários para “Não Amarás / Krotki Film o Milosci”

  1. Muito poético e belo, isso sim! Não é filme pra distrair olho com cenas de ação sem sentido ou muita movimentação, mas um filme que embala o espírito, prende a atenção pelo prazer de pensar… é comum mesmo quem produz poesia pura através de qualquer meio ser chamado de doido… Tchau

  2. Mais uma história de amor platónico, como tantas já vimos e todas aquelas que são boas, são diferentes e não cliches. O filme tem diversas possíveis interpretações. Será o amor apenas sexo, como defende Magda de início, ou será algo mais? Magda acaba por dar razão a Tomek concluindo que o amor vai além do sexo.
    Todo o filme é muito simples em termos de realização, contrastando com um enredo quase perturbador – esta mistura faz do filme algo genial.
    A banda sonora é lindíssima, triste e intrigante.
    A escolha de atores foi ótima, conseguimos sentir o enorme vazio na vida de Magda, conseguimos sentir a obsessão de Tomek quase como se estivéssemos na pele dos personagens. Para mim isso é importantíssimo, o filme ganha imediatamente um novo patamar de qualidade quando os atores nos proporcionam as suas emoções desta maneira.
    O modo como o realizador nos faz questionar coisas para as quais temos respostas preconcebidas das quais, de inicio nao duvidariamos é algo maravilhoso e com uma enorme influencia. Vejo que isso está cada vez menos presente no cinema americano, e nao tenho estado a par da atualidade do cinema europeu, mas tenho esperanças de que nao tenha perdido toda a sua qualidade, pois sempre conseguimos notar a diferença entre ambos.
    Mais uma grande obra de Kieslowski, e confesso que me senti lisonjeada ao notar as referências à lingua portuguesa presentes no filme!

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