Retratos da Vida / Les Uns et les Autres


Nota: ★★★★

Anotação em 1983: E a crítica que não toque na poesia, disse Caetano Veloso, o ídolo mais incensado pela crítica deste país. E a crítica que não toque na poesia. Prepotente, dono da verdade, o pavão não quer que ninguém diga que ele tem os pés feios. Ele adora o seu umbigo, os seus pés; que ninguém toque neles. Quem diria. Caetano, o que dizia que é proibido proibir, o que queria derrubar as prateleiras, as estantes, louças, livros, sim. Agora ele diz não a quem diz não a ele.

E, no entanto, que a crítica não toque na poesia. Quer dizer, a crítica jamais chega de fato a tocar a poesia. Não chega lá. Pode tentar tocar, à vontade. É proibido proibir. Em frente, senhores críticos, apesar do que diz nosso segundo maior compositor popular. Critiquem à vontade. Façam o seu ofício, exerçam sua profissão. Bela profissão de merda. Mas jamais vão conseguir de fato tocar a poesia.

Esses pensamentos me vêem à cabeça porque, a caminho do Cine Belas Artes, li na IstoÉ novinha em folha a crítica de Zé Márcio Penido ao último Lelouch, Les Uns et Les Autres. Depois de três horas de puro encantamento, de pura alegria, saí do Cine Belas Artes assobiando embaixo de uma chuva digna de musical da Metro. E vim pensando no verso do Caetano Veloso, e nas imbecilidades que o Zé Márcio Penido escreveu sobre o último Lelouch, e sobre as imbecilidades que eu escrevo sobre a poesia dos outros, e sobre la vie l’amour la mort.

Antes de o filme começar, Lelouch adverte os espectadores de que só existem duas ou três histórias na vida. E em seguida nos conta umas dez histórias, na realidade variações das duas ou três únicas histórias que existem na vida. Que vida é isto aí, nos adverte o terceiro maior músico popular deste país, sem precisar ficar puto com a crítica, porque ele sabe, ele deve saber, com a sabedoria mineira que Minas lhe deu, que a crítica pode tentar tocar na poesia à vontade, o problema é que nenhuma crítica chega aos pés da poesia. Que a vida é isto aí: a gente nasce, cresce, morre e não é feliz, como dizia o Paulo José num diálogo inesquecível de Todas as Mulheres do Mundo. Às vezes até é feliz, nos diz Lelouch, um otimista inveterado; ou quase sempre é feliz. Eu era feliz e não sabia.

A vida é isto aí: a gente nasce, cresce, tem filhos, é ou não é feliz, e morre. Tem gente que sabe dizer a beleza que existe entre um e outro verbo, está aí Milton Nascimento pra não me deixar mentir. Está aí Claude Lelouch, pra deixar a gente feliz, feliz, feliz, numa noite feia de muito frio e muita chuva na melhor cidade da América do Sul.

Um novelão, disse Zé Márcio Penido. Ora, mas que grande babaca. Não que ele não tenha o direito de dizer quantas asneiras quiser; que ele diga todas as asneiras a que tiver direito. Ele não deve é interferir na minha relação com a poesia, na relação das pessoas, dos leitores, dos espectadores, com a obra de arte.

Lelouch é um mágico. Não é só um artista, um artesão maravilhoso. É um mágico.

Tem 20 filmes que ele vem sempre dizendo a mesma coisa: as pessoas nascem, crescem, têm filhos (ou não), são felizes (ou não) e morrem. Não há mais nada a dizer. Há? Não, existem só duas ou três histórias. O resto é mágica, amor, felicidade, infelicidade, encontro, desencontro, sonho, beleza. Dona Regina disse há poucos dias que se sente frustrada, puta da vida, por não ser poeta. Entendi isso quando saí do Cine Belas Artes. Claro, eu também queria ser mágico como Lelouch. Eu também queria transmitir essa mágica sensação de amor que ele transmite a milhares de pessoas de uma só vez. Não sou, e daí? Sou capaz de ser feliz, muito mais feliz que os críticos de cinema, que têm que falar besteiras sobre a mágica que os outros conseguem criar e eles não; sou capaz de ser feliz porque sou capaz de receber a mágica na minha cabeça.

A gente nasce, cresce, tem o dom de receber a mágica antes que a corda bamba nos solte – ou não. Prefiro o sim.    

Retratos da Vida/Les Uns et Les Autres

De Claude Lelouch, França, 1981

Com Robert Hossein, Nicole Garcia, Geraldine Chaplin, James Caan, Fanny Ardant, Jean-Claude Brialy, Macha Méril, Francis Huster, Evelyne Bouix

Argumento e roteiro Claude Lelouch

Música Francis Lai e Michel Legrand

Cor, 184 min

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