O Clube da Felicidade e da Sorte / The Joy Luck Club


Nota: ★★★½

Anotação em 1995: Um filme sobre mães e filhas, os encontros e desencontros, as expectativas de uma em relação à outra, as frustrações, os mal-entendidos, o peso que uma exerce na vida da outra. São quatro pares de mãe e filha. Na verdade, é um detalhe o fato de que todas as mães sejam chinesas que emigraram para os Estados Unidos. Embora haja muitas referências à cultura chinesa, à tradição em que as quatro mães foram criadas, o filme é absolutamente universal porque o que conta é a relação de cada uma com sua filha, de cada filha com sua mãe.

Não há torcida para qualquer uma das partes; não se procura responsabilizar filhas ou mães pelos fracassos e dificuldades das relações, nem pelo que elas têm de acerto. As quatro histórias podem seguramente ser interpretadas pelo espectador da forma como ele preferir, quer dizer, as mães podem preferir enxergar mais o lado positivo das mães, assim como as filhas podem valorizar o papel das filhas ou se identificar com o eventual peso deixado pelas mães em sua história particular. Ou seja: ele é multifacetado, não tem uma nota só, e isso é boa parte de seu brilhantismo.

As quatro mães têm coisas em comum, assim como cada uma tem suas peculiaridades, claro. A primeira coisa em comum, claro, é a nacionalidade, a origem – embora o extrato social de onde venham não seja sempre o mesmo. A segunda coisa em comum é o fato de que todas saíram de seu país de origem para viver nos EUA. Mas isso realmente não é fundamental. Todas elas têm em sua vida pessoal uma grande tragédia; são mulheres que sofreram muito, no passado. Mas a característica comum mais importante das mães é que todas elas amam muito suas filhas, e tudo que queriam era proporcionar para elas uma vida melhor.

Todas as filhas têm em comum o fato de que tiveram, de verdade, uma vida melhor do que a das mães – tanto em termos materiais quanto na forma que as vida as tratou. Nenhuma delas teve, na verdade, uma grande tragédia pessoal – ao contrário das mães. Cada uma tem seus problemas pessoais, suas limitações, suas dificuldades de se relacionar com a mãe e eventualmente também com o mundo. E normalmente é assim que é na vida, né? E em geral as mães cobram isso das filhas: no meu tempo as coisas eram mais difíceis, etc, etc.

Boa parte da grandeza do filme – além das atrizes maravilhosas, dos diálogos muito bons, sérios, bom espelho do que é essa relação tão delicidada e tão fundamental – vem dessa coisa de que o roteiro e o diretor não tomam partido, não são absolutamente maniqueístas. Uma mãe e uma filha que virem o filme juntas poderão ter pontos de vista opostos sobre cada história. Mas dificilmente nenhuma mãe ou filha deixará de se identificar com uma ou outra situação; mais ainda: dificilmente deixará de se emocionar, porque o filme é extremamente emocionante. E quem quiser usar o filme como uma ajuda para procurar entender melhor o que houve de certo ou de errado na sua relação com sua mãe ou sua filha terá muito material para reflexão.

Claro, é um filme sobre o universo feminino. Os homens não têm a menor importância. São mulheres que tiveram filhas mulheres. Homem é acessório – importante, claro, mas acessório.

Mary nota que todas as relações têm um clímax, um momento em que, apesar de toda a história de desencontros, mãe e filha não que resolvem suas diferenças, mas ao menos compreendem o lado da outra.

O Clube da Felicidade e da Sorte/The Joy Luck Club

De Wayne Wang, EUA, 1993.

Com Tamlyn Tomita, Ming-Na, Lauren Tom, France Nuyen, Lisa Lu, Kieu Chinh

Roteiro Amy Tan e Ronald Bass

Baseado no livro de Amy Tan

Música Rachel Portman

Cor, 139 min.

4 Comentários

  1. Valéria
    Postado em 14 janeiro 2009 às 4:43 pm | Permalink

    ESTONTEANTE! É um dos filmes mais marcantes que já assisti. Fiquei encantada como a história das mulhetes chineses é marcada pelo sofrimento da conquista na China bem como a forma pela qual tudo repercutiu em seu relacionamento com suas filhas. Penei prá conseguir, mas finalmente comprei um livro, em um sebo. Não consigo imaginar como alguém “abandona” tamanha fortuna em um sebo… Mas, de certa forma, bendito seja ele por me dar a oportunidade de lê-lo.

  2. ROSANGELA MAINARDI
    Postado em 13 junho 2009 às 8:12 pm | Permalink

    Interessante, tem tanto tempo que assisti O Clube da Fel…e gostei tanto, que sempre que falava sobre cinema, me referia a ele como um dos belos filmes que havia visto, porém, para minha surpresa, era pouco conhecido.Para mim é um fantástico “tratado feminino”.

  3. Edison
    Postado em 6 janeiro 2012 às 12:21 pm | Permalink

    As atrizes orientais são ótimas ( a Tamlim Tomita, de origem japonesa e as demais, chinesas)!! A história, cativante. Mostra o complexo mundo feminino universal mãe-filha, com suas angústias, alegrias, lágrimas, rancores, desentendimentos. Adorei!!

  4. Postado em 28 julho 2012 às 10:28 pm | Permalink

    Só, praticamente , assisto filmes orientais e este está entre os 5 melhores que já vi..outros maravilhosos: A PARTIDA,AMOR A FLOR DA PELE,qualquer um do Zhang Yimou(O CLÂ DAS ADAGAS VOADORAS, HERÓI,A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA,A ÁRVORE DA VIDA,O CAMINHA PARA CASA,UM LONGO CAMINHO,TEMPO DE VIVER,LANTERNAS VERMELHAS,AS 13 FLORES DE NANQUIM…),PRIMAVERA VERÃO OUTONO INVERNO …E PRIMAVERA…, A BATALHA DOS 3 REINOS(o original tem mais de 6horas)…

    chatos-ADEUS MINHA CONCUBINA, HIROSHIMA MON AMOUR,MADAME BUTTERFLY

    ASSISTAM…

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Chocolate / Chocalat em 23 fevereiro 2010 às 3:02 pm

    […] Portman – dos grandes nomes da música para o cinema nos últimos anos, autora das trilhas de O Clube da Felicidade e da Sorte/The Joy Luck Club, Regras da Vida/The Cider House Rules e Confidencial/Infamous – é uma maravilha. Ela ajuda a […]

  2. […] primeiros filmes, por causa dessa particularidade, ficaram restritos a pequena divulgação. O Clube da Felicidade e da Sorte, produzido por Oliver Stone e distribuído pela Columbia Pictures, deu-lhe prestígio […]

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