
Nota: 



Anotação em 1996: Um filme absolutamente extraordinário. Depois de vê-lo, me agora ocorre uma comparação que poderá parecer absurda para muita gente: acho que Clint Eastwood é hoje o diretor de maior sensibilidade do cinema – para falar das sensações, das emoções dos homens. Depois de velho, Clint Eastwood ocupou o lugar que era de François Truffaut.
Antes de falar do filme, é preciso fazer uma consideração pessoal. Neste mês de janeiro de 1996 é a segunda vez que vejo um filme inédito e absolutamente extraordinário de Clint Eastwood. Então a verdade dos fatos é que, para mim, hoje, ver pela primeira vez um filme de Clint Eastwood é como ver um Woody Allen ou um Lelouch. Eu me sento para gostar do que vou ver. Com a clareza e a nitidez de que vou gostar, venha o que vier. E de fato o que vem é sempre puro brilho.
Não li nada ainda sobre este As Pontes de Madison, de 1995, que se segue a Os Imperdoáveis (1992) e a Um Mundo Perfeito (1993). Não conheço nada sobre o autor do romance em que o filme se baseia, nem sei se o roteirista (que também não conheço) foi fiel ao original.
(Estas informações em itálico foram colocadas aqui bem posteriormente, em junho de 1996, quando li material sobre o filme. O romance de Robert James Waller, publicado em abril de 1992, foi um grande best-seller nos EUA; vendeu zilhões, diz a revista Premiere americana de julho de 1995. Richard La Gravenese tinha feito o roteiro de O Pescador de Ilusões/Fisher King.)
Me lembro de novo da minha amiga Andrea Maura falando que o ritmo dos filmes dirigidos por Clint é arrastado demais. Que os deuses abençoem o ritmo arrastado demais de Clint. O fato é que certamente ele é hoje o nome mais importante, reconhecido, famoso, garantia de bilheteria farta do cinema mundial que ousa fazer filmes com ritmo arrastado, mais parecido com o ritmo da vida do que com o ritmo do cinema – em especial dos filmes “de ação”, que, é sempre bom lembrar, Clint Eastwood ajudou a moldar como ator.
As Pontes de Madison me fez lembrar dois filmes recentes e brilhantes: Na Época da Inocência, de Martin Scorsese, e Vestígios do Dia, de James Ivory. O último porque também conta a história de um grande amor que poderia ter existido, se os protagonistas tivessem se permitido. E o primeiro porque também mostra a crueldade com que os padrões de comportamento de uma sociedade sacrificam uma grande paixão.
A história é simples, simplérrima. Francesca vive numa fazenda “perdida no meio do nada”, como diz a própria personagem de Meryl Streep, ou mais exatamente no meio de Iowa; ela reconhece que o marido é bom e decente e que as pessoasinhas que a cercam são boas e decentes (embora não admitam a existência de amor fora do casamento), mas de alguma forma é capaz de admitir que não era essa a vida com a qual ela sonhava quando jovem. Numa determinada ocasião, em 1965, o marido e os dois filhos adolescentes vão passar quatro dias fora, em uma feira estadual. Exatamente durante esses quatro dias ela tem a grande experiência da sua vida, aquela experiência que é capaz de transformar um ser humano banal numa pessoa sublime.
O tremor de terra vem na forma de um fotógrafo que trabalha para a National Geographic Society, e está em Iowa pra fotografar um tipo de ponte coberta que é típico daquele lugar perdido no centro dos Estados Unidos. Depois de quatro dias de intensa paixão, daquela coisa com a qual ela seguramente já não sonhava mais, ela tem que decidir se abandona tudo ou se fica onde sempre esteve.
O brilho da história simples é realçado apenas pelo absurdo talento de Meryl Streep, pela profundíssima sensibilidade do diretor Clint Eastwood e pela música de fundo que se ouve no rádio, sempre perfeita para cada momento – Dinah Washington, Johnny Hartman. Não há nada mais que isso – nenhuma pirotecnia de câmara, de qualquer tipo, nenhum corte especial na mesa de montagem.
Meryl Streep já se cansou de provar que tem todos os recursos extraordinários de atriz superdotada. Já mostrou todos os sotaques possíveis e imagináveis, já teve todas as caras, já fez os tipos mais sofridos que se possa imaginar, já fez comédia, já até cantou com brilhantismo. Mas eu não me lembro de nenhuma interpretação dela melhor que a de Francesca. Cada pequeno movimento dos braços, cada sorriso, cada lágrima é brilhante. O rosto dela quando se entrega ao desejo que sente pelo estranho que abrigou em sua casa transmite mais sensualidade do que toda uma coleção de filmes pornôs.
Clint diretor encarrega o Clint ator de ser apenas uma escada para o brilho de Meryl Streep. Não está preocupado em brilhar como ator. Está lá, bom, correto, apenas para deixar Meryl Streep dominar cada cena em que aparece.
