Os Imperdoáveis / Unforgiven


Nota: ★★★★

Anotação em 1992: Vi hoje uma obra-prima, um belíssimo filme: Unforgiven/Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood.

Outro dia vi uma matéria em que alguém reclamava da excessiva citação de filmes que o cinema anda fazendo. Metalinguagem demais, reclamava o crítico.

Estou achando, neste momento, que Unforgiven é o melhor western que já foi feito, em toda a história do cinema. Talvez, exatamente, por ter sido feito em 1992, cem anos, quase, depois do The Great Train Robbery. O filme mamou em cem anos de western. Aprendeu com um século. Por isso pode ultrapassar tudo – John Ford de uma maneira geral, o jovem e o velho; Matar ou Morrer; Shane; os do fim da época, os do pôr-do-sol, como Pistoleiros do Entardecer e O Último Pistoleiro/The Shootist; e todos os westerns pós descoberta de que o índio é ser humano, das obras de John Ford já velho até Pequeno Grande Homen/Little Big Man, e vindo até os anos 80, com o ecológico Dança Com Lobos.

Unforgiven é um western que reflete as preocupações do final do século XX. É uma espécie de Grand Canyon passado não hoje, mas um século atrás. Mais ainda: é um filme que faz reflexões sobre o cinema, e o que o cinema de massa fez, neste século – especialmente o culto à violência.

Quando o filme terminou, ouvi comentários de um grupo que estava atrás de mim. “Só no finalzinho foi que melhorou um pouco”, disse alguém.

Desde que o cinema nasceu, o western foi o gênero mais clássico. É possível que ele tenha servido para disseminar, massivamente, a defesa da violência. Hoje a violência no cinema é banalizada, assim como na vida, no dia-a-dia das pessoas nas grandes cidades. Clint Eastwood fez um western para se refletir sobre a violência – como Stanley Kubrick fez Glória Feita de Sangue e Nascido para Matar/Full Metal Jacket, como Coppola fez Apocalypse Now, como Dalton Trumbo fez Johnny got his gun para que se reflita sobre as guerras.

Tudo, no filme, é genial. Desde as palavras do narrador na cena de abertura – a mãe de Claudia nunca entendeu por que, ela sendo bonita e tendo pretendentes, acabou se casando com um pistoleiro, um assassino. A mãe de Claudia nunca entendeu a filha, jamais soube quem ela era, o que pensava e o que queria da vida. O próprio personagem de Claudia é fantástico – um personagem que não aparece uma vez na tela (quando a ação começa ela já está morta) – e no entanto é um personagem fundamental na estrutura do filme.

A mulher que não aparece uma vez no filme foi quem refez a cabeça do personagem central, Bill Munny, interpretado pelo próprio Clint Eastwood. Por ela e aprendendo com ela ele refez a vida. Nunca mais pegou numa arma, em dez anos; nunca mais montou num cavalo. Nunca mais bebeu um gole. “Eu mudei; não sou mais daquele jeito”, ele repete, umas 20 vezes, ao longo do filme.

A relação com a bebida é fantástica. O jovem que tem vontade de ser como os velhos pistoleiros pergunta a ele se era verdade que, em uma determinada ocasião, ele havia matado duas pessoas ao mesmo tempo. Ele diz: “Eu não sei; eu não me lembro; estava sempre bêbado”. A bebida é sempre associada à inconsciência, e a inconsciência, à capacidade de matar.

O ritmo é lento, propositada e genialmente lento. Depois do lead – o plano geral, contra a luz e contra o pôr-do-sol, da cabana do agora fazendeiro Bill Munny, a tumba de Claudia bem perto da casa, e a voz do narrador em off, que só aparece na primeira e na última tomadas, dizendo que a mãe de Claudia não entendia por que a filha se casou com um assassino -, vem uma seqüência rápida, de ritmo acelerado, o vaqueiro mutilando a prostituta porque ela deu um sorriso ao ver o seu pau pequeno. Depois dessa seqüência, que é o sublead, todo o resto do filme é lento. (Por isso a pessoa que estava atrás de mim reclamou.) Quase com a lentidão exagerada, overdose, do Sergio Leone.

(Absolutamente não à toa, o filme é dedicado a Sergio Leone e a Don Siegel.)

Porque não é um filme de ação. Não é um filme com violência. É uma reflexão sobre a violência. É para pensar. E as platéias não vão entender. As platéias que querem ver sangue, violência, vão ficar frustradas.

Os dois assassinatos dos vaqueiros são absolutamente geniais. No primeiro, o amigo (Morgan Freeman) de Bill Munny não consegue atirar. Sente-se enojado. Não tem forças. Bill Munny, sangue frio, mesmo depois de dez anos longe da antiga profissão, precisando do dinheiro para melhorar a vida dos filhos, executa. Mas executa sem prazer, apenas por obrigação profissional. O vaqueiro baleado sente sede, pede água – e o assassino berra para que os companheiros da vítima dêem água para ele. (Algumas pessoas, no cinema, riram. Não estavam entendendo absolutamente nada.) É a cena que coloca o western no mesmo nível dos maiores e mais brilhantes libelos antimilitaristas.

No segundo assassinato, a cena é igualmente brilhante. O garoto que quer ser pistoleiro mas é míope mata o sujeito que deformou o rosto da prostituta enquanto ele cagava. Indefeso, naquela pose literalmente de merda.

A cena seguinte – Eastwood e o jovem esperando a prostituta que vem trazer o pagamento pelas execuções – é, além de visualmente arrepiante, de emocionar. O garoto confessa que foi seu primeiro assassinato. Vai bebendo no gargalo, saboreando o feito, e ao mesmo tempo enfrentando a ressaca, moral e cívica.

Em cem anos, o cinema glorificou, glamourizou, endeusou a força bruta, a violência, o assassinato, a execução. Em cem anos, a violência se banalizou, entrou para o dia-a-dia de cada um. A maior parte dos filmes hoje, e de resto há pelo menos três décadas, tem sucesso se explora sexo (de preferência doentio) e violência. Clint Eastwood teve parte nesse processo – como ator em westerns, vários deles dirigidos por Sergio Leone, e policiais, vários deles dirigidos por Don Siegel, a quem o filme é dedicado. Em Unforgiven, que poderia ter sido a despedida, a mensagem final, ele pensa sobre tudo isso. Na seqüência final, mata cinco homens, e promete matar quem mais aparecer. Mas faz isso para se livrar de uma vez por todas do passado. Sai para uma outra vida.

Uma segunda chance.

Nem Lawrence Kasdan, em Silverado, conseguiu tanto. Realmente, Unforgiven é uma espécie de Grand Canyon. Belo, belíssimo filme.

Os Imperdoáveis/Unforgiven

De Clint Eastwood, EUA, 1992.

Com Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris,

Argumento e roteiro David Webb Peoples

Música Lennie Niehaus

Produção Malpaso, Warner.

Cor, 131 min.

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