O Carteiro e o Poeta / Il Postino


Nota: ★★★☆

Anotação em 1995: O filme se baseia em fatos verídicos – a estranha amizade que surge, numa pequena ilha da Itália, em 1953, entre um carteiro que mal sabe ler e o poeta Pablo Neruda, que o governo italiano aceitou como exilado do Chile desde que ficasse quieto em lugar distante e não perturbasse.

Massimo Troisi está brilhante como sempre em seu último filme (morreu em 1994, mesmo ano de produção do filme, do coração, absurdamente jovem – tinha apenas 41 anos). A música, muito boa, é do Bacalov, que fez Os Saltimbancos. A fotografia é linda, e as paisagens são espetaculares.

Mas a maior grandeza do filme é a ternura com que lida com a amizade tão improvável entre o poeta e o iletrado, entre o comunista das letras e o simplório homem do povo. Para conquistar Beatrice (o nome, claro, remete a Dante), o carteiro diz para ela versos que Neruda escreveu para sua própria mulher; o poeta diz a ele que ele roubou, ao que ele responde, no que talvez seja o diálogo mais brilhante num filme de ótimos diálogos: Eu não roubei; a poesia é de quem precisa dela, e eu precisava. E o comunista Neruda diz: É, é uma forma interessante de apropriação de um bem.

O filme é extremamente poético, engraçadíssimo às vezes e de chorar em poucas. Dei umas choradinhas.

Um complemento em novembro de 2012:

Ivan Kojakkk, que tem se revelado um dos mais assíduos leitores destas anotações, me mandou uma mensagem perguntando se Massimo Troisi morreu durante as filmagens. Disse ele: “Para mim, se ele morreu durante as filmagens, o final do filme teria mais sentido. Mesmo sendo um filme lindíssimo, maravilhoso, não gostei, não vi muito sentido na morte dele.”

Fui procurar minha anotação sobre Il Postino e me espantei ao ver como ela é curtinha. Se eu mesmo me espanto, imagine o eventual leitor…

Seria necessário explicar que este site traz anotações feitas apenas para mim mesmo, logo após ver os filmes. Eram anotações sem qualquer pretensão de serem abrangentes, informativas; eram feitas apenas para gravar, para mim mesmo, minhas opiniões e sensações sobre os filmes. Uma espécie de diário.

Somente a partir de julho de 2008, quando criei este site, foi que passei a fazer anotações mais longas, mais detalhadas. Mas inclui nele o que havia escrito antes, quando não imaginava a possibilidade de tornar públicos os textos. É o caso deste texto aqui sobre Il Postino.

Sobre a morte de Troisi, o IMDb diz o seguinte:

“Troisi literalmente deu sua vida para fazer Il Postino. Ele estava consciente dos problemas de seu coração e tinha sido alertado de que precisava se tratar, mas acreditava que fazer o filme era mais importante. Morreu 12 horas depois que a câmara parou de filmar.”

E a Wikipedia diz:

“Troisi morreu de um ataque cardíaco na casa de sua irmã em Ostia, Roma, 12 horas depois que as filmagens principais de Il Postino haviam terminado. Foi dito que ele adiou a cirurgia para completar o filme.”

A Wikipedia acrescenta que Troisi teve uma indicação póstuma para o Oscar de melhor ator por sua atuação no filme. Foi um dos únicos sete atores indicados postumamente, ao lado de Jeanne Eagels, James Dean, Spencer Tracy, Peter Finch, Ralph Richardson e Heath Ledger.

O Carteiro e o Poeta/Il Postino

De Michael Radford, Itália-França, 1994.

Com Massimo Troisi, Philiippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta, Linda Moretti

Baseado no romance Ardiente Paciência, do chileno Antonio Skarmeta

Música Luis Enriquez Bacalov

Cor, 108 min.

 

2 Comentários para “O Carteiro e o Poeta / Il Postino”

  1. Que beleza de filme,que maravilha,verdadeiro esplendor.Foi melhor ainda,ir dormir ontém depois de assistir a esta obra.
    O filme é poesia pura.É contagiante demais a pureza e a simplicidade do Mario.De fato,a fotografia e as paisagens são belíssimas.
    Belos diálogos e,concordo contigo quanto ao do”roubo da poesia” e,tbm gostei muito deste quando Neruda diz para o Mario”:é muito melhor dizeres uma coisa de que estás convencido,do que ser um poeta e dizer bem o que os outros querem que digas”.
    Esse ator,o Philippe Noiret,tbm esteve muito bem em “Cinema Paradiso”,lembras?
    Confesso com um pouco de vergonha que ainda não li nada de Neruda mas,depois deste filme vou fazer isto.
    Impressionante a firmeza da amizade e o respeito e a admiração que Mario tinha por Neruda.Até batizou o filho de Pablito.
    Meus olhos ficaram marejados sobretudo,no final,quando Neruda volta à casa de Mario.
    Mas,confesso que não esperava aquele final.
    Um filme lindíssimo, repito.

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