Resenha para a revista Bárbara, em 1996: A história de As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, EUA, 1995, Warner) é simples, simplérrima - e linda, emocionante. Numa fazenda “perdida no meio do nada”, vive Francesca, uma mulher de meia idade que reconhece que o marido é bom e decente e as pessoazinhas que a cercam são boas e decentes, mas é capaz de admitir que não era essa a vida com a qual sonhava. O marido e os dois filhos adolescentes vão passar quatro dias fora, e exatamente aí ela tem a grande experiência da sua vida, aquela que é capaz de transformar um ser humano banal numa pessoa sublime. O tremor de terra é um fotógrafo que aparece ali por causa de um tipo de ponte coberta que só existe naquele lugar opaco. Depois de quatro dias de intensa paixão, daquele amor com o qual já não sonhava mais, ela tem que decidir se abandona tudo ou se fica onde sempre esteve.
O brilho da história simples é realçado apenas pela profundíssima sensibilidade do diretor Clint Eastwood, pela música que se ouve ao fundo no rádio, sempre perfeita para cada momento, e pelo absurdo talento de Meryl Streep. Ela já se cansou de provar que tem todos os recursos extraordinários de atriz superdotada, mas não há nenhuma interpretação sua melhor do que esta de Francesca, uma mulher igual a tantos milhões de outras, a quem de repente o destino brinda com a erupção de um vulcão. Cada pequeno movimento dos braços, cada sorriso, cada lágrima é brilhante. O rosto dela quando se entrega ao desejo pelo recém-chegado transmite mais sensualidade do que toda uma coleção de filmes pornôs junta.
As Pontes de Madison/The Bridges of Madison County
De Clint Eastwood, EUA, 1995.
Com Meryl Streep, Clint Eastwood
Baseado em romance de Robert James Waller
Roteiro Richard La Gravenese
Produção Clint Eastwood e Kathleen Kennedy, Amblin e Malpaso
Cor, 135 min


8 Comentários
Pontes de Madison é maravilhosamente perfeito
Tá bom, preciso me redimir.
Não vou enfrentar terapia para descobrir o que me incomodou em Francesca…
Mas preciso dizer que, hoje, adoro os filmes do Clint, especialmente Menina de Ouro, ele é mesmo brilhante!
Beijos!
Grande Andréa! Você já se redimiu completamente, e não precisa enfrentar terapia alguma. Que coisa boa que você agora gosta dos filmes do Clint. Você – inteligente, sensível, maravilhosa – merecia isso. Abração.
Filmes arrastados? esta geração esta se acustumando a filmes tipo video game.
Gostei de uma definição, antigamente se pegava uma boa estoria e se colocava alguma ação no meio, hoje se pega boas cenas de ação e coloca alguns dialogos no meio. Isto não quer dizer que não gosato de filmes feitos hoje, mas alguns são exagerdados.
Gosto muito deste filme e também de Clint.Pena que ele está envelhecendo como eu que em 1965 o conheci em Um Punhado de Dolares. Para quem começou como caubói, no cinema ele se saiu muito bem. Um ator e diretor de inegável talento. UM MESTRE.
Talvez o que incomodou a Andréa em relação à Francesca, foi o mesmo que me incomodou: aquele jeito exagerado de sorrir a um desconhecido que ela levou para casa na ausência da família, puxa vida como eu achei vulgar e horrível na primeira vez em que vi o filme. Mas, algum tempo depois, tendo amadurecido um pouco mudei de opinião em relação à história. Quanta sensibilidade aquela mulher transmite com a descoberta e a renúncia de um amor, que parecia impossível de ser vivido àquela altura da vida. A cena da chuva é tocnte. Esse filme me fez rever meus conceitos sobre infidelidade.
Que mais posso dizer?
Por acaso ontem vi este filme que adoro.
A comparação com François Truffaut acho-a correctíssima. Quanto a Claude Lelouch e a Woody Allen…
Quanto ao primeiro acho que não conheço, só de nome, e com respeito ao segundo não concordo nada, penso que ele fica a milhas de distância.
Eu simplesmente amo este filme!!!
Talvez aos olhos masculinos a forma como Francesca recebe aquele homem em sua vida, um completo estranho, possa parecer vulgar. Aos meus olhos, femininos e mui românticos, é a forma de quem sente, naquele momento ímpar, a possibilidade de viver um amor inesquecível. E quem não quer um amor assim? Um sentimento que pode servir de âncora para o resto de uma vida condenada ao naufrágio da mais absoluta rotina. Francesca é ,acima de tudo, uma mulher de muita coragem. Viver um grande amor, tão único e intenso, e ter de abrir mão em nome de outros amores e responsabilidades… não deve ser uma escolha fácil. Como também não é abrir mão de uma família e de sua estabilidade (entenda-se acomodação?).
A própria intensidade com que este breve amor é vivido já é um prenúncio do fim.
Como se não bastasse a história, o filme é um primor pela fotografia e pela trilha sonora; os protagonistas, por sua vez, dispensam quaisquer adjetivos!
Só para finalizar: já perceberam a sonoridade que há no título deste filme?
Um Trackback
[...] do Espaço, 2000) e uma história de amor, uma das mais belas que o cinema americano já mostrou (As Pontes de Madison, [...]