Guantanamera


Nota: ★★★½

Anotação em 1996: Uma delícia, tão bom, competente e bem feito quanto o anterior da dupla de diretores cubanos, Morango e Chocolate. (Alea morreu em abril deste ano, 1996.) É igualmente crítico dos erros do regime cubano, mas com uma crítica feita com amor e simpatia. A rigor, é ainda mais crítico que o anterior, é mais contudente no ataque à rigidez do regime, à incapacidade do regime de se adaptar, abrir brechas na estrutura imutável desde 1960.

Mas é de fato uma crítica sem ranço, sem reacionarismo, sem nem um pouquinho de baba na gravata. É tudo bem humorado, pra cima, gostoso, com um grande encantamento pelo povo cubano – mostrado como exatamente igual ao brasileiro: maroto, esperto, capaz de se virar, curtindo fazer pequenos trambiques, apaixonado pelos prazeres da vida, do sexo à bebida, comida, cigarro.

É tudo bom – a música, a fotografia, os atores. O roteiro é delicioso. Simples, com um fiapinho de história e muitos casinhos dentro dela, praticamente esquetes. Um road movie, na melhor tradição – e Alea e Tabío aproveitam para mostrar paisagens lindíssimas da ilha, assim como as mazelas da pobreza trazida pelo embargo americano e ampliada com o fim do subsídio que era dado pelo império soviético: o casario lindo apodrecendo, a falta de infra-estrutura, a falta de comida.

Usa muito bem pitadinhas de realismo fantástico: a menininha que aparece para o músico idoso, lembrança que ele tem da infância da cantora que saiu aos 17 anos de Guantánamo e conquistou o mundo, mas nunca saiu da memória dele. Usa flashbacks em preto e branco brilhantes, curtinhos, quando a ex-professora encontra o ex-aluno, os dois atraídos um pelo outro mas incapazes de concretizar o amor por ela ser casada.

A história: Yoyita, a cantora nascida em Guantánamo, que saiu de sua cidade aos 17 anos, volta agora, 50 anos depois, para ser homenageada; é recebida pela sobrinha, a ex-professora, Gina, e revê o namorado da adolescência, um músico da orquestra local, Cândido (acho). Quando se encontram e conversam sobre o passado, fazendo planos de nunca mais se separarem, ela morre.

Em ação paralela, vemos o marido da sobrinha, uma pessoa que já teve postos importantes na estrutura do regime, e hoje é o encarregado do serviço funerário de Guantánamo. Ele está em Havana, junto com seus pares das várias cidades do país, discutindo exatamente como e onde enterrar os mortos – se em suas cidades natais, se no lugar que a família escolher, se nas cidades onde acontecessem as mortes. E vence justamente a posição defendida por ele, a de que a responsabilidade deve ser distribuída por todas as cidades, e as pessoas devem ser enterradas onde viveram os últimos anos da vida. O corpo de Yoyita, portanto, deve atravessar o país, do extremo Leste, Guantánamo, ao extremo Oeste, Havana.

Durante a viagem, Gina se encontra diversas vezes com o ex-aluno, hoje um caminhoneiro safado e mulherengo. Há todos os tipos de peripécias e, quase no fim, a inevitável troca de caixões.

O encarregado do serviço funerário é a encarnação da burocracia rígida do regime cubano. A crítica é ferina, virulenta.

Há um diálogo especialmente delicioso. O caminhoneiro conta para o companheiro que, na faculdade, estudava uma matéria chamada Comunismo Científico. Ultimamente, a matéria tinha passado a se chamar Socialismo Científico. E o companheiro brinca que no futuro ela será substituída por Capitalismo Científico.

Guantanamera

De Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, Cuba-Espanha-Alemanha, 1995.

Com Mirtha Ibarra, Jorge Perugorria, Carlos Cruz, Conchita Brando

Roteiro Eliseo Alberto, Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío

Música José Nieto

Fotografia Hans Burman

Cor, 105 min.

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